Você que é biólogo...

16 dezembro 2002

Institutos de Pesquisa e Fé e a Ética na ciência.

Algumas semanas atrás falei sobre clonagem, na onda da discussão sobre a proibição das pesquisas com embriões humanos. Naquele artigo relutei em falar sobre a ética aplicada a essa questão, por achar que os argumentos técnicos seriam mais importantes para formar a opinião geral.

No entanto, ao ler um livro essa semana que continha o discurso de Galileu Galilei, ao se retratar publicamente frente a inquisição romana, por defender suas idéias e estudos sobre o heliocentrismo (o sol como centro do universo e a terra em movimento ao redor dele), e ao ler no ‘Jornal da Ciência’ o artigo cujos trechos cito a seguir, não resisti a comentar o tema.

O artigo era de Evaristo Eduardo de Miranda, doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa e membro da diretoria do Instituto Ciência e Fé. Instituto de Ciência e Fé?!? Já desconfiei. Faço parte do grupo que não concorda que fé e ciência sejam compatíveis. Mas começo a achar que seja uma minoria, devido ao grande número de pessoas, incluindo pesquisadores renomados, que acreditam que isso seja possível. Tanto que pelo visto existe até um Instituto da Ciência e Fé, do qual o autor do cito artigo é presidente, e que pretende ser um “espaço privilegiado para o diálogo entre pessoas de diversos horizontes, perspectivas religiosas e políticas”. O saudoso Dr. Chagas, o maior cientista brasileiro do ultimo século, tinha o cargo, para mim insólito, de “adido científico do vaticano” só pra exemplificar.

O autor do artigo afirma que “nunca os princípios de humanidade estiveram tão ameaçados [...] por membros da comunidade científica...”, sendo que ele chama de “cientismo” uma utopia que “resolveria todos problemas da humanidade, satisfazendo todas as necessidades legítimas da inteligência humana”. E continua que “Seus adeptos não admitem limites em suas pesquisas, nem orientação e, muito menos, oposição. Mesmo quando ameaçam princípios fundadores de nossa humanidade”.

Princípios fundadores da nossa humanidade?!? Desconfiei de novo.

O que é a ética, a moral? Uma questão filosófica certamente importante e fora do escopo desse artigo e dessa coluna. Mas vale a pena ressaltar que nossa ética é quase toda baseada nos preceitos cristãos. E que, diga-se de passagem, não são preceitos naturais e estão longe de serem consenso entre a humanidade.

No ambiente científico, as questões éticas estão tendo uma importância cada vez maior. Por exemplo, qualquer pesquisador para obter um financiamento do importante Instituto Nacional de Saúde americano(NIH), tem que apresentar no seu currículo um curso de ética. O próprio instituto oferece seu curso “básico” de ética que tem sido freqüentado por um grande número de pesquisadores. Acredito que a ética na ciência esteja ligada com o fator da exploração da vida e da natureza, assim como em muitas outras questões. Animais não acreditam em Deus, e certamente as cobaias de laboratório não questionam ou procuram explicar seu Karma em função de vidas passadas. Porem, a exploração de um recurso em prol de outro gera encruzilhadas que muitas vezes são de difícil transposição. Por isso acredito mais em estratégias que sejam eficientes e sustentáveis em longo prazo, do que em preceitos morais filosóficos. Sejam eles católicos, cristãos, muçulmanos, budistas etc.

Para isso, precisamos aprender a desenvolver nosso senso crítico, e não nossa capacidade de crença. Esse curso de ética do NIH, apesar de algumas baboseiras típicas de americanos, como ensinar um pesquisador como se comportar com suas alunas para que não possam ser acusados de assédio sexual (tipo, jamais conversar sobre a tese no escritório de portas fechadas); ensinam mais a desenvolver o raciocínio crítico, dentro de um contexto científico atual e histórico. No Brasil uma tentativa pioneira nesse sentido foi aplicada por jovens pesquisadores no congresso da Federação das Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE) de 2001 em Caxambu. Mais de 150 alunos de graduação e pós-graduação estiveram presentes. Esperamos que o curso possa ser repetido na reunião de 2003.

Acredito que o verdadeiro objetivo da ciência seja descobrir a natureza e não resolver todos os problemas e ansiedades da sociedade humana. E ela cumpre seu papel a medida que mostra “como o mundo funciona” ao contrário de “como ele deveria funcionar” (o que é uma função da filosofia e da religião).

Por isso a melhor lição de ética que podemos dar a nossos cientistas é de desenvolver o senso crítico e não procurar verdades absolutas (até mesmo porque poucas existem). E repito que, o problema não é que ciência os cientistas fazem, mas que política os políticos fazem.

Talvez a clonagem seja muito perigosa. Ou não. E talvez seja um grande erro autorizar esses experimentos. Ou talvez seja um erro maior não autorizar. Acredito que quanto maior for essa dúvida, maior a necessidade de estudar e pesquisar o tema a fundo. Sem limites, sem proibições. Só assim poderemos conhecer o verdadeiro benefício e o verdadeiro perigo. E só assim poderemos tomar as decisões corretas do que fazer com eles. É sempre melhor que todos saibam o que pode acontecer, do que não saber nada.

“Eu, Galileu Galilei […] aos setenta anos de idade […] e ajoelhado diante de vós, Eminentíssimos e Reverendíssimos senhores Cardeais [...] juro que sempre acreditei, acredito agora e, com a ajuda de Deus, acreditarei futuramente em tudo o que é aceito pregado e ensinado pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana [...] Visto que, após me ter sido feita a injunção judicial por esse Santo Ofício [...] para que eu abandone por completo a falsa opinião de que o Sol é o centro do mundo e imóvel, e de que a terra não é o centro do mundo e imóvel, e me proibindo de aceitar, defender ou ensinar [...] a doutrina [...] escrevi e imprimi um livro no qual discuto essa doutrina [...] e por essa razão apontou-me o Santo Ofício como veemente suspeito de heresia [...] Assim sendo, visando dissipar [...] essa forte suspeita [...] abjuro, amaldiçôo e abomino os já mencionados erros e heresias, e de um modo geral todo e qualquer erro e seita que de qualquer maneira sejam contrários à Santa Igreja [...] Eu [...] jurei, prometi e me comprometi acima [...]”.

Giordano Bruno morreu queimado na fogueira por heresia 50 anos antes de Galileu proferir seu discurso para evitar a morte pela mesma razão. Eu me sinto horrível de pensar que daqui a 300 anos alguém possa ler sobre a nossa época e pensar que as pessoas que queriam estudar a clonagem tiveram de morrer na fogueira ou negar ridiculamente suas idéias como Galileu (diz a lenda que quando Galileu se levantou da sua posição de joelhos murmurou: “E no entanto ela se move”).

***

“Não é função do nosso governo impedir que o cidadão caía em erro. É função do cidadão impedir que o governo cai em erro”. Robert H. Jackson, Juiz da suprema corte, EUA. 1950.

30 julho 2002

Quem tem medo dos cientistas?

Em um recente artigo na folha de São Paulo, o cientista Marcelo Gleisser fala de todos os riscos das invenções tecnológicas propiciados pela ciência. Em um artigo da revista “Nature” dessa semana, um outro cientista fala como o trabalho da ciência com armamentos (químicos, biológiocs e nucleares) tem afastado jovens da carreira acadêmica e prejudicado a credibilidade da ciência junto a sociedade. Em seu livro 'O mundo assombrado pelos demônios', Carl Sagan fala do aumento de responsabilidade dos cientistas para com as novas descobertas, já que aumentou em muito a capacidade do homem de destruir a si mesmo e ao planeta, seja pelo meio de armas nucleares, seja por microondas, seja por destruição da camada de ozônio, desmatamento da Amazônia ou por acúmulo de lixo até a estratosfera.

Mas existe realmente razão para a sociedade ter medo dos “cientistas loucos” e seus brinquedinhos perigosos? Pego emprestada uma história contada por Sagan, mas relatada também por muitos outros cientistas que viveram o pós-guerra/fria nos EUA.

O físico húngaro Edward Teller, ainda jovem, fez grandes contribuições na mecânica quântica, física do estado sólido e na cosmologia. Em 1931, Teller levou o também físico Leo Szilard até a praia onde Albert Einstein tirava férias, propiciando o encontro que gerou a histórica carta de Einstein pra o presidente Roosevelt, sugerindo enfaticamente, em função dos recentes acontecimentos políticos, que os EUA montassem uma bomba de fissão nuclear (ou atômica) antes que os alemães o fizessem.

Os EUA juntaram a elite mundial da física e montaram o projeto Manhatan que construiu as duas bombas que foram detonadas em Hiroshima e Nagazaki. Apesar de sua participação no encontro histórico e do convite posterior para integrar o projeto Manhatan, Teller recusou. Não por que fosse contra as possibilidades da destruição atômica, e sim pelo contrário. Teller queria construir uma bomba de fusão atômica, ou bomba termonuclear, ou a bomba H (de hidrogênio). Quando os átomos de H se fundem formando o Hélio, liberam enormes quantidades de energia.

A capacidade destrutiva da bomba H é muitas vezes superior a bomba atômica, e enquanto existem limites para a potencia de uma bomba atômica, não existem limites para a de uma bomba H.

Apesar de ter sido a URSS a primeira potência a construir uma bomba termonuclear com eficiência (as idéias iniciais de Teller estavam bastante equivocadas, e o trabalho de muitos físicos foi necessário para corrigi-las, mesmo assim ele é considerado o Pai da bomba), os EUA ainda construíram MUITAS bombas H. Teller foi uma figura política importante para fomentar a corrida armamentista e a guerra fria. Ele gerou intrigas e minou a influência de Oppenheimer, o brilhante físico que comandou o projeto Manhatan e que no pós-guerra comandava a comissão de energia nuclear americana, e que era contra a chamada “Super”.

Em 1983 foi descoberto que os incêndios causados nas cidades pelas armas nucleares gerariam enormes quantidades de fumaça, que ficariam presas na atmosfera e poderiam abaixar a temperatura da Terra em uma média de 15 a 20 oC (as estimativas atuais mais precisas colocam entre 10 a 15 oC). Era o inverno nuclear, que destruiria qualquer nação que lançasse armas termonucleares, mesmo sem revide do adversário.

