Você que é biólogo...

20 novembro 2003

Quem tem medo da gente?

O pós-graduando (PG) vive em um limbo. De onde, ao que parece, não quer sair.
Ou talvez, como na Divina comédia, que nesse caso me parece mais trágica que cômica, no purgatório.

Começa por sua situação profissional, já que, com mais formação que 99,99% da população brasileira e beirando a casa dos 30 anos, um aluno de doutorado ainda não é considerado capaz de gestir sua própria formação, a escolha de sua linha de pesquisa e seus experimentos. E certamente passa por sua situação transitória, já que com bolsas de 2-4 (5, 6, 7, 8…) anos, e sem vinculo com as instituições onde trabalha, hoje ele está aqui, amanhã… A situação se estende a recém-doutores, Pos-docs e afins. A “Casta” que de elegantemente denominamos “Os Jovens cientistas”

Sua auto-estima é lapidada por uma bolsa que não é compatível com o seu nível de formação e nem com o nível cultural que dele se espera. Seu caráter é deformado um documento de dedicação exclusiva que tem que assinar e que certamente vai ter que fraudar para dar aula em universidades particulares, representar produtos de laboratório, consertar computadores, fazer horóscopo ou vender sanduíche na praia (afinal, não é apenas depois que se torna professor que se tem aluguel pra pagar, tanque pra encher e filhos pra sustentar). Sua esperança é frustrada por um possível e irrisório aumento de 10% para o próximo ano.

“Você ainda não é um cientista, precisa completar sua formação”, dizem seus orientadores e professores. “Você não é mais um estudante” dizem seus pais. “Você não é nada” acaba acreditando.

Apesar disso o PG existe. Está inserido dentro de um contexto científico e tem um papel importante. Talvez o papel mais importante. Não precisamos repetir as estatísticas que mostram o quanto à produtividade dos institutos de pesquisa está relacionada com o numero de pós-graduados, ou o quanto à ciência brasileira cresceu com a crescente escassez de recursos devido a manutenção das bolsas de PG, ou o quanto um instituto cresce quando cria e investe em PG.

E por que os próprios alunos não conseguem enxergar isso? Não podemos esquecer que o PG não está só, não é o único desestimulado e, às vezes, desesperado. Os professores, pesquisadores e chefes de laboratório também estão. Porem, infelizmente, a noção de que o pupilo tem que superar o mestre, por que é assim que avança a ciência e o mundo, aqui não vale. O sistema social cientifico brasileiro é formado por um número de “castas” muito bem definidas e a forma de manter a auto-estima é sair pisando de cima pra baixo. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo” diz a máxima.

Mas um sistema subversivo também é desestimulante e destruidor, e é necessário criar um efeito ilusionista pra manter seus membros felizes e produtores. Professores se apegam a suas vaidades científicas por que é o único que lhes resta. Conquistas cada vez menores são comemoradas com cada vez mais euforia. E chegaremos a ponto de comemorar a compra de reagentes ou mais um ano sem que o laboratório tenha fechado. Na base do sistema de “castas”, aos pós-graduandos resta pisarem uns nos outros. “A tese dele é repetida”, “Eu tenho dois escravos de iniciação científica”, “Eu tenho 1,37 trabalhos publicados, 1,25 quase aceitos e 2,62 submetidos e 3,47 em preparação, e você?”; “Alô?! É da CAPES?! Queria denunciar um PG que dá aula!”; “O simpósio deles é um fracasso”. Pequenas perversões. Pequenas tiranias. Os prazeres do inferno. A saída mais fácil que acaba se tornando o caminho natural pra quem não quer ficar no purgatório.

Mas tem gente que não pensa assim. Que não acredita no paraíso, mas nem por isso quer viver no purgatório. E nem ir pro inferno. Gente que prefere abrir os olhos, encarar o pesadelo e acordar. Que alem do trabalho no laboratório ainda encontra tempo e um mínimo de altruísmo, para organizar um evento que pode trazer benefícios pra todos. Gente que deveria ser um exemplo a seguir, mas que vira uma pedra no caminho dos “prazeres do inferno”. “Good girls go to heaven, bad girls go everywhere”, mas ninguém foi ao simpósio.

“Ser tolerante é cansativo. Ser crítico é muito mais divertido” escreveu recentemente Bruce Horny. Um “prazer infernal”. Um valor que está sendo passado pela “casta” que aprova seus próprios projetos, que se confere suas próprias bolsas de produtividade, que avalia seus próprios artigos, que festeja suas pequenas vitórias.

A questão é que ninguém tem medo dos jovens cientistas. Enquanto continuarem na base de um sistema que privilegia a “casta” mais que a capacidade, por mais importância que tenham, não representam uma ameaça a ninguém. Já que parece impossível mobilizar os jovens cientistas e organizar uma “rebelião” contra o sistema de castas da ciência brasileira, cabe a eles, quando chegar a sua vez, dizer NÃO a esse sistema, e quem sabe assim, começar a contribuir para verdadeiro progresso da ciência no Brasil.

19 junho 2003

Uma bolsa e um porta-lápis

É justa a preocupação do ministro da educação com a mal distribuição das bolsas de pos graduação no Brasil. Uma breve analise do site do CNPq mostra que no ano de 2000, 60% das bolsas e do fomento a pesquisa se concentram no sudeste, enquanto na região norte, por exemplo, o percentual é de 2,5 %. Em 2001 a CAPES titulou, na área de ciências biológicas, 987 mestres e 599 doutores na região sudeste, enquanto na norte foram 61 mestre e 29 doutores.

