Você que é biólogo...

29 março 2009

Mudamos... para melhor!


O Você que é Biólogo... agora está no portal Scienceblogs (http://scienceblogs.com.br/vqeb), com a ilustre companhia de outros colegas blogueiros de ciência. O espaço aqui no blogspot continua, com versões dos textos voltadas para alunos do ensino médio, que querem conhecer também a vida como ela é do ponto de vista do cientista. Aguardamos a sua volta aqui e a sua visita .

26 março 2009

Os próximos 150 anos


Em 2009 a teoria da evolução pela seleção natural de Charles Darwin completa 150 e se mantém como a mais importante descoberta da biologia.

Durante todos esses anos, ela foi testada com todo o rigor do método científico (e da lei) por ilustres defensores e ferrenhos opositores, e em todas as vezes, mostrou sua importância. Sim, algumas idéias de Darwin não estavam corretas. Kumura mostrou que não só a seleção natural é capaz de fixar genes nas populações (veja o post que explica a seleção natural aqui) mas também um processo chamado ‘deriva gênica’ permite que um gene neutro, que não traz nenhum benefício adaptativo para a espécie, mas também não prejudica a adaptação dela, passe a integrar o conjunto de genes da população. Já o biólogo evolucionista Stephen J. Gould mostrou que a evolução não acontece gradualmente, de maneira uniforme, mas principalmente em saltos, que revolucionam adaptatividade (fitness) dos organismos.

No entanto, o núcleo central da teoria de Darwin, de que os organismos lutam pela sobrevivência usando as armas que dispõe no seu ‘pool’ de genes, se mantém intacto e vem sendo fortalecido a cada novo resultado. Vem dai a razão da grande aceitação da teoria: ela funciona! Explica uma enorme variedade de fenômenos e observações, e contribui para além da biologia, em campos como o desenvolvimento de drogas na industria farmacêutica ou de componentes eletrônicos na industria de informática. A seleção natural é poderosa mesmo no maior de seus desafios: explicar a evolução humana. A idéia do homem como topo da evolução é um pilares que sustentam os princípios religiosos, mas análises recentes mostram que a nossa espécie, o Homo sapiens, não só evoluiu, como evoluiu muito nos últimos 10.000 anos, e com velocidade assustadora. Um exemplo de adaptação recente é a habilidade de digerir leite em adultos do norte europeu. Também temos muito menos dúvidas sobre nossas origens,. Sabemos que não viemos exatamente dos macacos, mas de um ancestral comum remontando aos primeiros Australopithecus entre 4 e 7 milhões de anos atrás (veja o texto Uma breve história do homem).

Mas então porque a seleção natural não é uma lei da natureza?

A resposta não é simples e provavelmente não é justa. Mas a idéia de mutações aleatórias sendo responsáveis pelo aparecimento de toda a biodiversidade, desde o nível de macromoléculas (diversidade dos genes e proteínas) até os biomas (diversidade de ecossistemas) é muito pouco intuitiva. Difícil de entender e difícil de provar. Como os processos de seleção ocorrem em escalas de tempo geológicas, é impossível observar ela em ação. Assim, nunca podemos fazer experimentos que estabeleçam indubitavelmente relações de causa no estudo da evolução: a seleção é observada sempre a posteriori, e como é sempre possível contar mais de uma história plausível para explicar um mesmo evento... cada um acaba acreditando na sua versão. Além disso, o homem está acostumado a selecionar artificialmente suas culturas e animais de criação, decidindo quais organismos dentro de uma população se reproduzirão e interferindo na direção adaptativa da prole, e criando coisas como cães Pincher e Dinamarqueses. É a ‘seleção artificial’, que ao invés de ajudar, atrapalha ainda mais a compreensão da teoria da evolução, já que fortalece a crença de um ‘ser inteligente’ direcionando os processos evolutivos.

A seleção cultural em humanos, voltada para atender ideologias dominantes (religiosas, políticas, raciais), representa um grande risco para a espécie como um todo. No último dia 12 o escritor Luís Fernando Veríssimo publicou um texto no globo questionando o propósito da manipulação do DNA. Como podemos determinar o que é um bom direcionamento? O que é útil hoje, pode ser perigoso amanhã. E a capacidade do ser humano de mudar de idéia é imensamente superior, e mais veloz, que o potencial de resposta da Seleção natural.
Mas a manipulação de genes em laboratório nesse nível (o de modificar características humanas) ainda tem grandes desafios antes de se tornar a realidade dos filmes e realizar todas as promessas de aumento de eficiência das habilidades humanas (ou mesmo cura e prevenção de doenças). Os genes raramente agem sozinhos: uma função do organismo é determinada por vários genes, e por sua vez, um mesmo gene pode afetar em graus variáveis diferentes funções no organismo: fenômeno conhecido como pleiotropia. Por isso é possível que nunca consigamos realmente otimizar a característica que queremos sem causar efeitos colaterais.
Ao mesmo tempo, um tipo de evolução afetado pelas nossas decisões conscientes e pelos progressos alcançados pela tecnologia humana (atualmente mesmo pessoas não aptas física ou intelectualmente tem chances – e as vezes mesmo superiores – de reproduzir).