Teller chegou a declarar na revista “Time” sua “determinação quase fanática” em construir a “super”. Para justificá-la ele sugere que são as bombas termonucleares que mantém a paz, através da ameaça da sua utilização (ainda não tivemos uma guerra mundial não é mesmo). Ele propõe a utilização de bombas H para dragar portos (propôs isso a rainha da Grécia que respondeu que o pais dela já tinha numero suficiente de ruínas exóticas) e para estudar a composição química da Lua (estudando o espectro do clarão de da bola de fogo formado por uma explosão termonuclear). Ele tem sido o maior obstáculo para a assinatura de um amplo tratado de fim dos testes com armas nucleares, e foi ele quem propôs ao presidente Reagan a construção de um escudo no espaço formado por lasers de raio X impulsionados por bombas H. O polêmico projeto “Guerra nas estrelas”. Depois das guerras não parecerem mais uma ameaça para a humanidade, Teller tem defendido a explosão de uma nova geração de bombas super potentes no espaço para desviar ou destruir possíveis asteróides em rota de colisão com a Terra.
Enquanto Teller fazia todos os esforços para que o mundo reconhecer as bombas H (e ele) como salvadores da humanidade (ao invés de carrascos), ele foi o cientista que mais teve poder e responsabilidade sobre os riscos que a humanidade correu. Jeremy Stone, então presidente da federação de cientistas americanos escreveu que “com sua fixação pela bomba H, Edward Teller pode ter sido o ser humano que, mais que qualquer outro da nossa espécie, contribuiu para colocar em risco a vida no planeta Terra”.

A verdade é que grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Mas como disse o chefe da CIA uma vez, “o sigilo absoluto corrompe de forma absoluta”. Não precisamos de governantes que decidam com quais temas devemos ou não nos preocupar, quais conhecimentos são perigosos e quais não, e de quais verdades temos de ser “protegidos”. Apenas a ampla discussão das idéias, o desenvolvimento da consciência critica, a alfabetização literária, política e científica podem fazer isso, libertando o povo da ignorância que permite que tipos como Teller influenciem na política de uma nação inteira e no destino do planeta por mais de 5 décadas. Teller quase destrói o mundo com sua POLÍTICA e não com sua CIÊNCIA.

Depois de um século onde tivemos tipos como Stalin e Hitler e começando um outro com outros tipos como Bin Laden e Bush, é em nossas lideranças políticas que não podemos confiar cegamente.

15 julho 2002

O encontro dos presidenciáveis com a ciência

O que espera a Ciência do Brasil nos próximos anos? Graças a Deus (aquele no qual eu não acredito) o governo do Efêagá esta terminando. Quando da época do pareamento do real com o dólar, o orçamento do CNPq era de USD 642 milhões. Hoje é de R$ 642 milhões. Além disso, o governo federal contingenciou 45% do valor que seria repassado este ano.

Em uma tentativa de tentar responder a pergunta no inicio do parágrafo anterior, a sociedade brasileira para o progresso da Ciência (SBPC) em sua 54ª Reunião Anual, no campus da Universidade Federal de Goiás, elaborou o 'Encontro com os Presidenciáveis com a ciência' realizado na última quinta-feira. Um fracasso! Apenas o candidato, José Maria, do PSTU, compareceu, e pôde apresentar livremente todas as suas idéias, por mais polêmicas que fossem.

Garotinho, que tinha garantido presença, na última hora, como tem se repetido com alguma freqüência nas suas participações em reuniões científicas, foi impedido por um “problema grave” no Rio de Janeiro (compreensível). Mas tudo bem; Garotinho mandou seu principal assessor para a área de C&T, Wanderley de Souza, cientista de renome e ex-secretário de C&T/RJ, que apresentou o pronunciamento inicial, previamente elaborado, do candidato. Alem disso, a atuação de Garotinho frente a fundação de amparo a pesquisa do Rio de Janeiro, FAPERJ, nos seus quase 4 anos de governo foi muito louvável. Ele aumentou em muito os recursos do estado para a pesquisa, criou uma estrutura para dedicar definitiva e diretamente verba do tesouro estadual para a instituição, que por sua vez conseguiu recuperar a credibilidade frente à comunidade cientifica Fluminense.

Lula, que tinha garantido participação, foi sorteado para falar ao 'Jornal Nacional' da Rede Globo justamente na hora do evento da SBPC. É... a corda rompeu do lado mais fraco (compreensível). Mas o candidato do PT ao menos tinha comparecido no evento na segunda-feira, dia 8. Lula conversou com a presidente da SBPC, Glaci Zancan, e com a reitora da UFG, Milca Severina Pereira, e explicou os motivos de sua ausência no programa desta quinta-feira. E o principal: Lula deu publicidade às idéias básicas de seu programa de governo para a área de C&T.

O que fizeram Ciro Gomes e José Serra? Logo que a assessoria de Ciro recebeu a carta-convite da SBPC, de 13 de maio, o senador Roberto Freire, presidente do PPS, partido de Ciro, respondeu a um telefonema da assessoria de imprensa da SBPC e confirmou a participação de Ciro. Posteriormente, a assessoria de Ciro disse que ele viria e depois disse que não viria. A carta-convite da SBPC não mereceu a consideração de uma resposta por escrito. Quanto a Serra, seu coordenador de agenda enviou à SBPC um fax, daqueles primores de comunicação formal e burocrática (uma resposta padrão), apenas 3 horas antes do evento, alegando que 'o senador' estava 'impossibilitado de comparecer por conta de compromissos anteriormente assumidos'. E esse era o ministro da saúde!
De qualquer forma, mais ou menos, a gente sabe o que a ciência pode esperar de cada candidato.

Mas, na ausência dos presidenciáveis, a comunidade teve tempo suficiente para discutir e elaborar propostas que serão entregues aos presidenciáveis

O básico: que o Brasil tenha diretivas de C&T em longo prazo! E que elas sejam respeitadas. Pedem um pouco mais de consideração com as instituições que ajudaram a colocar o Brasil na 17ª posição no ranking mundial de produção científica, sendo um dos 20 paises que contribuem com uma produção científica superior a 1% da produção mundial. No que se refere ao desenvolvimento tecnológico, nossa situação é pior, pois ocupamos hoje a 43a posição em um ranking elaborado pela ONU. Isso por que complexo técnico-científico brasileiro está localizado principalmente nas Universidades públicas e em centros de pesquisas públicos e foi, em sua quase totalidade, criado à margem do sistema produtivo.

Que a área econômica entenda que a manutenção dos recursos para ciência e tecnologia precisa ser permanente. Que "Não podem ser vistos como custo. Mas como investimentos". Ex: Há cerca de 10 anos o Brasil remetia algo em torno de 300 milhões de dólares a título de importação de tecnologia; hoje, essa despesa já representa cerca de 2,5 bilhões de dólares, sem que necessariamente esse aumento extraordinário se devesse às demandas de nosso desenvolvimento.

Na abertura da reunião da SBPC, o ministro de Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, se disse "constrangido" com a atual situação financeira do MCT. Para um país onde estima-se que existam cerca de 200 mil pessoas envolvidas em atividades de C&T, o que representaria cerca de 0,13% da população (índice este ainda muito baixo quando comparado até mesmo com nossos vizinhos), esperamos mais que isso dos nossos ministros e futuros presidentes.

17 junho 2002

Qual a idade da vida? (Da série: Minha mãe, a Chita, ou o que é a Seleção Natural?)

“O homem se desenvolveu de um óvulo com um diâmetro de aproximadamente 1/125 polegadas, que em nenhum aspecto difere dos óvulos de outros animais [...] O próprio embrião, em um período muito inicial, não pode ser distinguido do de outros membros do reino dos vertebrados [...] As fendas na lateral do pescoço permanecem [...] e os ossos do cóccix projeta-se como uma verdadeira cauda, que estende-se consideravelmente alem das pernas rudimentares [...] Descobrimos que o homem descende de um quadrúpede peludo, dotado de cauda e orelhas pontudas ...” (Charles Darwin em A ancestralidade humana)

Até Darwin, o homem era algo especial. Basicamente diferente dos outros animais. O mundo e o universo tinham sido criados por Deus para o Homem e por nenhuma outra razão. Em a origem das espécies, Darwin falava pouco sobre o ser humano. Foi apenas 12 anos depois, com sua teoria bastante reconhecida, que ele tomou coragem para publicar “A ancestralidade humana”, um calhamaço de mais de 1000 paginas tentando explicar com todas as suas forças de onde viemos. Como na época de Darwin não existiam fósseis, foram às observações do desenvolvimento de embriões que forneceram as principais provas da descendência humana.

Mas Darwin não conseguiu explicar como os caracteres hereditários eram transmitidos de pais para filhos e, conseqüentemente, como as pequenas mudanças que acarretavam na transformação de uma espécie em outra eram adquiridas. Foi na cidade de Brno, na atual República Checa, que os (hoje clássicos) experimentos com ervilhas que explicam a transmissão dos caracteres genéticos foram realizados pelo monge Gregor Mendel.

Mendel não se interessava por genética. Na verdade a genética não existia. Filho de camponeses pobres, ele se interessou por agricultura desde pequeno. Depois de se ordenar padre e estudar história natural, matemática e estatística. Ele cruzou milhares de pés de ervilhas para estudar as proporções numéricas resultantes entre cruzamentos de uma classe e outra. Seu interesse era, por exemplo, se cruzando plantas altas e baixas o resultado seriam plantas altas, baixas ou médias. Depois de analisar milhares de ervilhas ele descobriu que algum tipo de partícula, que existiam aos pares nos seres vivos, era responsável pelos caracteres observados nos organismos. A altura, a cor da pele dos olhos e dos cabelos, o sexo etc. Hoje sabemos que essas “partículas” são os genes.

Apesar das 5 regras que Mendel descreveu, e que valem até hoje, para todos os seres vivos, seu trabalho foi tido primeiramente como estatístico e apenas no começo do séc XX foi redescoberto por Hugo De Vries (que descobriu as mutações) e teve sua imensa importância reconhecida.
A partir daí, foram necessários apenas mais 50 anos para a descoberta de estrutura em dupla hélice do DNA e outros 50 para a clonagem da ovelha Dolly.

A 4 bilhões de anos atrás, na era pré cambriana, da famosa sopa primordial, emerge a vida, na forma de uma célula bacteriana. Durante os 3 bilhões de anos seguintes as bactérias colonizam a terra e apenas há 600 milhões de anos atrás a 1a forma de vida multicelular apareceu.

Durante a era Paleozóica a vida explode. Há 545 milhões de anos atrás a vida aquática se diversifica; a 425 milhões de anos aparecem os moluscos com conchas e a 395 milhões de anos os animais terrestres. Há 280 milhões de anos atrás aparecem os répteis. Depois de um devastador evento de extinção a 250 milhões de anos atrás, os répteis evoluem e dominam a terra, até 65 milhões de anos quando se extinguem (muito provavelmente devido ao tal meteoro que todo mundo já ouviu falar).

O clima da terra muda e se resfria um pouco e as florestas pluviais dão lugar a prados e bosques. Os mamíferos se diversificam e 4 milhões de anos atrás aparecem os primeiros membros da família humana dos primatas. A cerca de apenas 50 mil anos apareceu o primeiro Homo sapiens.

