Você que é biólogo...

20 Outubro 2008

Por que e para que


Quando eu era mais novo, nunca me interessei realmente pelos estudos. Quando cresci, descobri nas festinhas da minha turma - geralmente uma orgia de pizzas e crepes caseiros na casa do Maiô - onde conversas eram sobre temas que eu, muitas vezes, não tinha ouvido falar nem superficialmente e que os outros pareciam conhecer em profundidade; que eu tinha que recuperar o tempo perdido.

Mas por que eu nunca havia me interessado antes? Hoje eu descobri que eu sabia por que eu deveria estudar, mas não sabia para que. E pelo visto, meus professores também não.

Explico, mas não serei breve. Vou começar com uma historinha do livro "Deve ser brincadeira, Sr. Feynman", do físico americano Richard Feynman. Por favor, me acompanhem.

Quando esteve no Brasil em 1951, o físico Richard Feynman deu uma palestra na Aademia Brasileira de Ciências (ABC), onde disse que "não se está ensinando ciência alguma no Brasil".

Ele perguntou para o auditório cheio: "Qual um bom motivo para lecionar ciência?" E ele mesmo respondeu "Porque é importante para que um país possa se considera civilizado, blá, blá, blá."

Mas para ele, esse não é um bom motivo. E nós temos que ensinar ciência por um bom motivo. Sem um bom motivo, você acaba não ensinando nada.

Ele conta: "Tentei ensinar como resolver os problemas na física por tentativa e erro. É algo que as pessoas geralmente não aprendem. Comecei com alguns exemplos simples (...) e fiquei surpreso quando apenas 1 em 10 estudantes fez a tarefa. (...) Uma pequena delegação veio até mim , dizendo (...) que eles podiam estudar sem resolver os problemas, que eles já haviam aprendido aritmética. (...) É claro que eu já havia notado o que acontecia: Eles não sabiam fazer!"

"Depois participei de uma palestra na faculdade de engenharia (...) assim: Dois corpos são considerados equivalentes se... Os estudantes estavam todos sentados lá fazendo anotações (...). Eu era o único que sabia que o professor estava falando de corpos com o mesmo momento de inércia e era difícil descobrir isso"

"Depois da palestra falei com um estudante:

- Vocês estavam fazendo um monte de anotações. O que vão fazer com elas?
- Vamos estudar, teremos uma prova.
- E como será essa prova?
- Com perguntas como 'Quando dois corpos são equivalentes?'

Então, você vê, eles podiam passar nas provas, 'aprender' essa coisa toda e não 'saber' nada, exceto o que eles tinham decorado".


Parênteses: Vocês podem imaginar o rebuliço na ABC quando ele disse isso? Gostaria de ter estado lá. Fecha parênteses.

Quando li esse texto do Feynman, percebia o problema intuitivamente, mas ainda não tinha conseguido entender o que tinha acontecido. Como haviam chegado naquele ponto (que aliás, é o ponto aonde estamos até hoje)?!

Até que hoje, na aula da Rosita, lí o seguinte texto:

"Sem compreender o que se faz, a prática pedagógica é mera reprodução de hábitos existentes ou respostas que os docentes devem oferecer a demandas e ordens externas" (Sacristán e Gómez, 1998)

Nem olhei para os outros ítens. Esse era importante demais! Acho que tinha me lembrado do Feynman, só que ainda não sabia que tinha me lembrado. Esse é o problema que está antes de todos os outros! Qualquer um que assistiu aulas em uma faculdade sabe que ESSE é o maior problema do ensino no Brasil. Seja ele presencial ou a distância: O professor que não compreende o que faz acaba apenas 'propagando hábitos existentes'! E consegue somente que seus alunos reproduzam hábitos existente.