Será que o aumento da expectativa de vida para muito além de 100 anos e a integração da consciência humana com as máquinas, dois eventos que atualmente parecem inevitáveis, poderá modificar a forma como a natureza vem selecionando e acumulando complexidade, desbancando a seleção natural? É possível. Afinal, nem mesmo a seleção natural está livre da evolução: se extinguir sendo substituída por uma teoria de uma nova espécie. Isso é o natural.

Esse post faz parte da 'Roda de ciência' do mês de Março. Por favor, comentários aqui.

11 março 2009

Que bichinho é esse? Que plantinha é essa? E como dizer isso pros outros?


Na viagens que fazia com amigos durante a faculdade, era inevitável a presença de zoólogos ou botânicos que paravam a cada passo para admirar, identificar ou coletar alguma coisa. Os amigos dos amigos, estudantes de direito, economia ou administração, começaram logo a implicar: "Que bichinho é esse?" ou "Que plantinha é essa?" Apesar da implicância, essa curiosidade pelo mundo que nos cerca não é exclusiva dos biólogos, e nem dos cientistas. Ela está dentro de cada um de nós.

Em outro momento, já depois de formado, ouvia com enorme freqüência a seguinte pergunta: "Mauro, você que é biólogo, me explica..." e o que se seguia eram as dúvidas mais estapafúrdias, nem sempre pertinentes, de pessoas leigas e sinceramente intrigadas com a natureza que as cercava. As vezes, devo confessar, fui mau, e criava uma resposta fantasiosa tão estapafúrdia quanto a pergunta. Era divertido. Como quando num dos muitos finais de semana que passei em São Paulo na casa do meu tio, indo do Rio de Janeiro para Rio Grande onde cursei o mestrado, sentados na varanda, ele me perguntou: "Mauro, você que é biólogo, tem um passarinho que sempre vinha aqui na minha varanda. Ele chegava a tarde e depois ia embora. Porque agora ele não vem mais?"

Respondi que a culpa era da poluição e que ele devia fumar menos por isso também. Ou algo desse tipo. Como eu poderia falar que a pergunta estava mal formulada, pedir o número de observações que ele fez da frequência de visitas do pássaro, se ele usou algum método de foto-identificação para saber se era sempre o mesmo pássaro, se havia mudado as plantas do jardim, e outras tantas variáveis que seriam pertinentes se aquele fosse um experimento ou trabalho de campo. Todos somos cientistas, mas trabalhar com o método científico é para poucos. Dá trabalho e exige muita dedicação e atenção. Além de uma fé quase religiosa nos seus procedimentos. Mas como explicar isso para os outros? O que escrever? Para quem? Como?

Essas são perguntas que chegam a atormentar um cientista todos os dias, e foi sobre elas que eu escolhi falar para os alunos da UNICAMP que gentilmente me convidaram para uma palestra sobre divulgação científica no seu IX CAEB - Congresso Aberto aos Estudantes de Biologia em Julho/2009. Tenham certeza que estarei lá.

09 março 2009

“Estamos em busca de um conceito para o vocábulo vida”


A solicitação foi feita pelo ministro do supremo tribunal federal (STF) Carlos Ayres Britto a 22 cientistas na audiência pública do processo de inconstitucionalidade contra a Lei de Biossegurança de 2005, aquela que permitiu o uso de embriões humanos para a pesquisa com células tronco.

Não foi um pedido simples. O tema adentra não só em um debate filosófico e moral que nem mesmo os grandes pensadores da humanidade conseguiram chegar perto de resolver, mas também em um complicado problema científico.

Atualmente o problema é abordado pelos astrobiólogos, aquelas pessoas que buscam indícios de vida fora da Terra. Uma dessas pesquisadoras, dra. Claudia Lage do Instituto de Biofísica da UFRJ, inicia sua palestra dizendo que: "Não existe uma definição de vida. Podemos denominar os atributos da vida, mas não definí-la".

Se pensarmos bem, quando estávamos no ensino fundamental, aprendemos que os seres vivos têm características (esses atributos): nasce, cresce, reproduz e morre. Mas isso não é uma definição.

Para transformá-la em um definição, precisaríamos adicionar o ponto de vista bioquímico (entidades que possuem metabolismo), genético (entidades capazes de auto-replicação e evolução) e até termodinâmico (sistemas abertos onde a entropia tende a diminuir). Porém, todas essas definições encontram problemas para explicar algumas exceções: algumas vezes as máquinas também apresentam essas mesmas características, e outras vezes, alguns seres vivos falham em apresentar alguma delas.