É pouquíssimo intuitivo pensar em termos de bilhões e milhões, ou mesmo milhares de anos. São certamente escalas de tempo que escapam a nossa percepção e dificultam a nossa compreensão. Mesmo assim, o ser humano é uma espécie muito nova, com uma grande capacidade de modificar o ambiente para promover sua adaptação, mas que ainda trás consigo marcas fortes de sua origem menos evoluída e que provavelmente ainda sofrera grandes transformações em sua estrutura.

10 junho 2002

A seleção Natural - 2a parte

Quase todos os organismos possuem uma maquinaria, seja fisiológica, bioquímica ou genética para se adaptar as mudanças do ambiente. Enzimas que não são utilizadas até que sejam necessárias, genes que não são transcritos até que sejam induzidos, vias metabólicas que não são ativadas até que outras sejam inibidas. Algumas pessoas podem apresentar uma capacidade de adaptação maior para alguns eventos (resistência ao frio, sensibilidade a luz, audição mais aguçada) do que outras. Isso por que a genética de cada um é diferente. Essa variabilidade vem principalmente de dois mecanismos, as mutações e o intercruzamento de genes (crossing-over) no momento da divisão celular que reduz o numero de cromossomas a metade (meiose) para preparação das células sexuais reprodutoras, vulgos gametas. Essas “capacidades especificas” de cada pessoa, registradas nos genes do DNA, podem ser transmitidas de uma geração para outra. E nesse princípio que se baseia a Seleção Artificial quando os homens escolhem animais com características especificas para serem cruzados dando origem a prole com as características de ambos os pais.

Tudo bem, mesmo Darwin com sua impressionante capacidade de observação não conseguiu explicar a transmissão das características hereditárias. O melhor que ele conseguiu fazer foi sugerir a idéia absurda de que pequenas partículas de nosso corpo eram enviadas aos órgãos sexauis onde se fundiam em pequenas sementes de nós.

As mutações acontecem naturalmente com uma determinada freqüência (que é baixa) seja por resultado de erros no momento da replicação do DNA, seja por estímulos ambientais externos como exposição a radiação quando vamos tirar um Raio-X, ou simplesmente por pegar uma boa dose de UV na praia no final de semana. Alguns elementos como o Urânio e o Tório são naturalmente radioativos, mas quase todos os elementos apresentam isótopos radioativos (por isso podemos dosar a idade de minerais pelo isótopo 14Carbono). Até mesmo uma árvore possui certa quantidade de isótopos radioativos de elementos comuns como sódio, carbono e potássio.
Em grande parte das vezes as mutações são negativas, ou sejam não conferem nenhuma capacidade melhor do organismo se adaptar ao ambiente. Para essas mutações cotidianas a que estamos expostos possuímos excelentes mecanismos de reparo.

Mas de tanto em tanto, alguma mutação que confere uma grande capacidade adaptativa aparece. Essa capacidade pode não ser percebida até que uma mudança drástica no ambiente ocorra. Por exemplo, um pombo que nasça com o bico levemente curvado para o lado pode passar despercebido na população. Mas se um dia os velhinhos parassem de jogar milho nas praças e os pombos precisassem buscar alimentos embaixo das cascas de árvores, e nesse caso, talvez os pombos com bicos tortos levassem uma vantagem. Eles conseguiriam mais alimento e teriam maior chance de chegar a idade da maturidade sexual, se reproduzindo e deixando descendentes, todos com bicos tortos e, conseqüentemente, com mais facilidade para se alimentas, crescer e reproduzir. Em algumas gerações todos os pombos teriam bicos tortos.

O principio da exclusão competitiva e da seleção natural, que é melhor traduzida pela expressão “a lei do mais adaptado”ao invés de a lei do mais forte, pode ser aplicado não só a biologia mas a diversos campos do conhecimento, como as ciências exatas e humanas. Por isso acho importante, termos claro em mente que o ambiente é capaz de causar mutações, mas essas sempre serão aleatórias e nunca “encomendadas”. O clima frio nunca fará com que o filhote de cobra nasça com um casaco de pele. Mas certamente um filhote de cobra que nasça com esse casaco de pele terá mais chance de sobreviver e reproduzir caso a temperatura em seu habitat caia bruscamente e por um longo período. A seleção natural sempre vai atuar em um leque existente de possibilidades de adaptação no ambiente, e nunca “encomendar” uma característica aos genes.

Por isso, vamos esquecer aquela história intuitiva de que a girafa tem o pescoço comprido de tanto estica-lo para comer as folhas de árvores mais altas.

O responsável por desvendar o mistério da hereditariedade foi o monge Gregor Mendel. Mas isso é uma história para semana que vem.

03 junho 2002

Tudo acaba em Pizza

A ciência tem sempre de ser séria. Ou melhor, confiável. O que não quer dizer que não seja engraçada de vez em quando. Talvez quando estejamos tratando de temas menos “científicos”, digamos. Como por exemplo a pesquisa do Dr. Hisch, do instituto de aromas de Chicago (só poderia ser nos EUA). Essa particular instituição tem como objetivo estudar o efeito dos aromas nos seres humanos. Um objetivo bastante nobre, eu diria, dados os efeitos de feromônios (aquelas substâncias que funcionam como mensageiros e, por exemplo, podem ativar o desejo sexual) e outras substâncias no nosso organismo.
Enfim, este senhor descobriu, após testar mais de 40 combinações de odores, que a mistura de tomate, mozzarela e orégano, ativa de forma significativa em até 40% a circulação de sangue do órgão sexual masculino. Ou seja, a pizza Marguerita é um tremendo Viagra. Gatinhas, dá próxima vez que forem convidadas pra comer uma pizza e tomar um chopp... já sabem do que se trata (é.... como se não soubessem!).

A seleção Natural

“A crença de que as espécies eram produtos imutáveis era quase inevitável enquanto se considerou ser de curta duração a história do mundo [...] A principal causa de nossa relutância a admitir que uma espécie originou espécies claras e distintas é que sempre somos lentos para admitir grandes mudanças as quais não vemos as etapas”. (Charles Darwin, A origem das espécies)

O primeiro Darwin a estudar a evolução não foi Charles, mas sim Erasmus, seu avô. Ele achava que as espécies se adaptavam ao meio, por uma espécie de esforço consciente. A teoria dos caracteres adquiridos. Mas foi seu contemporâneo Jean-Baptiste Lamarck que ficou mais famoso defendendo uma teoria semelhante, a do “Uso e Desuso”. Segundo ele os órgãos se aperfeiçoavam com o uso e se enfraqueciam com a falta de uso. Mudanças que são preservadas e transmitidas a prole. O exemplo mais típico seria do pescoço da girafa, que cresceria a medida que ela o estica para alcançar as folhas mais altas das árvores.

A teoria de Lamarck era uma espécie de Darwinismo ao contrário, com os organismos controlando seu próprio desenvolvimento. Suas idéias eram bastante intuitivas e mais cativantes por se adaptarem mais facilmente ao senso comum. Suas teorias sofriam de um problema de seleção das observações e sua abordagem de carência de comprovação científica. Comprovação essa que ele se recusou a apresentar (e nem conseguiria). Claro, se amarrarmos o braço de um bebe junto ao seu corpo, e o mantivermos assim por 30 anos, os músculos não iram se desenvolver, e com o tempo vão atrofiar perdendo a capacidade de se desenvolver. Esse adulto terá os braços com tamanhos desiguais. Mas ao contrário do que Lamarck previa, os filhos desse homem não nascerão com braços pequenos. Assim como as cicatrizes que adquirimos durante nossa vida não são transmitidas a nossos filhos.

O homem e seu antropocentrismo. Mesmo quando as evidências de um planeta que era mais velho do que a bíblia descreverá se acumulavam, ainda era difícil aceitar que a o homem já teria sido “menos que um homem”.

Em 16 de Setembro de 1835, Charles Darwin desembarcará nas ilhas Galápagos, no Equador. Já se passavam 4 anos que eles partiram do porto de Plymouth para uma viagem de dois anos. Darwin, depois de uma série de felizes coincidências, tinha sido recomendado como naturalista oficial do navio de pesquisa da Marinha Britânica HMS Beagle. Nas mãos, o exemplar do então recém publicado “Princípios de geologia”, de Charles Lyell, que definitivamente sepultara o catastrofismo e introduzira as forças capazes de modificar a paisagem da terra, como a erosão do vento e das águas.

Talvez não tenham sido as particularidades de algumas espécies que vivem no isolado arquipélago das Galápagos que levaram Darwin a bolar a teoria da “Seleção Natural”, mas certamente elas foram importantes. Ali, as diferenças nos bicos dos Tentilhões, nos cascos pernas e pescoços das tartarugas de diferentes ilhas, chamaram sua atenção. Como cada ilha desenvolvera sua própria espécie? Certamente ele se perguntou. Essas pequenas diferenças contrastavam com semelhanças maiores. Ele observou que o avestruz africano era muito semelhante a Ema sul-americana. Como poderiam ocorrer essas semelhanças mesmo com um oceano entre os dois continentes?

O que talvez pouca gente saiba é que foi já de volta na Inglaterra, lendo “Um ensaio sobre o principio da população” de Thomas Malthus, aquele que todos nos aprendemos na escola, que diz que a população cresce de forma geométrica e os alimentos de forma aritmética, que Darwin finalmente teve a luz que faltava para seu trabalho.

Ele havia coletado e catalogado um número incrível de observações e sabia que as espécies apresentavam variações (mesmo que não soubesse ainda explicar como elas apareciam). Se as populações sempre crescem mais do que seus meios de subsistência, então existirá sempre uma grande competição pela sobrevivência. Nessa competição, aquelas variações que são mais favoráveis tenderiam a ser preservadas e as não favoráveis destruídas. Sendo esse “favorável” relacionado ao seu meio específico, ou seja, o ambiente onde ela vive. E o “preservadas” relacionado a transmissão aos descendentes.

Sabendo da comoção geral que sua teoria da “lei do mais apto” (ao contrário da “lei do mais forte”) causaria, ele evitou durante muito tempo em publicar seu trabalho. E talvez sua idéia de deixar seus escritos com o amigo Lyell para que fossem publicados após sua morte talvez se concretizasse não fosse uma outra surpresa. Uma carta de um jovem naturalista também Inglês chamado Alfred Russel Wallace, com um manuscrito em anexo, que pedia o parecer de Darwin sobre suas idéias. Aqui entra um pouco de fofoca. Dizem que Darwin apesar de todas as suas observações não tinha ainda percebido a seleção natural, e só o fizera depois de ver as conclusões de Wallace. Mas o mais provável é que Darwin tenha apenas ficado impressionado com o brilhantismo desse jovem naturalista e por isso apressou a publicação de “A origem das Espécies”. Mais que um clássico, o livro é TU-DO, como diria Vanuza Lobão!

Mas as idéias de Darwin tinham uma conseqüência maior... mais assustadora e mais perturbadora... Se as espécies se modificavam... evoluíam então... Sim, o homem também evoluira. Como falei na semana retrasada, não era mais Deus que tocava o dedo de adão dando-lhe o sopro de vida no teto da capela Sistina... Era um macaco!