Seria justa também a preocupação do ministro com relação a falta de aumento nas bolsas de pós-graduandos nos últimos 10 anos.

Em recente resposta da CAPES ao manifesto entregue ao presidente Luis Inácio pelos Pós-graduandos, a culpa foi colocada no restrições econômicas as quais estão submetidos os diferentes ministérios.

O problema das bolsas de pos graduação no pais é o mesmo de tantas outras políticas: a falta de uma política a longo prazo.

Em 2001 o lançamento do programa Profix do CNPq chamou a atenção de muitos recém doutores. No entanto o numero de bolsas ainda foi muito aquém das necessidades causada pela interrupação dos programas anteriores de recém doutor e fixação das agencias. O resultado foi uma enxurrada de pedidos, também muito concentrados no sudeste

A pós graduação no Brasil cresceu nos últimos 20 anos e com ela a produção cientifica do pais, que entrou no seleto grupo dos 20 paises responsáveis por mais de 1% da produçÃo cientifica mundial. Mesmo com a redução do fomento a pesquisa, o numero de bolsas se manteve ou aumentou. A produção cresceu se apoiando no esforço desses jovens cientistas.

Existem programas de iniciação cientifica e de jovens talentos que levam jovens estudantes para dentro dos laboratórios das universidades e abrem as portas para um mundo de pesquisa que é muito sedutor. No entanto, as agencias parecem esquecer que esses vão virar alunos de mestrado e doutorado, vão precisar de reagentes, saídas de campo, instrumentação, discussão em congressos, publicação de dados em revistas, comprar livros, assistir aulas sem que falte luz, realizar experimentos em laboratórios onde não falte água.

Como dizia a música do Casseta e Planeta, “Se aqui é assim, imagine na Jamaica”. Mesmo com um sistema de pesquisa saturado, é melhor se apertar em um laboratório montado do sudeste, em uma universidade com professores doutorados que ainda tem chance de participar pelo menos uma vez por ano em um congresso internacional (finaciando do seu próprio bolso ou com dinheiro de agencias internacionais) do que ir pra uma universidade nova, onde não existem equipamentos ou uma “massa crítica” que possibilite a produção científica e a construção do conhecimento.

Enquanto o governo achar que vai conseguir levar jovens doutores formados no exterior ou no sudeste para pequenas universidades do norte e nordeste apenas com uma maior oferta de bolsas, a única coisa que vai conseguir é aumentar a competição por um menor numero de bolas no sudeste. Uma passagem do Rio de Janeiro até Porto velho custa mais que uma viagem a Europa. Isso quer dizer que um pesquisador não poderia visitar sua família. Que o frete de material cientifico que já é problemático no sul e sudeste seria desastroso. No Acre as estradas ficam submersas 6 meses por ano por causa das cheias dos Rios. Ainda é melhor lutar contra a falta de água e luz e dinheiro na UFRJ do que na UNIR.

22 janeiro 2003

Embaixadores do Brasil

Os cientistas, por necessidade de intercâmbio científico, maior disponibilidade de recursos ou algum outro motivo relacionado com sua carreira, em diversos momentos da sua vida se vê praticamente constrito a viver no exterior.

Durante muitos anos o protótipo do cientista, talvez baseado na personalidade agressiva e introspectiva de Newton, ou nos cabelos arrepiados de Einstein, tem sido do louco, que só pensa em trabalho e vive o tempo todo no laboratório. Por mais que muitos jovens pesquisadores brasileiros deixem suas famílias e amigos no Brasil para procurarem o salto em suas carreiras que pode ser proporcionado por uma estada junto a um grande grupo de pesquisa no exterior, a maior parte deles não se enquadra necessariamente nesse perfil, e a distancia pesa.

Os sinais dessa distância podem ser notados por toda parte: uma bandeira do Brasil aqui, um boné ali, uma camiseta de Porto Seguro vestida em um dia de inverno, a página do JB como default na Internet ou ouvir a Globo FM pra saber como vai o transito no Rio mesmo quando vc vive em Londres. É um tipo amenizado de “Banzo”, a melancolia que matava metade dos escravos nos navios negreiros antes de chegarem ao seu destino.

Nos defrontamos cada dia com a imagem construída que o Brasil tem no mundo: Uma mistura de mulatas, carnaval e paraíso tropical da alegria, com trafico de drogas, execução de meninos de rua e pobreza. Variando as concentrações de cada um desses elementos dependendo do pais onde se encontre. Isso também é produto da heterogênea população de brasileiros que se pode encontrar em toda parte. Um primeiro escalão de embaixadores, que ostentam uma riqueza que é representativa da nossa grandeza territorial, mas não da nossa sociedade, como a o palácio da embaixada Brasileira na Piazza Navona em Roma; seguidos pelos turistas ricos, pouco representativos também da nossa riqueza cultural. Ai temos um grande lapso na escala, que deveria ser formada pelos diferentes grupos de turistas de classe média, estudantes de universidades, jovens em intercâmbio e mochileiros, que são uma pequeníssima fração nesses tempos atuais, frutos da alta do dólar e da recessão econômica. Sobram ainda as putas, transexuais e capoeiristas, empregadas domesticas e... os cientistas!