Abre parênteses. Aqui começa um outro problema. A definição de vida tem de se aplicar a todo tipo de vida, mas os filósofos e juristas estão preocupados apenas com um tipo: a vida humana. Mesmo os ativitstas radicais dos direitos dos animais estão preocupados apenas com os animais 'superiores', um eufemismo para mamíferos com sangue quente e domesticados: cães, gatos, gado e cobaias de laboratório (ratos, camundongos, coelhos, porquinhos da Índia e macacos diversos). Até hoje não vi um comitê dos direitos das Salmonelas e Escherichias (bactérias utilizadas em testes de toxicidade e experimentos de genética e biologia molecular). Apenas o Canadá sugere um procedimento para o sacrifício de peixes utilizados em pesquisa. Fecha parenteses.

Alguns filósofos gregos imaginavam a concepção mesmo antes das evidências científicas da fecundação (que só apareceram no século XVII com o advento do microscópio) e determinavam que ali estava o momento da concepção. Durante toda a idade média o conceito vigente era de que a vida começava quando o feto também começava a se mexer na barriga da mãe.

No Renascimento, Descartes complicou a questão com o seu ' penso, logo existo'. O ser vivo só passou a ser 'humano' depois de ter a consciência da sua existência. A Igreja também gostava dessa idéia, porque podia ser associada diretamente ao conceito de alma. Mas quando as primeiras pesquisas de embriogênese no sec XVIII mostraram o momento da fecundação e o desenvolvimento do embrião, até mesmo a Igreja se dobrou e passou a aceitá-lo como o início da vida.

Mas no que se difere um zigoto de uma outra qualquer célula dentro do organismo? Certamente ambos estão vivos. Tirando as unhas, pelos, cabelos e a camada superficial da pele, todas as células do nosso corpo estão vivas. O potencial para se diferenciar em um organismo também não é um argumento definitivo. Muitas outras células se diferenciam durante o seu processo de desenvolvimento e também se multiplicam formando tecidos e órgãos inteiros. A capacidade de diferenciação não é uma característica definida por algo que apenas o zigoto tem, mas pela forma única pela qual o zigoto controla algo que todas as outras células têm.

Alguns cientistas defendem que o momento do início da vida está mais adiante, quando o óvulo fecundado adere à parede do útero, que é quando ele realmente passa a ter chances de se desenvolver. Outros vão ainda mais adiante e sugerem que a vida começa a partir da segunda semana de desenvolvimento, quando aparecem as primeiras terminações nervosas que resultarão no cérebro. Para os biólogos que trabalham em escalas macroscópicas, um bebê com menos de 5 anos de idade não tem chances de sobreviver sozinho e por isso poderia nem mesmo ser considerado como 'vida independente'. Isso leva a uma outra discussão sem solução, que é de onde vem a vida? Mas disso eu trato em um outro artigo, aqui.

O fato é que quanto mais a ciência avança, mais complexa se torna a questão, e mais difícil o consenso. Mesmo quando se tenta definir a vida pelo seu oposto, a situação continua complicada, já que determinar o momento da morte é tão difícil quanto o início da vida. Sem um consenso científico do que seja a vida e de quando ela se inicia, não é de se espantar que não haja consenso jurídico.

O direito avança bem mais lentamente que a ciência ou mesmo a sociedade. Imagino que até mesmo por isso, os princípios fundamentais são tão amplos. A ponto de na constituição de 1988 estarem garantidos o 'direito à vida', assim como 'direito à felicidade'. Mas garantidos a quem?

"Na verdade, na verdade o feto não tem personalidade jurídica, então, à rigor, não tem direito nenhum. Mas o Direito preserva os direitos futuros, e assim resguarda os interesses do nascituro" diz a advogada Juliana Fernandes.

Ao dar o seu voto na questão da inconstitucionalidade da Lei de Biossegurança, o ministro relator Carlos Ayres Britto, afirmou que a Constituição Federal vale para os brasileiros nascidos vivos, não para embriões. "É preciso vida pós-parto para ganho de personalidade perante o Direito. (...) A vida tem três realidades que não se confundem - o embrião, o feto e o ser humano. (...) Não há uma pessoa humana embrionária, mas sim um embrião de pessoa humana. Na definição jurídica, a vida humana revestida de personalidade civil transcorre entre o nascimento com vida e a morte."

Essa questão foi dedicida e o Brasil foi um dos primeiros países do mundo a regulamentar o uso de embriões humanos em pesquisa e continua sendo um dos poucos países com uma clara legislação a respeito, o que permitiu que hoje nossos pesquisadores, mesmo com escassez de recursos, sejam lideres nessa área de pesquisa. Mas o problema está longe de estar resolvido.

Em resposta a uma solicitação de um defensor público em favor de oito filhos de detentas de São Bernardo do Campo (SP), o Tribunal de Justiça de São Paulo reconheceu que bebês que ainda não nasceram podem entrar com uma ação na Justiça e pleitear seus direitos.

“O zigoto é um individuo humano actual e não simplesmente um potencial do mesmo modo uma criança é uma pessoa humana com potencial para desenvolver a maturidade”.