27 maio 2002

23 de Outubro de 4004 A.C. (Da série: Minha mãe, a Chita, ou o que é a Seleção Natural?)

“No princípio Deus criou os céus e a Terra [...] Criou, pois, Deus [...] todos os seres viventes [...] Então formou o senhor Deus ao Homem do pó da Terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser a alma vivente”. (Gênesis)

Estou convencido de que a Seleção Natural é a descoberta mais importante de toda a biologia e muito possivelmente de toda a ciência. Claro, que as leis do movimento de Newton, o já descrito eletromagnetismo de Maxwell e a relatividade especial de Einstein foram feitos quase inacreditáveis, mas nenhum deles mexeu tanto com nossa emoção, e nos impeliu um sentimento de humildade quanto à descoberta de que evoluímos dos macacos e esses de algum outro animal, vindo todos nós de uma única célula que emergiu de uma lama pútrida quando a terra não era um lugar muito agradável de se viver.

Em tempo: Nesse contexto, talvez a descoberta de Hubble (que hoje empresta o nome ao poderoso microscópio que flutua no espaço) de que as galáxias estão se afastando (ou seja, que o universo esta em expansão) tenha sido mais importante para mostrar que, em resumo, somos o cocô do cavalo do bandido. Estamos em um sistema solar no canto extremo esquerdo do braço do redemoinho do conglomerado de estrelas que é a via Láctea, com a estrela mais próxima a 37 trilhões de km de distância, sendo está apenas uma dentro de um conglomerado de 20 galáxias, dentro de um universo observável com aproximadamente 100 bilhões de galáxias, com, mais ou menos 100 bilhões de estrelas cada uma, distante 15 bilhões de anos luz da galáxia mais distante e cerca de sessenta vezes menor do que a maior galáxia conhecida, que tem 100 trilhões de estrelas.

No entanto, a idéia intuitiva que a maior parte das pessoas tem sobre a seleção natural é justamente o oposto do que ela prega, tendo maior semelhança com o Lamarkismo e o princípio do Uso e desuso. Mesmo a maior parte dos estudantes de biologia pra quem tenho lecionado nos últimos anos, trás idéias equivocadas sobre como procedeu a evolução. Por isso resolvi dar uma luz nesse tema com uma série (ou uma saga, nesses tempos de Guerra nas estrelas) de dois ou três textos, começando pelo de hoje, pra explicar quando, como, onde e por que da evolução.

Até a renascença, acreditava-se que a reprodução fosse um evento sobrenatural, alem das capacidades descritivas da ciência, como a descrição acima do Gênesis. Nesse contexto, reinava a teoria da “Geração espontânea” segundo a qual formas de vida inferiores apareciam espontaneamente a partir da matéria não viva, como larvas na carne, besouros no esterco e camundongos no lixo.

Foram o fisiologista inglês Willian Harvey e o biólogo italiano Francesco Redi, que no Séc XVII mostraram a inviabilidade dessa teoria, o primeiro provando que todos os animais provinham de um ovo, e o segundo que as larvas da carne eram originadas por minúsculos ovos depositados por moscas.

Mas até 1830 a idéia era que vivíamos em um planeta estável e imutável, povoado por espécies imutáveis que permanecem exatamente como Deus as criou, juntamente com a Terra para ser o lar do homem. A Bíblia era interpretada ao pé da letra e ainda em meados do Séc XVII, o bispo Irlandês James Ussher, escreveu uma cronologia do velho testamento, onde compilou todas as gerações de homens e mulheres mencionados na bíblia até chagar a Adão e Eva e fixou o momento da criação ás 2:30 h de domingo, 23 de outubro de 4004 a.C.

A primeira teoria da evolução, se é que pode ser chamada assim, foi, como tantas outras, descrita por Aristóteles. Na sua época, não existia método científico ou experimentação, e se uma teoria fosse “bonita” ou “lógica” então era verdadeira. Apesar do seu louvável esforço e dedicação em compreender a natureza, ele foi responsável por grande parte dos absurdos que permaneceram por toda a idade média. Sua teoria dizia que todas as espécies buscavam a perfeição, sendo que apenas os humanos alcançaram, e montou uma escala com os minerais na base e o homem no alto, sendo todas essas posições (assim como as intermediárias) imutáveis.

Era importante, pois, classificar todas as espécies, e dentro desse contexto, o sueco Carl Lineu foi a figura mais significativa. Ele publicou no Séc XVIII seu Systema Naturae onde criou um método claro e eficiente de nomear todos os animais e plantas, e que persiste até hoje.

Nas primeiras edições de seu sistema de classificação, estavam mantidas as idéias de que as espécies eram fixas. Porem, com a observação de híbridos em animais de fazenda, e de mutações, ele começou a questionar se as espécies eram imutáveis desde a época do criador, e tirou essa afirmação do seu livro.

Mais ou menos por essa mesma época (meados do séc XVIII) diversos estudos de um misto de biologia e zoologia, digamos os primórdios da Paleontologia (o estudo dos fósseis) começaram a questionar a idade da terra. O ponta-pé inicial foi dado pelo naturalista Francês De Buffon. Ele propôs que boa parte dos animais estava extinta, que os animais sofriam algum tipo de mudança evolutiva, que os mamíferos tinha um ancestral em comum e que sugeriu uma escala geológica de 35 mil anos para explicar a estratificação da Terra. Obvio que ele, como Galileu, também teve de se retratar perante a Igreja “Abandono tudo que meu livro diz com respeito a formação da terra [...] e tudo que possa ser contrário a narração de Moisés”. Até então, a explicação para as formações geológicas era o catastrofismo, em voga desde que o filósofo grego Xenófanes de Cólofon encontrou, em 560 a.C., conchas marinhas incrustadas em rochas no alto de uma montanha. Segundo ele, as conchas teriam sido lançadas ali por um dilúvio catastrófico.

Sem se conhecer o tempo geológico, o catastrofismo era a única forma de se explicar todos os eventos geológicos no curto período de tempo proposto pela bíblia. E eventos com probabilidades de 1/1.000.000 de acontecer, ou algo movimentos com velocidades de 1 cm/1000 anos, não eram considerados. No entanto, a partir de meados do Séc XIX, emerge uma revolução na geologia e na biologia, que leva a uma compreensão da idade da Terra, da Natureza e da origem dos seres vivos. Eventos com probabilidades baixíssimas passariam a ter tempo para acontecerem não uma, mas diversas vezes, e assim realizarem os feitos anteriormente explicáveis apenas pela “Intervenção Divina” ou pelas catástrofes. E estaria extinta para sempre a ilusão infantil de uma humanidade no centro das atenções do universo.

13 maio 2002

Diferença genética entre humanos e chimpanzés

Depois que o Watson descobriu com o Crick a dupla hélice do DNA, ele perdeu
muito do interesse que tinha nessa molécula e suas atenções voltaram-se para
o até então incógnito RNA. Ele acreditava (e estava certo no palpite) que essa
era a molécula tinha papel fundamental na codificação das proteínas, e
portanto no funcionamento da célula. Esse é de fato o paradigma central da “biologia molecular” (o ramo que estuda o processamento das informações genéticas): Genes no DNA são transcritos em RNAs que são traduzidos em Proteínas.

Atualmente, mais e mais grupos de pesquisa têm investido em técnicas para quantificar a expressão gênica. Ou seja, uma vez que os genes são seqüenciados e identificados no DNA, quais são as razões que fazem com que um gene seja mais expresso e produza mais a “sua” proteína que outros. Talvez isso seja conseqüência das observações de que, mais ou menos, todos os organismos apresentam proteínas semelhantes, ou com funções semelhantes.

A semelhança do genoma de espécies diferentes chama a atenção especialmente no caso do homem e do chimpanzé. Apesar de todas as diferenças morfo-fisio-psicológicas entre essas duas espécies, nós compartilhamos pelo menos 98,7 por cento do patrimônio genético. Em fato, se uma amostra de 3 milhões de pares de base, representando cerca de 0,1% do genoma do primata, for escolhida aleatoriamente e comparada com o que se conhece do genoma humano constata-se uma diferença média de apenas 1,3%. É possível que se você mostrar um fragmento de DNA a um biólogo molecular ele não saberia dizer se é de um humano ou de um chimpanzé.

Então fica a pergunta: Como pode o DNA conter toda a informação genética que produz as diferenças entre os organismos e ao mesmo tempo ele não ser assim tão diferente? Essa pergunta começa a ser respondida pela equipe do sueco Svante Pääbo, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária, em Leipzig (Alemanha). Pääbo apresentou seus últimos resultados em 27 de março na Conferência Internacional sobre o Genoma no Brasil, em Angra dos Reis (RJ) e também publicada na revista “Science”.

Pääbo relatou experimentos em que sua equipe comparou a expressão de genes no homem (Homo sapiens), no chimpanzé (Pan troglodytes), orangotangos (Pongo pygmaeus) e macacos Rhesus (Macaca mulatta). Os resultados foram que a variação da expressão de genes encontrada nos glóbulos brancos do sangue e no fígado foi relativamente pequena (0,57 e 0,80%, respectivamente), mas foi mais significativa no cérebro (1,23%).

Ou seja, no cérebro do homem são produzidas algumas proteínas ligeiramente diferentes das produzidas pelos chimpanzés, mas a grande diferença está na quantidade de proteínas fabricadas pelas células cerebrais dos humanos, que é muito maior: 5,5 vezes mais elevada.

Isto quer dizer que, com o mesmo material genético, as duas espécies fazem coisas diversas. A informação codificada nos genes é activada de forma diferente no cérebro de homens e chimpanzés, o que produz padrões de expressão genética próprios de cada espécie.

Claro, seria tentador dizer que esse fenômeno bioquímico é responsável pelas características que acreditamos sejam distintivas da espécie humana, como o pensamento complexo e abstrato. No entanto, essas variações ainda não podem ser interpretadas do ponto de vista funcional. Já vemos que tem uma diferença, mas não sabemos o que ela causa. Na verdade, mesmo os muitos pesquisadores acreditam que quase todas as grandes descobertas da ciência já foram feitas, concordam que a compreensão do fenômeno da consciência é uma das grandes fronteiras da biologia.

Para o sueco, as diferenças que separam homem e chimpanzé são mais sutis do que acreditamos ao observar nossas diferenças morfológica (fenótipo). Segundo Pääbo, “as diferenças são apenas graduais” e cita estudos que constataram em chimpanzés atributos considerados específicos da espécie humana: aprender linguagens de sinais, capacidade de evoluir culturalmente...

A esse ponto, você que não via a importância de saber a diferença entre homens e macacos (indicando que eu não tenho direito feito meu trabalho de divulgador) devia estar satisfeito. Mas se você quer soluções ainda mais aplicadas, então lembre-se que uma quantidade enorme de medicamentos são testadas primeiramente em macacos antes de serem aplicadas em seres humanos. Eu ficaria contente apenas de compreender melhor os mecanismos como a evolução atuou para separar essas espécies.