A Rosita então chegou no grupo e disse que isso acontecia porque o professor sabe por que ensina. Ele tem, e segue, seus objetivos. Mas ele não sabe para que ensina, qual a finalidade daquilo. Ele ensina para formar cidadãos? Ou para que as pessoas saibam somar? O Feynman tentou dizer isso para os nossos cientistas há 50 anos.

O por que é a resposta que encerra, a 'mera reprodução de hábitos existentes'. O para que é a pergunta que 'abre caminho'. O por que mantém o professor nos seus objetivos. O para que muda a atitude do professor.

Eu estudava por que. Estudava porque tinha de passar de ano, porque tinha que passar no vestibular. Não era um 'bom motivo' e por isso nunca me interessei pelos estudos. Na faculdade eu passei a estudar para que. Passei a estudar para poder mais. Sim, quem sabe mais, pode mais.

E é por isso que temos que ensinar. Para que todos possam poder mais.

19 Outubro 2008

Teste de relevância


Preciso falar sobre isso porque é algo que tomou grande parte do meu tempo esse ano. Essa semana começa o meu módulo no curso de especialização em Gestão em Educação a distância da Universidade Aberta do Brasil.

Uma das aulas que escrevi, trata do papel do professor em um mundo saturado de informação. É uma aula muito boa, que vem sendo bastante elogiada e da qual eu estou muito orgulhoso. Para essa edição da disciplina que se aproxima, bolei uma atividade online bastante simples, mas tão interessante e rica, que resolvi dividí-la com vocês.

O texto a seguir é um trecho da discussão entre o prof. Coleman Silk e a profa. Delphine Roux, personagens do livro “A Marca Humana” de Philip Roth (pp. 246-247).

“O grau de conhecimento desses alunos é, sacou, tipo assim, zero. Depois de quarenta anos lidando com esse tipo de aluno – e a senhorita Mitnick é bem típica – posso lhe afirmar que nada poderia ser pior para eles que uma leitura de Eurípides com uma perspectiva feminista. Apresentar aos leitores mais ingênuos uma leitura feminista de Eurípides é uma das melhores maneiras que se pode imaginar de desligar o raciocínio deles antes mesmo de ter oportunidade de começar a demolis o primeiro ‘tipo assim’ deles. Chego a achar difícil de acreditar que uma mulher instruída, com uma formação acadêmica francesa como a sua, seja capaz de acreditar que existe uma leitura feminista de Eurípedes que não seja pura bobagem. Será que você realmente se converteu em tão pouco tempo, ou será apenas uma manifestação do tradicional carreirismo ditado pela medo das suas colegas feministas? Porque se for mesmo carreirismo, por mim tudo bem. É uma coisa humana, eu compreendo. Agora, se for um compromisso intelectual com essa idiotice, então eu estou pasmo, porque você não é nenhuma idiota. Porque você é uma pessoa instruída. Porque na França ninguém na École Normale levaria essa bobajada a sério. Será possível? Ler duas peças como Hipólito e Alceste, depois ouvir uma semana de discussões em sala de aula sobre cada uma delas, e no fim não ter nada a dizer sobre as duas peças além de que são ‘degradantes para as mulheres’ – isso não é perspectiva coisa nenhuma meu Deus – isso é abobrinha. Abobrinha da Moda”

Após a leitura, proponho a pergunta: Qual a informação mais relevante desse texto? E as seguintes opções de resposta, pedindo que escolham apenas uma:

  1. O professor Coleman é machista e a professora Delphine é feminista.
  2. Quando um professor fornece uma interpretação de um texto ele direciona a interpretação que o próprio aluno pode fazer do texto.
  3. O público alvo de ‘alunos burros’ não deve ser tratado com burrice.
  4. Não há informações relevantes nesse texto ou não posso identificar informações relevantes nesse texto sem haver lido o livro e os clássicos gregos.

Eu proponho essa pergunta também a vocês, para responderem na nova enquete colocada no blog (veja ao lado). Sim, por favor, respondam antes de continuarem a leitura.