Para Teresa Ancona Lopez, professora de direito civil da Universidade de São Paulo (USP), a decisão abre um importante precedente. "Apesar de o feto ainda estar em gestação, ele tem muitos direitos assegurados", afirma. Ela explica que, nestes casos, a ação não é impetrada no nome que a mãe pretende registrar a criança, mas em nome do "nascituro" da seguinte cidadã.

"Existe uma diferença entre pessoa e sujeito de direito. O feto não é pessoa ainda, mas ele é sujeito de direito. E, com isso, já tem direitos assegurados", explica Teresa. "A mãe tem que ser bem cuidada porque isso vai refletir nele (bebê)", afirma.

E se, e quando, o Direito avançar para as áreas além das humanas, os dilemas já estarão lá esperando, porque recentemente a dra. Silvana Allodi do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ acabou de publicar o primeiro estudo sugerindo que células tronco de invertebrados levam a formação do sistema nervoso desses animais.

O que podemos dizer é que para que haja vida independente, é necessária a conjunção de uma série de fatores. E a falha em qualquer um deles, ainda que não diretamente, vai levar à morte. É uma boa definição.

Diário de um Biólogo – Domingo 08/03/2009


Acordei tarde e feliz. Desde ontem não faço nada além de comer, dormir e namorar.

Mas mais uma semana vai começar e o texto do blog ameaça fazer 15 dias estampado na vitrine. Havia me prometido lançar pelo menos um texto por semana, mas a coordenação da nova Biofísica para Biologia (BMB163) tem tomado todo o meu tempo. Como boa parte desse tempo foi gasto na criação de textos para auxiliar nas aulas, pensei: "Porque não colocar eles também no blog?"

Os textos são um pouco mais didáticos do que eu costumo a colocar aqui, mas talvez sejam até mais interessantes para os muitos estudantes que frequentam o VQEB. Quem sabe até eles não comentem mais os textos, que eu sei, por diversos canais (tem texto até com comunidade - pro bem e pro mal - no Orkut), ele lêem?

PS: Um beijo especial hoje para todas as mulheres por mais esse dia especial.

26 fevereiro 2009

Diário de um Biólogo – Quarta 25/02/2009

Nem só de ciência vive um cientista.

Sim, é verdade, alguns deles viviam. Muita gente não sabe, mas Newton nunca se casou (os rumores são de que morreu virgem) e mais do que sobre matemática e física, ele escreveu sobre alquimia e teologia. Deve ter sido um chato.

Então, mesmo contra a vontade dos jornais do Rio, que não conseguiram publicar corretamente NENHUM horário de bloco, consegui chegar em um ou outro, e felizmente no Quizomba, que saiu lá pelas 18h no 'circuito' Lapa-Glória. O máximo!



E quando a 4a feira prometia ser de cinzas e descanso, ligo o rádio depois da praia, porque no restaurante da dona Marta não tinha televisão, e ouço o Salgueiro na frente da Beija-Flor por 8 décimos.

A diferença chegou a diminuir, mas como meu primo de São Paulo e a namorada vieram da terra da garoa para desfilar pela Beija-flor, eu tinha certeza que eles não ganhariam!

Saiu o resultado final: Salgueiro campeão do carnaval 2009!

Como disse o Aldir Blanc (ou foi o Nelson Rodrigues?!): "Você pode sair da Tijuca, mas a Tijuca nunca sai de você." Me mandei pro Andaraí, porque nessa noite não existe outro lugar para ir no Rio de Janeiro.



Cientista maluco é aquele que perder uma festa dessas!

17 fevereiro 2009

O tudo e o nada


Gente... hoje eu fiz ciência!

Muito do que eu aprendi de como ser cientista foi durante o mestrado, no departamento de ciências fisiológicas da Universidade do Rio Grande. Aprendi estatística e a deixar crescer o cavanhaque para poder enrolar os dedos nos fios parcos enquanto resolvia um problema como o José Monserrat. Aprendi a ler um artigo deixado em cima da mesa de outra pessoa (e depois saber o artigo melhor do que a pessoa) enquanto tomava um café na caneca trazida de um congresso como o meu orientador Euclydes. Com o Elton entrevistando um aluno de iniciação científica, aprendi que ser cientista é estudar, ler, aprender a perguntar e a responder.

Assim, quando hoje transformamos dois anos de mudanças de protocolos, contagens de células, espectros de emissão de energia e muitas, muitas imagens de microscópio em um esboço de artigo, fiquei muito satisfeito.

O que torna a ciência mais difícil é que nem tudo pode ser relativizado. Seus dados estão ali, olhando para você e mostrando o que quer que seja que mostrem. Seu trabalho é saber interpretar isso sem ver nem mais, nem menos do que eles estão mostrando. Mas o resultado é o senhor soberano da conclusão, não a interpretação.