Por exemplo, eles descobriram que com respeito aos leucócitos e ao fígado, homens e chimpanzés revelam-se sempre parentes muito próximos, praticamente idênticos entre si e bastante diferentes dos orangotangos e dos macacos Rhesus. No entanto, com relação ao padrão de expressão gênica do córtex cerebral dos chimpanzés é mais parecido com o dos macacos Rhesus do que com o dos humanos. Os resultados indicam que as alterações da expressão genética no cérebro ao longo da evolução foram muito aceleradas na linhagem que deu origem ao homem do que na do chimpanzé.

A equipa defende que a alteração dos níveis de expressão gênica sofrida pelo homem se deu muito recentemente na história evolutiva comum de humanos e chimpanzés, senão outros padrões de expressão também deveriam ser afetados. O que terá desencadeado este processo evolutivo é que os cientistas não são ainda capazes de definir. Erros na duplicação de células que levam a acumulação de material genético (a célula fica com o dobro da quantidade de DNA) e que causam os fenômenos de duplicação gênica observados em espécies tidas como mais evoluídas é uma das principais hipóteses.

Esclarecer as diferenças de fenótipo que separam as duas espécies será mais fácil quando o genoma do chimpanzé for conhecido. O principal passo já foi dado, com a constituição no Japão de "bibliotecas" de seqüências genéticas do primata. Mas dado o custo muito alto do seqüenciamento completo, é possível que ainda tenhamos de esperar muito até poder aumentar nossa compreensão dessas diferenças.

Quando você vier a Itália e olhar para o teto da capela Sistina, verá o dedo de Deus que tocando a mão de Adão dá o “sopro” de vida que lhe anima a alma. Mas pode ter certeza que nosso octoporoteratavo foi a Chita!

06 maio 2002

Do eletromagnetismo a TV, mas não vice-versa

Vamos supor que a Sua majestade Vitória, rainha da Grã Bretanha em 1860, a nação mais prospera do planeta, tendo uma idéia tão alucinada que nem mesmo o editor de Julio Verne ousaria publicá-la: pede que construam uma maquina que transporte sua voz, bem como imagens em movimento da glória do império para dentro de todas as casas do reino unido. E as imagens e sons não deveriam passar por dutos ou fios, mas sim pelo ar, alcançando o mais isolado dos camponeses e garantindo a unidade do império. As mensagens da rainha, a palavra de Deus e outras aplicações sociais poderiam ser encontradas para o invento. Com o apoio do primeiro ministro, chama ao seu gabinete os mais renomados e conceituados cientistas do reino e diz que disponiblizará um milhão de libras esterlinas para o projeto (um monte de dinheiro em 1860). Se precisar de mais é só pedir. Não importa como será o mecanismo e como vão inventá-lo. Apenas façam-no.

Parece excelente, mas infelizmente o projeto fracassaria, por que toda ciência adjacente necessária para a invenção do rádio e da televisão, a idéia alucinada que teve a rainha, ainda não tinham sido descobertas. No máximo eles conseguiriam, com custo muito elevado, colocar um telegrafo (que já existia em 1860) dentro de cada casa do reino unido e um monte de pessoas fazendo pontos e traços para enviar mensagens por código-morse.

Por outro lado, em 1831 nascia na Escócia James Clerk Maxwell. Com dois anos de idade ele descobriu que podia fazer o sol ricochetear nas paredes e nos moveis de sua casa, e dizia ter “prendido o sol com um pedaço de lata”. Ele colecionava besouros, flores, pedras, máquinas, e obviamente quando entrou no colégio ganhou um apelido do tipo “menino maluquinho”. Mas quando entrou pra faculdade, Maxwell foi definitivamente caracterizado como um CDF. Dentre os interesses dele se destacava a determinação em compreender a natureza da luz como eletricidade produzia magnetismo e vice-versa. Maxwell conseguiu resumir tudo que se sabia sobre eletricidade e magnetismo na sua época em quatro equações brilhantes. Com algumas sacações mais brilhantes ainda, adaptou as equações para que funcionassem no vácuo.

Maxwell descobriu que eletricidade e magnetismo se unem para formar a luz, ou as ondas eletromagnéticas, do espectro que conhecemos que vai dos raios gama aos raios X, do ultravioleta ao infravermelho, passando por todo o espectro de luz visível, das microondas as ondas de rádio. Mais ainda, Maxwell descobriu que campos elétricos variando rapidamente deveriam gerar ondas eletromagnéticas que se propagariam no espaço. Em 1888 o alemão Heinrich Hertz descobriu as ondas de rádio e em 1901 o italiano Guglielmo Marconi se comunicava com o outro lado do Atlântico com um aparelho de rádio.

A ligação cultural, econômica e política do mundo moderno por meio de torres de radiodifusão, microondas e satélite; a televisão que nos instrui e diverte mesmo que de forma questionável, o radar que ajudou a derrotar os nazistas na segunda guerra, os controles de navegação de aero e espaçonaves, a radioastronomia e até a busca de inteligência extraterrestre, são devido a curiosidade de Maxwell por como se comportavam dois fenômenos estranhíssimos nos idos de 1860: eletricidade e magnetismo.

Ao contrário de um programa governamental induzido de telecomunicações, a descoberta de Maxwell custou bem pouco ao governo. É bem provável que qualquer programa tivesse falhado por que ninguém teria as mesmas idéias sutis de Maxwell ao compor suas equações e ao adapta-las para determinadas condições. Assim como é pouco provável que dessem essa importante tarefa para um jovem e obscuro CDF universitário. Se a invenção da televisão dependesse do projeto da rainha Vitória em 1860, dificilmente vocês poderiam derreter seus cérebros frente as novelas da Globo, (ou eu com os filmes do Steven Seagal) e eu não podereia ter enviado essa artigo pra revista por e-mail, mesmo estando do outro lado do Atlântico.

A AT&T, um gigante mundial das telecomunicações, gasta por ano mais de 2 bilhões de dólares em pesquisa. A IBM possui laboratórios onde cientistas (altamente dotados é verdade) são pagos para ficarem tendo idéias e fazendo experiências. QUALQUER idéia e QUALQUER experiência é bem vinda. Se elas gastam essas somas astronômicas em pesquisa e tem recompensas gigantescas, por que nossos governos insistem em cortar as verbas da ciência usando a desculpa das desigualdades sociais? É impressionante que o governo não perceba que programas induzidos de pesquisa não são a melhor forma de alcançar o desenvolvimento científico e tecnológico de uma nação. E que o investimento em ciência é uma das melhores alternativas para se alcançar uma verdadeira igualdade social e desenvolvimento sócio-econômico.

Mas porque eles não percebem? Ah, claro, eles estão ocupados demais com as próximas eleições.

PS: Influenciado fortemente pelo texto de Carl Sagan em "O mundo assombrado pelos demônios"

15 abril 2002

Neurônios que perdem cromossomos

Como vocês sabem, o DNA é a molécula que carrega o código genético, aquelas informações que fazem com que sejamos quem somos e que cada um de nos seja diferente do outro. Por isso, as possibilidades decorrentes do conhecimento e da manipulação desse código têm sido apresentadas em diversos estudos com os mais diversos tipos de organismos, tendo como exemplo mais ilustrativo a clonagem da ovelha Dolly.

Em 2001 foi anunciado o sequenciamento do genoma humano, e a possibilidade de cura de doenças, retardamento do envelhecimento etc, foram amplamente comentadas pela mídia. (ainda que alarde tenha sido um pouco maior do que a possibilidade científica de cura trazida pelo simples sequenciamento do genoma, mas sobre isso escrevo outro dia). Boa parte da importância dada ao sequenciamento do genoma reside no fato de todas as células de um organismo possuem não só o mesmo DNA como a mesma quantidade dele.

Ou seja, uma célula do cérebro tem o mesmo DNA, e na mesma quantidade, de uma célula do fígado. Elas são diferentes na sua aparência e função porque as partes do DNA (seqüências, genes) que estão ativas em uma são diferentes daquelas que estão ativas em outra.

Uma descoberta recente (mesmo, publicada no mês passado) de um jovem pesquisador brasileiro (lá pelos seus 30 anos) é de que as células do sistema nervoso de mamíferos não têm necessariamente a mesma quantidade de DNA, observadas pela ausência ou duplicação de alguns cromossomos (estruturas formadas pelo enovelamento do DNA para facilitar a sua duplicação e transferência durante a divisão celular).

Os neurônios, que são as principais células do sistema nervoso, apresentam uma característica especial: eles não se multiplicam (por isso, quando você toma um porre e o álcool destrói alguns dos seus neurônios causando dor de cabeça e preda de memória, você fica sem eles pra sempre). Já neuroblastos são células jovens, essas sim com capacidade de crescer e se dividir, que quando atingem seu estagio maduro ou adulto dão origem aos neurônios. Nesse estagio, para obter o alto grau de especialização necessário às funções de transmissão do impulso nervoso, elas abriram mão da capacidade de reprodução (não foi exatamente uma escolha, mas vamos manter a metáfora).

A descoberta do Dr. Rehen e seus colaboradores é que nem todos os neurônios apresentam o mesmo número de cromossomos, mesmo em organismos saudáveis. Esse resultado foi curioso porque ate agora a alteração no número de cromossomos estava relacionada com doenças bastantes serias, como o retardamento mental da síndrome de Down, causada pela trissomia do cromossomo 21. Os resultados da pesquisa mostram que 33% das células (neuroblastos) analisados (em um total de 212) haviam perdido ou ganho um cromossomo somático. Esse número é muito superior a taxa normal de aneuploidia de outros tipos celulares, como os leucócitos, que é de meros 3%. O artigo revela ainda que aproximadamente 5% das células do cortéx embrionário de camundongos machos perderam ou ganharam um cromossomo sexual . É possível inclusive que células de camundongos machos apresentem o genótipo XX característico das fêmeas, pela perda de um cromossomo Y e ganho de um X. No cérebro adulto, a frequencia de perda/ganho de cromossomos sexuais é de 1%, mas outros cromossomos também apresentam número de copias diferentes do esperado (que seriam duas, uma vinda do pai, e outra da mãe).

Um dos mecanismos observados pelo grupo para gerar essa diferença, é que, no momento da divisão celular dos neuroblastos (antes de virarem neurônios), alguns cromossomos migrariam de forma mais lenta (talvez por você ter bebido cerveja demais no dia anterior :-) para a célula “filha” acabando por ficar fora da nova célula. Permanecem a mãe com um cromossomo a mais e a filha com um a menos.

Como esse mecanismo seria controlado por fatores “externos” ao controle do DNA, ele geraria células com números diferentes de cromossomos meio que ao acaso. Como em geral esse tipo de variação ao acaso traria prejuízo para as células, não se pode saber ainda a natureza da função dessa diversidade cromossômica nos neurônios. Nem mesmo as conseqüências que ela pode trazer.