Em um mundo saturado de informação e com tecnologias que aprimoram a cada dia o armazenamento e o acesso das pessoas a essa informação, não há mais sentido na figura do professor como o detentor do conhecimento. Ou pelo menos, como o único detentor do conhecimento. Como disse Cristovão Buarque em entrevista a revista Isto É no ano passado:

O aluno que navegou a noite na internet, chega de manhã na aula sabendo coisas que o professor desconhece”.

Acredito que o papel do professor será cada vez mais de orientar o aluno na busca e seleção da informação. O professor será um especialista em relevância e o que ele ensinará para os alunos, independente da disciplina, é relevância: a arte milenar de separar o Joio do trigo. O problema é que os professores ainda não chegaram lá e eles próprios têm um problema para determinar relevância. Vamos analisar as respostas desse questionário.

  1. O texto diz que ele é contra uma leitura feminista do texto de Eurípides enquanto sugere que ela é a favor. Sim, há um tom autoritário e irônico no discurso de Coleman, mas não há elementos suficientes no texto para classificá-los, respectivamente, como machista e feminista. Porém, mais importante que isso é que esse não é o núcleo do discurso, e por isso não pode ser a informação mais relevante do texto. Quem marcou essa opção, fez uma leitura pessoal, que não pode ser sustentada pelas informações contidas no texto.
  2. Thomas Kuhn dizia que o ‘manual’ era um dos maiores inimigos do aprendiz de ciências, porque ao dar o procedimento final pronto, ele impedia que o aluno passasse pelo processo da descoberta, que tanto favorece a sua compreensão e aprendizagem. Essa é, para mim, a informação mais relevante do texto: o grande prejuízo de um professor fornecer para os alunos um raciocínio já pronto.
  3. O mesmo conteúdo pode ser ensinado para alunos com diferentes potenciais, mas certamente não da mesma forma, nem com as mesmas estratégias. Alunos que já sabem ‘pensar’ por si próprios podem começar a discussão de uma peça ou um autor, por uma de suas releituras. Alunos que ainda não sabem, precisam primeiro aprender a ter uma leitura. Dar uma leitura pronta para esses alunos, é auxiliar o ‘sistema’ no processo de exclusão educacional e social dessas pessoas. Não dar o conteúdo dos clássicos, porque ele é ‘difícil’ e tratá-las como burras. Nivelar por baixo. Um bom professor não pode fazer nenhuma das duas coisas. Nunca! Para mim essa não é a informação nuclear do texto, mas ainda assim é um acessório muito relevante.
  4. Esse fragmento de texto contém um discurso rico, independente do contexto em que foi pronunciado. É verdade que existem textos com lacunas demais, onde é praticamente impossível identificar o núcleo conceitual ou as prioridades do autor; mas na maior parte das vezes, não precisamos saber o todo para entender uma parte. As colocações contundentes certamente permitem que preenchamos algumas lacunas com precisão. Quem marcou essa opção, ou estava muito desatento, ou tem uma séria dificuldade para estabelecer relevância.

Outro dia vi no “Sem Censura” um gerente de RH falando que atualmente o que vale é inovação. É isso que se vende, é isso que se compra (ou pelo menos se vendia e se comprava antes das bolsas quebrarem) e é isso que as empresas querem dos seus empregados. Inovação. Mas para criar algo inovador e importante, é fundamental saber determinar o que é relevante entre o que já existe. Com os computadores ai para guardarem e procurarem a informação com uma eficiência maior do que qualquer ser humano jamais (?!) será capaz, o diferencial do professor, e de qualquer outro profissional, estará na sua habilidade de determinar a relevância da informação. Que é também o primeiro passo para a inovação.

Uma atividade como essa, pode ajudar o professor a sacudir a poeira do seu ‘paradigma de ensino’ e contribuir para uma nova postura com relação a informação, ao conteúdo e a transferência desse conteúdo para os alunos.