Não é assim em todo o canto. Políticos (e também advogados) adoram relativizar. Enio Candotti falou maravilhosamente sobre isso na sua palestra "Ciência, política e verdade" no Instituto de Biofísica da UFRJ alguns anos atrás. Para ele, o diálogo entre cientistas e políticos era impossível, porque a noção de verdade de um é muito diferente daquela do outro. Para os cientistas a verdade é baseada em evidências. Se uma mesa pode ser pesada, medida, ocupa lugar no espaço, então a mesa existe, e essa é a verdade. Para os políticos a verdade é consensual. Se for, como diria D. Pedro I, 'para o bem de todos e vontade geral da nação' que a mesa não exista, então não interessa se todos estão reunidos à mesa tomando essa decisão: a mesa não existe, e essa é a verdade.

Pouco pode se construir com verdades consensuais, porque sem a base da evidência, a verdade muda o tempo inteiro, de acordo com a tendência do momento. Resta um nada. Um nada jurídico. E tudo desmorona.

A verdade baseada na evidência tem ainda mais uma vantagem: não se perde tempo tentando alcançar o consenso. A mesa existe: aprendam a lidar com isso! Seja mudando a mesa de posição, destruindo a mesa com um machado, sentando nela para comer um delicioso risoto de Parmiggiano Reggiano com Aspargos, ou para escrever um artigo como fizemos hoje. É tudo de bom.

02 fevereiro 2009

O peso da evidência


Esse final de semana assisti "O curioso caso de Benjamin Button". O filme é muito rico e cheio de conexões, que te levam a pensar em tantas outras coisas, com as quais, tenho certeza, vou me entreter por algum tempo.

Mas queria comentar uma coisa me chamou a atenção no filme: a falta de espanto e curiosidade quando as pessoas encontravam um ser que rejuvenescia ao invés de envelhecer.

É certamente uma incongruência, sobre a qual já comentei aqui. Mas o excelente texto de 1948 de Bruner não explica diretamente COMO resolver o problema do reconhecimento da incongruência característico da natureza humana (e não só).

A resposta é: com evidências!

Tão forte quanto a nossa vontade de negar evidências que contrariam nossos paradigmas, é nossa capacidade de reconhecer que essas evidências contrariam o paradigma. "É assim que se fazem as revoluções científicas!" diria Thomas Khun, do outro lado da sala, encerrando a discussão.

As pessoas não questionavam o rejuvenescimento de Benjamin simplesmente porque ele era uma evidência inquestionável. Dia após dia, ano após ano, todos podiam observá-lo quebrar o paradigma que regia todos a sua volta. E como o próprio personagem diz: "Você pode se irritar o quanto quiser, mas no final, só nos resta, sempre, aceitar". Ou algo desse tipo.

Eu já ouvi todo o tipo de metáforas para questionar meu ceticismo. Tem uma que eu gosto mais que as outras. Uma vez um cara me disse que nós eramos como peixes. Um peixe vive em um mundo particular sem poder acessar um outro mundo que está acima da superfície do seu. Porém, isso não significa que esse mundo não exista (como nós, na argumentação dele, sabemos existir). Se é assim para os peixes, porque não poderia ser assim conosco?

O problema dessas metáforas é que elas não trazem um argumento, apenas tentam justificar a ausência dele. Não há evidência, apenas a justificativa ausência delas. Ainda assim, a metáfora não se sustenta. Ligassem os peixes para paradigmas, perceberiam que do firmamento deles cai de tudo, de anzól a pneu velho, passando por migalhas de pão e latinhas de coca-cola. Talvez não chegassem nunca a compreender ou conhecer esse mundo, mas as evidências dele são inegáveis.

Benjamin Button seria uma revolução científica. Mas enquanto não tivermos evidências de extraterrestres e vida após a morte tão incontestáveis quanto latinhas de coca-cola no fundo do mar, Benjamim Button continuará sendo possível apenas no cinema, e eu continuarei cético e feliz.

PS: Esse texto faz parte da Roda de ciência. Por favor, comentários aqui.

26 janeiro 2009

Sobreviver e adaptar


Quem já não se emocionou com Fernão Capelo, a gaivota que não se conformava com sua vida cotidiana? Passei o final de semana passado na casa dos meus pais que tem no seu quintal uma bela história de conformação, adaptação e sobrevivência.

A primeira vista, Lili é uma gaivota normal. Não fosse o entorno, o quintal lá de casa, você poderia até pensar "O que será que ela tem de especial?" Mas olhando a próxima foto, de perfil, você pode ver que a penugem negra desse lado é um pouco menor. É que ela não tem a asa direita.


Lili é uma sobrevivente. Minha mãe a encontrou enquanto passeava na praia, literalmente "arrastando uma asa" para ela. A asa estava quebrada e pendurada apenas pela pele, infeccionada e a beira da necrose. Lembrando dos seus tempos de instrumentadora cirúrgica, minha mãe pegou Lili na praia e levou pra casa. Sedou, cortou a pele, amputou a asa, suturou e medicou.