As hipóteses vão desde vantagens adaptativas geradas pela maior possibilidade de resposta das células diferentes a estímulos ambientais diversos, a propensão ao câncer e mal de Alzheimer (doenças classicamente relacionadas com números diferentes de cromossomos).

Esse mecanismo de diferenciação de células não coordenado pelo DNA poderia explicar, por exemplo, as diferenças encontradas entre gêmeos idênticos (que possuem o mesmo DNA por que são originados da mesma célula) e que também poderiam ser encontradas em futuros clones de uma pessoa.

É proibido proibir!

A primeira tentativa de coibir a clonagem humana foi feita pelo antecessor de Mr. GW Bush, Mr. Clinton, em defesa de uma moral católica-ocidental (Israel conduz testes com clonagem humana já que ela não fere os princípios ideológicos do Alcorão), foi à proibição qualquer entidade pública ou privada que recebesse financiamento do governo de proceder tal tipo de empreitada, sob pena de perder o financiamento. Vale lembrar que no caso da ciência, mesmo da feita em entidades privadas, pelo menos alguma parte da verba é governamental. Falhou! E uma empresa totalmente privada a pouco tempo revelou o primeiro teste de clonagem de um embrião humano que sobreviveu poucos minutos.

Se você quer entrar nas discussões pseudoéticas e pseudomorais sobre clonagem tenha em mente alguns detalhes técnicos. Tá, tá, tá, eu aprendi com o Fritz Utzeri que não se deve indignar ao redigir um texto, mas sim relatar os fatos para que o leitor se indigne. No entanto eu não resisto e como não sou jornalista e estou escrevendo para uma revista que se chama “Sentando o Cacete” estou me dando esta licença jornalística. Fico indignado com essa pseudo moral, principalmente de um chefe de estado que não demonstra tal receio filosófico ao enviar tropas para os 4 cantos do mundo brigar guerras que não são dele.

Tudo bem, muitos de vocês, mas sensíveis a motivos religiosos, podem ter algo contra a clonagem. O fato é que sempre que autoridades judiciais, políticas ou eclesiásticas tentaram direcionar o desenvolvimento e o progresso da ciência o resultado foi perigoso ou desastroso (como a inquisição e a bomba atômica).

E para terminar, a ciência deve ser acessível a população para que essa possa não apenas usufruir dos seus benefícios, mas para que possa ser fiscalizada por ela também. Por isso temos que alfabetizar cientificamente nossa população e não proibir alguns tipos de pesquisa ciência.

O que você não tinha como saber sobre clonagem

Essa semana li nos jornais que o lesado do presidente dos EUA, Mr. Bush, está querendo proibir os testes com embriões clonados. Me vieram em mente duas questões. Primeiro que lideres políticos não deveriam se intrometer em assuntos científicos (mas abaixo comento o por quê) e segundo que muitos de vocês não devem saber de alguns detalhes importantes sobre a clonagem de seres vivos.

Então, se você está ansioso por clonar a si próprio, para viver todas as aventuras amorosas sem deixar nenhuma pra trás, ou para levar paz e prosperidade a todos os cantos da terra, saiba que:

  • O DNA é muito fino, mas muito comprido. Em algumas células ele pode ter até dois metros. Na hora da célula se dividir e duplicar, ele se encolhe e se espreme em estruturas que chamamos de cromossomos. O cromossomo parece um X. As cromátides são as pernas do cromossomo, formadas pelo DNA enroscado. No meio o centrômero. Em cada uma das cromátides existem estruturas chamadas telômeros. Uma enzima, a telomerase, tem a função de retirar um telômeros da cromátide a cada vez que a célula se divide e se multiplica. Já que multiplicação é a forma utilizada para o organismo crescer, isso faz com que o número de telômeros seja uma forma de calcular a “idade” da célula. Toda essa historia é pra dizer que quando se pega uma célula qualquer de um organismo adulto e separa-se o seu DNA para ser inserido em um óvulo “vazio” para dar início a clonagem, geramos um bebê com a idade celular de um adulto. Um clone será sempre igual, porém mais velho, que o ser original. É por isso que a Dolly sofre de envelhecimento precoce.
  • Além disso, quando se pega um óvulo e se retira o seu material genético, esvaziando-o para receber o material genético da célula adulta do organismo a ser clonado, a célula não esta realmente vazia. Ficam, assim como todas as outras organelas celulares, as mitocôndrias. Mas ao contrário das outras organelas (lisossomas, retículo endoplasmático, ribossomas etc) as mitocôndrias, que acredita-se foram bactérias simbiontes em um passado distante, possuem seu próprio DNA. Assim, o clone possui o DNA do seu doador a ser clonado, mas possui o DNA mitocondrial da célula mãe que hospeda o clone. Os dois materiais genéticos podem apresentar conflitos que levem a doenças e a morte da própria célula. Ou seja, até agora, o clone não é totalmente um clone.
  • Por fim, os genes do clone carregam a mesma informação do clonado, mas a forma como essa informação é “lida”, “processada” e “interpretada” pelo maquinário enzimático da célula é muito dependente do ambiente onde a célula se desenvolve. Os estímulos externos como calor, temperatura, pH, até luz, mas principalmente determinados sinais químicos, podem fazer com que um determinado gene seja ativado e outro seja desativado. Especialmente durante as fases de desenvolvimento. Ou seja, um clone não será, necessariamente, igual ao seu original.

09 abril 2002

Ciência e Deus

Uma vez fui convidado para dar uma palestra na Vale do Rio doce sobre 'O que é ser Biólogo'. Fui com muito prazer, por que, vaidoso como sou, adoro falar de mim e da minha profissão. Era um seminário para filhos de funcionário, em idade de vestibular, um tipo de teste vocacional.

Depois da minha apresentação uma menina me perguntou sobre direito ambiental, outro rapaz sobre os trabalhos de campo. Mas um especial me chamou atenção. Depois de todos irem embora ele se aproximou e disse que gostaria de fazer uma pergunta em particular, pois não queria me intimidar. Perguntou como eu poderia acreditar que o mundo tivesse realmente começado de uma explosão, e que Deus não havia criado Adão e Eva. Nem na defesa da minha tese de doutorado eu acho que tive uma pergunta tão difícil pra responder.

Minha primeira tendência seria de identificar que se tratava de um seguidor de uma dessas religiões evangélicas as quais eu não dou o menor crédito ou atenção, com uma leve tendência, não ao total descrédito, mas a verdadeira ridicularização.

No entanto, tenho uma preocupação de não me tornar preconceituoso. Carl Sagan chama a atenção para a polarização do movimento cético. Um Nós contra Eles. Um sentimento de que nós céticos temos o monopólio da verdade e que todas as outras pessoas que acreditam em doutrinas estúpidas são imbecis. Que se elas tiverem bom senso vão nos escutar, e se não o fizerem, pobres miseráveis, nunca alcançaram a verdade. Isso condena os céticos a uma situação sempre de minoria. É importante reconhecer as raízes humanas da pseudociência e da superstição. Quase todas as sociedades humanas acreditam em um mundo de Deuses e Espíritos, mesmo que algumas não valorizem nenhum dos 10 mandamentos cristãos. E sempre existe uma tentativa de conciliar um mundo de mito e metáfora com um mundo prosaico, sendo as arestas dessa união consideradas “fora do nosso alcance ou compreensão”. Muitos cientistas fazem isso. Compartimentalizam os dois mundos e conseguem movimentar-se sem esforço entre o mundo cético da ciência e o mundo crédulo da crença religiosa sem perder o compasso.

Lembro também de uma festa, já cursando biologia, quando um amigo totalmente ateu e cético falava da inutilidade de acreditar em Deus. Eu achava absurda a idéia de uma existência sem propósito nessa vida. Sem missão. Descordava veementemente dele. No entanto, com o passar do tempo, fui conhecendo o mundo natural, A idéia de um Deus que se preocupasse apenas com os homens me parecia mais e mais distante. Deus deveria se preocupar tanto com os homens quanto com os animais. O que dizer então das almas das moscas e formigas? Um vez, em um congresso um ser da sociedade protetora dos animais alemã falava da necessidade de controlar o numero de peixes utilizados em experimentos, quando um outro pesquisador perguntou quem se preocupa com as Salmonelas (bactérias também utilizadas em experimentos)? Foi aclamado por algum tempo. Mas continuando, a questão das almas de moscas e formigas começou a me entrigar. De onde viriam tantas almas?Para onde iriam? Bastou um pouco de estudo de psicologia para começar a considerar as sessões de Umbanda grandes rituais de Hipnose coletiva (tambores, palmas, velas) onde seções escondidas dos sub conscientes das pessoas se manifestam. Com um pouco, realmente muito pouco, de história, se desacredita em qualquer religião. As atrocidades cometidas pela igreja católica (certo, em outro contexto cultural e social, que impossibilita seu julgamento atualmente) ou descritos na Bíblia e no Alcorão.

Estudando um pouco de filosofia, realmente muito pouco, cheguei na metodologia cientifica. A diferença entre o conhecimento religioso, baseado na fé, o filosófico, baseado na lógica do pensamento, e o científico, baseado em evidencias, foi o argumento definitivo para eu me tornar um exemplo de ceticismo. Depois me lembrem de contar sobre o curso de historia e filosofia das ciências, e a geração de padrões pelo acaso. (uma historia interessante pra responde aquele adesivo absurdo que se lê nos carros “O acaso não existe. Leia Kardek”.)

Desde então só tenho ouvido, de amigos queridos e pessoas que considero muitíssimo, como meu pai e minha mãe, que é altamente religiosa, mas não duvida do DNA, baboseiras sobre todo o tipo de fenômenos sobre naturais. Uma menina tentou vender no sinal a um grupo de amigos (incluindo eu) que iam a um congresso, um conjunto de canetas. Ela começou dizendo: "Oi... Eu faço parapsicologia". Meu amigo ao volante disse...: "Começou mal...”E seguimos viagem sem comprar nada. Minha irmã, a do meio, foi curada de um tumor na bexiga por uma suposta cirurgia mediúnica. Ainda acho que alguém errou violentamente na ultra-sonografia que mostrava o pólipo. Meu amigo relata ter visto uma entidade que recebia Picasso e pintava como ele, mas um especialista disse que os quadros eram falsificações etc etc etc.

Hoje eu não acredito em alma, espírito, força suprema, diabo ou Deus (mesmo que evite ver filmes de terror :-) Não acredito em moral ou no bem e no mal. O que existe, para mim são estratégias que funcionam a curto e longo prazo. Minha avó tem 82 anos. Vocês conhecem algum traficante de drogas com 82 anos? Não é que Deus ou qualquer força o castigue e o mate antes disso, mas se você usa a violência como estilo de vida, então aumenta as chances dela ser a única forma com que os outros lidem com você.

Mesmo assim eu não fui capaz de dizer a mãe de meu amigo de infância que morreu em um acidente de carro aos 19 anos que Deus e vida após a morte não existem, e que naquele momento os fungos e bactérias da espécie X estavam degradando o corpo dele. A ciência trás esclarecimento, mas nem sempre consolo. Especialmente para quem não está preparado.

Pegando emprestado mais uma vez de Sagan: “Em uma vida curta e incerta, parece cruel fazer qualquer coisa que privar as pessoas do consolo da fé, quando a ciência não pode remediar suas angustias. Aqueles que não conseguem suportar o peso da ciência tem liberdade para ignorar seus preceitos. Mas não podemos fazer ciência aos pedacinhos, aplicando-a quando nos sentimos seguros e ignorando-a quando nos sentimos ameaçados. Provavelmente não temos a sabedoria para caminhar nessa estrada tortuosa”.

Eu disse ao rapaz que sua crença em Deus ou na religião necessita apenas de fé. Que acreditava que a fé trouxesse conforto, e por isso, muitas vezes fosse boa. Mas que evidências tem uma força muito grande, e que ele não deveria levar tudo que está escrito na bíblia ao pé da letra. O mundo realmente nasceu de uma explosão e nos realmente descendemos dos macacos e a vida realmente começou de um acaso químico. Ele não deu muita importância ao que eu disse e foi perguntar a fonoaudióloga se o Axel Rose voltaria a cantar novamente.

07 abril 2002

Curiosidades da Itália

Fazer ciência não é só ficar trancado no laboratório. Ao desenvolover nossa capacidade crítica de observar a natureza e questionar o que encontramos, também acabamos por examinar essa parte mais peculiar da natureza que são os seres humanos.

Por circunstâncias diversas, vim parar nesse país famoso por suas obras de arte e importância histórica. Uma benção para alguns, mas nem tanto para aqueles cujo objetivo de vida é correr na avenida da praia fechada para o transito de domingo e depois ir para a Roda de Samba do Estephanio’s... Enfim, sou compelido a contar para vocês algumas curiosidades daqui.

Quis o destino, e o fato de um dos pesquisador mais renomado na minha área trabalhar aqui, que eu viesse parar em Alessandria, principal cidade da província de Alessandria, nomeada assim em homenagem ao papa Alessandro não sei das quantas. Please, não tem nada a ver com a histórica Alexandria, que fica no Egito.

Ao se chegar de trem já percebemos a peculiaridade. Mais ou menos 5km antes da cidade entramos em um nevoeiro que me faz sentir em Avalon, am referência a ilha mágica do conto de Marion Zimmer Bradley. Assim como no conto 5 km depois da cidade o nevoeiro desaparece. Nada a ver com magia, apenas uma inversão térmica que retêm vapor d’água e poluentes na camada mais inferior da atmosfera e que os ventos fracos (ou deboli como se diria em italiano) não conseguem dissipar. Quis o destino que esse fenômeno acontecesse com maior intensidade justamente na cidade onde esse Carioca da gema veio parar.

Ao entrar no supermercado algumas coisas chamam atenção. A menor seção de todas é a de desodorantes, acompanhada logo pela de sabonetes, shampoos e pela de refrigerantes. Isso explica de cara por que é insuportável o cheiro de CC no laboratório onde trabalho. Quanto mais perto das 5 da tarde, maior o cheiro de CC. O banho relaxante em banheiras dos romanos e japoneses é milenar, mas o banho como conhecemos hoje tem menos de um século. Foi Paster que sugeriu o banho com água corrente para limpar o corpo dos microorganimos que causavam doenças de grande importância na saúde publica do início do século XX. Claro, quis o destino que fosse um francês a inventar a chuveirada, mas certamente não pra evitar aquele “Cheiro de Corpo” como explicava o comercial dos anos 50 e que se tornou o popular CC. Não é a toa que os Franceses e italianos tem perfumes maravilhosos.

Nunca vi a TV russa ou Afegã, mas quando forem 4 da tarde de sábado e você quiser ver um programa legal, mas não tem NADA na TV brasileira, lembre-se que na Itália a TV sempre parece sábado a tarde e a qualquer momento estará sempre passando um programa pior aqui do que ai. Eles usam e abusam de programas de auditório, com pegadinhas etc. Imaginem 382 variações diferentes do Domingão do Faustão, Show do Bolinha, programa Raul Gil espalhadas em todos os canais e em todos os horários. Não é a toa que eles elegeram o Berlusconi presidente.

Ao contrário do que todo mundo comenta sobre as maravilhas de se viajar de trem pela Europa, não é bem assim. Viajar de trem é caríssimo. Muito mais caro do que viajar de ônibus e muitas vezes do que de avião. O conforto também não é o forte, já que a maior parte dos trens são antigos e lentos, muito lentos. Se você quiser o trem confortável e rápido, prepare seu bolso. Custa em média 5 euros por hora de viagem nos trens convencionais e 10 euros por hora de viagem nos trens Eurostar. Quer um conselho: Pegue um ônibus, como a gente faz no Brasil.

Tá, Tá, Tá, nem tudo é ruim. Aqui a gente não paga remédio. Isso mesmo, aqueles 200 reais por mês básicos que qualquer um de nós gasta na farmácia não seriam gastos aqui. Na maior parte dos casos, você vai ao médico e junto com a receita do medicamento necessário você recebe um ticket que troca na farmácia pelo remédio. Ainda não precisei ir ao médico, mas vai ser muito legal quando eu for e não tiver que pagar nem médico nem remédio e nem plano de saúde.

Todo o café é expresso. Peça um lungo que vem em maior quantidade e não tão forte (como a gente está acostumado). Todo Capuccino é gostoso. Mesmo que tradicionalmente eles não venham com chocolate como a gente esta acostumado no Brasil. É um café com leite e espuminha. Meu primo italiano deu a dica pra simular um expresso. Pegue a primeira água do café que sai do filtro de café, só um pouco, coloque na xícara com um pouco de açúcar bata com a colherzinha até espumar. Depois coloque café a gosto. Não é a mesma coisa, mas como nosso café é mais gostoso, a gente fica na média.

Italianos e italianas são um caso a parte. Na média, a ilusão que temos de um povo caliente é totalmente equivocada. Ninguém puxa papo com ninguém na rua. Ninguém nem olha pra sua cara. Os italianos tratam mal suas mulheres. São super machistas e elas, por sua vez, um tanto submissas (já que continuam com esses caras). Um exemplo exagerado que não pode ser considerado regra é de uma amiga que foi colocada dentro da lixeira, em um bar lotado, pelo namorado, que saiu rindo junto com os amigos. Eles se vestem de forma engraçada. Apesar de ser um dos paises da moda, existe muita liberdade pra se vestir. Coloque qualquer coisa, seja uma calça jeans com olhos pintados enormes, com uma echarpe rosa de pelúcia e óculos amarelos e ninguém vai te achar um ET. Talvez seja por que os preços de tudo são altíssimos, talvez seja porque eles são assim mesmo. Por via das duvidas (e por impossibilidades financeiras) continuarei comprando roupas quando for ao Brasil.

Se você gosta de bundas em geral (tanto faz a que sexo você se refere) esqueça. Italianos não tem bunda, e por isso não malham perna, e conseqüentemente, da cintura pra baixo não tem nada de bonito pra olhar.

A massa. 1o quesito em que os italianos são totalmente imbatíveis. Foi Marco Pólo quem trouxe o macarrão da China, e em Nápoles eles tiveram a grande sacação de colocar o molho feito com tomates vindos da América em cima. Foi uma das descobertas mais geniais de todos os tempos. Mesmo assim, prove o Pesto, o Aglio e Oglio, o Quattro formaggi, o com fungi, ou só com manteiga. São todos sensacionais. Alias, tudo é cozido com óleo de oliva extra-virgem. E quase todo mundo conhece alguém, que conhece alguém que tem uma oliveira em casa e espreme seu próprio óleo. Azeite doméstico é imbatível. Quanto a ao molho de manteiga, cuidado apenas com uma pegadinha da língua italiana em relação ao português. Manteiga em italiano quer dizer Burro em português (mesmo que não seja muito usado). Já Burro em italiano, é a palavra pra Manteiga em português.

Vamos ao segundo ponto em que eles são imbatíveis. Todo sorvete é SE-MA-SA-CI-O-NAL. Alguns são realmente imbatíveis. Prove o sabor Bacio (que quer dizer beijo), uma mistura de chocolate com avelã deliciosa. E você ainda pode fazer uma gracinha pra garçonete pedindo um bacio.

05 março 2002

A ciência é a gente que faz

O mesmo país que é o segundo contribuinte mundial no volume de informações sobre o seqüenciamento do genoma do câncer, ficando atrás apenas dos americanos (responsáveis por 30% de toda a produção científica mundial), assiste a uma epidemia de dengue, causada por um mosquito (Aedes aegypti) que havia sido aparentemente erradicado no início do século XX por Oswaldo Cruz.

Essa é apenas uma das aparentes contradições do país, que atualmente responde por 1,2% da produção mundial de ciência, mas passou da 28ª para a 17ª posição no número de artigos científicos e técnicos publicados entre 81 e 2000, à frente de todos os demais países latino-americanos e também da Bélgica, da Escócia, de Taiwan, Israel, da Polônia, da Dinamarca e da Finlândia. Entretanto, apenas 10% população entre 18 e 24 anos que concluiu o ensino médio está na faculdade e há 20 vezes mais pessoas na graduação do que na pós-graduação.

O crescimento qualitativo e quantitativo da produção científica, apontado de forma quase unânime como muito significativo, levou o país a formar 6,3 mil doutores no ano passado e, neste ano, segundo o secretário executivo do Ministério da C&T, Carlos Américo Pacheco, esse número deve chegar a 7 mil.

Para a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Glaci Zancan, o percentual de doutorados em relação aos docentes de nível superior no país é bem menor do que em nações vizinhas, como a combalida Argentina, em que todos os professores universitários têm titulação.

O dado é contestado pelo secretário executivo do MCT. Pacheco afirma que a Argentina forma 600 doutores por ano quando, proporcionalmente à sua população, deveria formar cerca de 2,5 mil. ‘Nossos números, não são de envergonhar, de modo algum’, garante ele.

De acordo com Glaci, porém, um dos grandes nós que o Brasil têm que desatar nos próximos anos é o da alfabetização científica. Para isso a SBPC lançou o Projeto Brasil 2006, que pretende ‘demarcar metas mínimas modestas, porém objetivas e verificáveis, que nos permitam avançar de forma absoluta’, conforme documento elaborado pela entidade.

Glaci ressalta que ‘por alfabetização científica entenda-se que todo brasileiro, até 2006, tem de saber o porquê de lavar as mãos antes de comer’. Na opinião dela, há um despreparo até mesmo do magistério para a elucidação dessas simples e essenciais questões. ‘Esse é um dos motivos das doenças reemergentes no país.