Isso foi há 6 anos e ninguém acreditava que Lili sobreviveria muito tempo. Mas ela não só está viva até hoje, como goza de uma saúde invejável e está totalmente adaptada a vida no quintal: tem uma grande bacia de água na sombra onde se banha todos os dias e convive harmonicamente como Duque e Baby, os dois vira-latas da casa; com Loiro, o papagaio e com o vai e vem dos humanos que circulam por ali. Mas é só: ai de um pombo se tentar pousar no quintal. Vai levar uma corrida!

Não, não há nenhum sinal óbvio que indique se Lili é uma gaivota macho ou fêmea. Tipo a crista dos galos. Ou pelo menos nada que apesar de eu ser biólogo (e meio metido a saber tudo), eu reconheça. Mas como gaivota é um substantivo feminino, vai ficar Lili mesmo até que a gente descubra o contrário.

Depois de recuperada, o maior problema foi como alimentar uma gaivota? Felizmente ela se acostumou com peixe congelado, mas tem de ser fresco e inteiro. Os pescadores da região passam lá em casa para entregar os peixes pequenos que eles separam "para a madame que tem uma gaivota no quintal". Além de ser exigente com o peixe, Lili tem todo um ritual para se alimentar. É ela quem tem de vir até a comida, que deve ser deixada na porta da cozinha. Então ela sai da sombra da Bananeira, no canto esquerdo, anda paralela ao muro até a metade do quintal e faz uma curva de 90o para andar em linha reta novamente até a porta da cozinha, onde a espera seu almoço de sardinhas, cocorocas e manjubinhas. Curiosamente, Lili não anda em diagonal.

Apesar de ser uma graça, Lili ainda é arisca e muito assustada. Ninguém pode se aproximar dela que ela fica super nervosa: primeiro tenta se afastar com seus passos miúdos, as vezes vomita, mas se o perseguidor insiste, Lili tenta instintivamente decolar com sua asa esquerda (apenas), em uma cena de partir o coração, e que mostra toda a força do instinto e toda a fraqueza da memória desse animai. Lili não 'sabe' que não tem uma asa, mas inevitavelmente descobre toda vez que mais precisa dela.


Em poucos dias ouvi em dois locais diferentes a frase que coloquei no título. Sobreviver e adaptar. A primeira de Amparo, personagem do livro "Rio das Flores" de Miguel Souza Tavares, que terminei de ler esses dias, falando da sua herança cigana. A segunda da Sonia Rodrigues, no buteco, acho que também falando da sua herança cigana.

Sobreviver e adaptar é o que nos permite evoluir. As vezes isso significa lutar, outras vezes se conformar com o quintal.

20 janeiro 2009

A noite do padroeiro (parte II)


(Continuação...)

Einstein disse que tempo e espaço são relativos, mas essa é a relatividade especial (porque a luz é especial e se comporta de uma maneira diferente das outras coisas). Mas Galileu já havia dito, 500 anos antes que, um monte de eventos eram relativos, e dependiam da posição do observador. Imagino que você conheça a história da bolinha de ping-pong vista por quem está dentro e fora do trem? Dependendo do angulo de observação, tudo poderia parecer diferente.

Será que ela era uma presa? Será que aquela era uma tipica situação de caça-caçador?

Não. Primeiro porque ninguém é devorado por ninguém, o que é uma condição importante desse tipo de relação, de predador-presa.

Abre parênteses: mas isso poderia ser contornado. Poderíamos pensar em competição por um recurso ‘renovável’, ou melhor, um recurso retornável. Alguma coisa que você tira do estoque e fica indisponível por um tempo, mas depois pode voltar ao estoque. Fecha parênteses.

Mas principalmente porque temos uma questão de relatividade: dependendo do observador, não dá para dizer quem é o predador e quem é a presa! Isso caracteriza mais uma competição.

A principal estratégia de uma fêmea no confronto com os machos é confundí-los. As mulheres tem maiores habilidades comunicativas, são mais sensíveis a pequenas mudanças de forma (como por exemplo uma sutileza na expressão facial que demonstre tristeza, alegria, ou dor), conseguem prestar atenção em diferentes coisas ao mesmo tempo (apesar de ter maior dificuldade para se concentrar em apenas uma delas), têm um campo visual mais amplo, percebem o ambiente de uma maneira mais rica que os homens. Esses são alguns elementos cognitivos que permitem as mulheres captarem mais informações que os homens, o que as auxilia a terem uma perspectiva melhor (mais ampla) das situações. E que é o primeiro elemento para tomar uma decisão com mais chance de sucesso (o que define uma decisão melhor).

Não satisfeitas com os elementos extras que a sua biologia permite capturar do ambiente, a mulher quer ainda mais informação do macho. Essas informações ela obtém através de ‘testes’ que são propostos, a todo momento, aos homens que se oferecem para cortejá-la.