O jornalista Ulisses Capozoli, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), aponta soluções na mesma direção. Ele afirma que a prática mais extensiva do jornalismo científico ajudaria a estabelecer uma mentalidade nova entre a população brasileira.

‘A função do jornalismo científico é ajudar no processo da alfabetização científica. Com isso, as pessoas se situariam melhor no país e na comunidade em que vivem e poderiam tomar atitudes mais cidadãs.’

Para ele, o jornalismo científico é ‘quase uma prestação de serviço, mas a imprensa brasileira ainda não percebeu isso. Os jornais não têm um suplemento de ciência, embora tenham cadernos de turismo ou de televisão. Há, também, um analfabetismo científico dentro das próprias redações.’

E destaca outra vitória internacional da ciência brasileira: ‘Como nas vinhas da Califórnia há uma praga cuja bactéria é uma prima da 'Xylella', a associação americana contratou o mesmo grupo que fez nosso genoma para fazer o deles – isso é espetacular, uma inegável afirmação de maturidade dos pesquisadores brasileiros’, destaca Landi.

Otimista, o presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp afirma que se o Brasil conseguir atrair Universidades particulares e criar sistemas de garantia de ensino nelas, grande parte do problema de produção científica no Brasil estará solucionado. Capozoli diz que a iniciativa privada no Brasil não costuma investir em pesquisa científica básica.

‘Nós temos uma mentalidade de que o Estado deva bancar tudo e a iniciativa privada só faça a coleta dos benefícios. Mas nos últimos 20 anos, desde a criação do MCT, em meados dos anos 80, tem sido feito um esforço sistemático para atrair a iniciativa privada. Ao que parece, as coisas começam a mudar, porque o empresariado se deu conta de que essa é uma área em que se pode ganhar muito dinheiro.’

Mônica ressalta que, apesar dos inegáveis avanços, falta massa crítica de cientistas, opinião compartilhada pela presidente da SBPC.

‘Precisamos de mais gente para trabalhar, por exemplo, no problema da dengue, de uma política para o desenvolvimento científico da Amazônia. Temos de aumentar nossa massa crítica em tudo. Mudando o espírito de que a ciência seja apenas informação, poderemos ensinar as pessoas a pensar em soluções criativas para nossos imensos problemas’, conclui Glaci.

01 março 2002

Em tempos de Dengue

Tem brasileiro espalhado pelo mundo inteiro e fazendo de tudo. Mas um em especial, trabalha no melhor instituo de pesquisa biomédica dos EUA (o National Institute of Health) e com algo que poderia ser considerado por vocês como, no mínimo, inusitado: saliva de mosquitos. Sim, o indivíduo estuda a saliva de mosquitos dos gêneros Aedes e Anopheles.

Aposto que mesmo que soubessem que se tratam dos mosquitos da Malária, da febre amarela e da dengue, ainda assim muitos de vocês pensariam: “Como alguém trabalha com saliva de mosquito?” ou pior “Por que alguém estuda saliva de mosquito?” ou pior ainda “Como alguém paga alguém pra estudar saliva de mosquito?” Com tantas crianças por ai passando fome não é mesmo?!

Bom, vocês podem ler tudo sobre a importância de estudar a saliva de mosquitos no artigo do pesquisador José Marcos Ribeiro. Ou também sobre a arma biológica (eufemismo para vermes) que os cubanos estão mandando para combater o mosquito da dengue. Mas eu queria a sua atenção para um outro tema. Os assuntos estudados pelos cientistas e sua relação com a sociedade e a cidadania.

Em 1951 foi criado o Conselho nacional de pesquisa (CNPq), hoje Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, principal órgão fomentador da atividade científica no país. Na pauta de sua primeira reunião estava a seguinte questão: Como justificar investimentos em ciência em um país com tantas desigualdades e problemas sociais?

Cinqüenta anos depois a pergunta ainda paira no ar. Montar um laboratório custa MUITO dinheiro e a manutenção dele talvez mais ainda. Resumindo, estudar rabo de lagartixa e saliva de mosquito custa um dinheirão. E vale a pena? Justifica? Devemos (e podemos) investir em ciência básica? Ou vamos investir só em tecnologia e ciência aplicada?

O problema começa nessa classificação entre ciência básica e aplicada, que, certamente, cria más interpretações e preconceitos. Essa dicotomia na verdade foi introduzida em 1945 por Vannevar Bush (Science, The Endless Frontier). Neste texto foi feita à famosa e clássica definição de pesquisa básica: "contribuir para o conhecimento e compreensão da natureza e suas leis". Dai veio à dicotomia que dura décadas!

Em 1997 foi publicado um livro chamado Pasteur's Quadrant, Basic Science and Technological Innovation. Nesse livro Donald Stokes propõe uma nova taxonomia das atividades de pesquisa e desenvolvimento, cujo mérito principal é justamente superar a FALSA dicotomia existente entre pesquisa básica e aplicada.

No livro de Stokes propõe-se uma nova nomenclatura baseada em coordenadas: uma dimensiona o avanço do conhecimento que a pesquisa propicia. A Segunda dimensiona a aplicação que dela decorre. Com isso, uma pesquisa pode ao mesmo tempo contribuir para o avance do conhecimento e ter grandes perspectivas de aplicação pratica. Pela definição antiga poderia ser básica e aplicada, o que consequentemente invalida tal definição.

Para alcançarmos um estágio onde a pesquisa científica se reverta em grande desenvolvimento tecnológico é necessário massa crítica de pesquisadores, de cérebros, cabeças pensantes. Cérebros que são formados em universidades livres, públicas e de qualidade, com políticas sólidas de apoio a ciência e com uma sociedade que permita a inserção do cientista. Uma sociedade que esteja preparada para “consumir” a ciência.

E durante as epidemias de dengue e os racionamentos de energia elétrica teremos uma massa de pesquisadores capazes de “decodificar” a informação científica disponível e buscar a melhor aplicação para responder aos anseios e necessidades da sociedade.

*Colaborou (muito) Dr. Stevens K. Rehen, pesquisador brasileiro então trabalhando na Universidade da Califórnia em San Diego, EUA.

Superbonder

Era uma vez um cara que estudava patas de Lagartixas. A Lagartixa, como vocês bem sabem, é o animal com a maior capacidade de adesão a diferentes tipos de superfícies. Mais que qualquer outro. O cara descobriu que essa curiosa capacidade era conferida por estruturas similares a pêlos, que o cito réptil possui em suas patas. Essas estruturas microscópicas são capazes de interagir a nível atômico com o material da superfície, e daí a fantástica capacidade de se aderir a qualquer coisa. Pois bem, o cara falou com um amigo e esse amigo conseguiu reproduzir sintéticamente os tais microfilamentos. A “cola” feita com os tais microfilamentos é capaz de “colar”, por exemplo, fuselagem de avião, ou um caminhão em outro. Me parece que os dois (e os filhos dos filhos, e os netos dos filhos dos filhos) nunca mais vão precisar se preocupar com dinheiro :-)

25 fevereiro 2002

A ciência como nós a conhecemos hoje...

...começou no séc XV com Galileu. Antes dele as teorias não eram verificadas, ou testadas se preferirem, com observações e dados experimentais, mas sim aceitas pela lógica (e às vezes beleza) do seu raciocínio. Depois dele a ciência passou por sua primeira grande revolução no séc XIX. Newton produziu uma quantidade absurda de conhecimento e ainda que seus escritos mais numerosos tenham sido em alquimia e teologia, foram suas descobertas na matemática e física que mudaram nossa visão do mundo. Ainda bem, por que senão estaríamos acreditando hoje que é possível transformar outros metais em ouro ou que a perfeição da mecânica clássica em explicar o movimento dos corpos se deve a imensa sabedoria de Deus (essas algumas de suas declarações em vida).

Darwin também causou rebuliço quando, em uma época de grande poder da igreja católica, afirmou que os humanos descendiam dos macacos como resultado de uma guerra evolutiva conhecida como seleção natural. A partir daí a teoria atômica de Bohr, a relatividade de Einstein e a mecânica quântica de Planc e a dupla hélice do DNA de Watson e Crick causaram um fenômeno, talvez, até então não percebido: as áreas estudadas pelos grandes nomes da ciência eram muito distantes da realidade cotidiana do publico em geral, o que contribuiu certamente para o distanciamento do cientista da sociedade e vice-versa.

Antes de Einstein nunca um cientista tinha sido uma celebridade, dado autógrafos ou fugido de tietes. O próprio Watson (o do DNA), reclama em sua recente biografia que, apesar do sucesso de sua descoberta, ninguém o convidava para nenhuma festa.

A sociedade não percebe (e talvez com razão) que a ciência que estuda o 5o pleópodo dos copépodos e descreve o desvio da luz causado pela distorção do espaço próximo a corpos de grandes massas, é a mesma ciência que possibilitou todos os avanços tecnológicos que permitiram o aumento da expectativa e da qualidade de vida. A imagem do cientista recluso que foi Newton (que inclusive nunca se casou e segundo as más línguas morreu virgem) e dos cabelos desgrenhados de Einstein, permeiam o imaginário popular com a idéia de que todos os cientistas são loucos. Isso não é só inferência, mas o resultado de uma pesquisa coordenada pelo prof. Leopoldo de Méis do instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, um dos cientistas mais respeitados do Brasil, com crianças e adolescentes de diversas classes sociais.

Os cientistas de hoje são pessoas normais: adoram tomar chope no buteco, jogar futebol no final de semana e pensam em sexo 98% do tempo, como quase todo ser humano. Sua única loucura talvez tenha sido escolher fazer ciência no Brasil, onde nos últimos 10 anos conseguimos entrar no seleto grupo dos 20 paises que são responsáveis por mais de 1% da produção científica mundial, mas as verbas para ciência são consideradas supérfluas já que o governo considera mais interessante comprar tecnologia do que formar cérebros e cidadãos.

Verdade seja dita, os cientistas tem que fazer sua parte, e dedicar mais tempo para atividades sociais, a terceira perna do tripé universitário conhecido por ensino, pesquisa e extensão. A vaidade científica (talvez a pior das vaidades profissionais, já que dinheiro algum pode comprar o tesão de “saber”), tem feito os cientistas se isolarem em seus laboratórios: “me dêem financiamento e me deixem trabalhar já que vocês não conseguiriam mesmo entender o que estou fazendo”.

Precisamos divulgar o conhecimento científico, fazer marketing com a ciência e dissemina-la para todas as pessoas. Essa é a única forma de combatermos os bispos Macedo, os “Big Brother Brasil”, os Tarots e as Roseanas que adentram nossas casas e derretem pouco a pouco o nosso cérebro todos os dias sem que tomemos consciência disso. É isso que essa coluna pretende daqui por diante.