Ele não sabia, mas mesmo antes de estar bancando o predador especialista para cima dela, ela já estava também bancando a predadora para cima dele. De uma maneira menos ativa, mas não menos especializada. Montou a armadilha e deixou a presa cair nela. Depois que a presa foi emocionalmente imobilizada ela avaliou o material antes de dar o bote. E não estava sozinha, um bando de amigas sempre ajudam na tarefa de cercar e, principalmente, avaliar a presa da fêmea. Naquela noite, ele, que costumava a caçar em dupla ou em grupo, estava sozinho e não foi páreo para o bando de amigas.


Depois que ela notou o moreno de cabelo comprido e camiseta branca que circulava pelo salão, ela sinalizou para as amigas. Elas então se espalharam para observá-lo enquanto ela ficava mais escondida, preparando os testes que seriam propostos, caso as amigas voltassem com um relatório positivo. Foi o que aconteceu: “Ele é caçador, mas não faz alarde. Dança bem, mas não tira qualquer garota para dançar. Se posiciona no lado esquerdo do palco e fica observando o povo dançar antes de tirar alguém. Parece que tem pegada, mas não tenta pegar na primeira dança.” Era tudo o que ela queria ouvir, pelo menos naquela noite. Seus planos eram de se divertir.

Biologicamente, para uma mulher, se divertir com um homem é ‘pescar genes’: selecionar um bom exemplar para a sua estande de possíveis reprodutores. Ela não tinha intenção de fazer sexo com ele aquela noite. Queria fichá-lo. Quem sabe até marcá-lo com uma etiqueta de ‘pronto para o consumo em...’ assim como se faz com o vinho. Muitas vezes a mulher tem sim intenção de fazer sexo com um desconhecido e nesses momentos existe um componente biológico fortíssimo. Elementos sociais como a presença de parceiro estável que não atingiu as expectativas propostas inicialmente, um momento profissional de sucesso que garanta a sua própria independência financeira, ou simplesmente o aparecimento de um espécime macho muito superior a média; levam a mulher a procurar mais parceiros. Só que as mudanças hormonais que acompanham a ovulação e levam a mulher a procurar mais sexo com esse número maior de parceiros.

Ainda que esteja em um relacionamento estável confortável e bom, uma mulher sempre quer adicionar mais exemplares a sua biblioteca de possíveis parceiros. Nós olhamos bundas e peitos, elas olham o comportamento que sugere que aquele macho vai cuidar dela e dos filhotes, além de doar bons genes para eles. Se as condições ambientais mudarem, o corpo vai sinalizar para ela que é hora de fazer sexo com um desses ‘outros’ parceiros. Os da ‘biblioteca’.

Mas a busca é criteriosa e a posição que o macho ocupará nesse catálogo está relacionada com a performance dele nos diferentes testes propostos.

Enquanto ele observava um casal com uma menina de vestido soltinho longo e sapatilha, que dançava bem agarradinha no cara de barba e cabelo mal lavado, com uma daquelas bermudas jeans largas deixando a insuportável cueca aparecendo, tentando ficar atento aos pés deles que se mexiam como fossem um só, fazendo voltas giros e levando aqueles dois para um lado e outro em um gingado que ficou conhecido como forró universitário, mas que esses dois elevavam a um outro patamar; mesmo ali ele já estava sendo testado.

E menina de tomara que caia branco já havia sentenciado que ele olhar para 'os pés se mexendo' e, de vez em quando, para 'a bundinha redondinha da menina', era uma coisa boa. Um cara que sabe o que busca (o que quer cortejar) e procurar aprimorar os meios para fazer isso. Excelente exemplar!

Sabendo onde ele se posicionava no salão, bastou passar na frente dele para chamar a sua atenção. O contraste da marca de biquíni com a pele e o tomara-que-caia branco foi realmente uma excelente idéia. Sensual sem ser vulgar. Ela sabia qual tipo de homem queria agradar, ainda que, aquela roupa fosse agradar a qualquer homem, e que nada na atitude dela iria impedir os vulgares de se aproximarem também, o que é algo que as mulheres simplesmente não conseguem entender. A boa propaganda atinge o público alvo em cheio, mas atinge mais ou menos TODO o público. E quanto maior for o público, ou quanto maior for o impacto da propaganda nele, maior a freqüência de predadores oportunistas e até violentos.

Tudo foi avaliado: quanto tempo ele levou entre percebê-la e chamá-la para dançar (demais), o que ele falou pra ela ("Dança comigo!" Uma afirmação ao invés da pergunta: "Você quer dançar?"), como ele pegou nas costas (mão espalmada na lombar, logo acima da cintura; posição correta para conduzir a dama no balie) e na mão direita (encaixando a mão em forma de concha, como os elos de uma corrente, o que facilita os giros pelo salão), o cheiro da roupa (bom), do pescoço (muito bom) e do cabelo (muito, muito bom).

Depois dessas observações vieram as primeiras perguntas: Qual seu nome e o que vocês faz. Pela experiência dela, um cara bom desses dando sopa em um forró na vespera do São Sebastião tem de ter defeito. O cara poderia ter um nome feio, tipo Kleison, mas poderia ser muito pior e o cara poderia não saber pronunciar o nome direito, falando Kreison. Mas ele tinha um nome bonito, de origem mediterrânea, pronunciado bem com uma voz forte. Estudos recentes mostram que a voz é um dos principais elementos indicativos de boa saúde sexual. Mais especificamente o pitch, que é a frequência da voz. Frequências baixas são menos desejáveis que frequências altas, para a voz dos machos. E ele tinha voz de locutor de FM e dava pra ver mesmo ali, no meio daquela confusão do forró.

Quando ele disse que era cientista ai foi demais para ela. "Esse cara ainda é inteligente?!" É muito mais do que eu pedi para a minha estante, ela pensou. Ela sorriu e disse que tinha de ir falar com a amiga, deixando ele em pé, plantado no meio do salão. Não sabia direito porque tinha feito aquilo, mas ela tinha de re-avaliar a estratégia depois de todas essas outras informações e nesse momento, deixar o macho confuso, as custas da própria confusão, é sempre a estratégia utilizada pelas fêmeas.

A insistência é um dos principais testes que as mulheres apresentam aos homens. Um homem tem de saber insistir e persistir. Sem ser chato, obviamente. Reagir a uma situação de desconforto com inibição ou raiva denuncia a falta de controle do macho. E a fêmea não quer um macho descontrolado.

Quando ele se recompôs no meio do salão, esperou terminar a música e voltou para buscar ela de novo para dançar. Dessa vez sem falar nada, apenas puxando pela mão. Ela já sabia que tinha encontrado um macho alfa, que ele mereceria um lugar de destaque ao seu lado e não na prateleira, que iria beijá-lo e dançar com ele o resto da noite.

19 janeiro 2009

A noite do padroeiro (parte I)


Dia 19 de Janeiro é sempre dia de festa no Rio de Janeiro. É véspera do dia do padroeiro da cidade, São Sebastião, e para aqueles que, como eu, não são devotos e não tem de acordar cedo no dia seguinte para a procissão, é dia de ir para o forró. Eu sei me virar na pista de dança, então um forró é sempre uma opção de divertimento e uma chance para conhecer garotas.

Se você é 'Solteiro no Rio de Janeiro', sair a noite é uma aula de ecologia. Um cara (ou uma garota) solteiro é um predador em potencial; sendo que todo o resto, todos os outros caras e garotas são competidores ou presas. E a relação entre competidores, e entre predador e presa, são das mais interessantes em ecologia, que tem potencial para ilustrar muitas, muitas relações ecológicas.

Uma presa é um recurso. Claro, nem todo recurso é uma presa, mas toda presa é um recurso. Água é um recurso e não é uma presa. Cerveja e tequila também não.

Um recurso é qualquer substância que faz com que a população cresça quando a sua disponibilidade no ambiente aumenta, porque ele é consumido pelos organismos. Ou seja, um recurso é necessário para a manutenção e/ou crescimento do consumidor e, ainda que o excesso da substância ou fator leve a um efeito tóxico, por definição ele é um nutriente.

Mas uma característica importante para definir um recurso é que sempre que ele é consumido, ele diminui, podendo se tornar um recurso limitante.

Naquela noite de 19 de Janeiro de 1999 tinha tequila e cerveja a vontade no forró do Lagoinha. Não foram fatores limitantes. Mas nem por isso foram consumidos em demasia, apenas o suficiente para deixarem os sentidos alertas. Ao contrário do que acreditam as autoridades de transito, o álcool deixa os sentidos mais alerta. Alguns, em detrimento de outros, é verdade. Justamente os sentidos que importavam naquela noite.

Quando uma animal passeia por um ambiente em busca de alimento ou de um outro recurso qualquer, ele encontra, sequencialmente, presas em potencial. E a cada encontro ele se depara com a questão de perseguir aquela presa, o que gasta tempo e energia mas pode ser recompensado com a energia do alimento; ou procurar uma próxima presa, que pode ser mais interessante, seja porque a recompensa é maior, seja porque o custo de persegui-la é menor.

Nem sempre é fácil decidir e justamente por isso, nem sempre a gente consegue decidir. Mas não decidir já é uma decisão, porque como eu disse, além de você e da presa, existem também os competidores. Não consumir uma presa que aparece para você em um determinado momento significa, necessariamente, dar oportunidade a um seu competidor de consumi-la. Você pode ficar a ver estrelas.

Mas como determinar qual é a presa mais interessante? A gente costuma pensar que “a grama do vizinho é sempre mais verde!”, mas nem sempre isso é verdade. Então como decidir? Bom, a ecologia tem uma teoria que funciona incrivelmente bem, mesmo para qualquer situação que um solteiro na noite do Rio de Janeiro possa encontrar.

Quando um predador encontra presas com uma frequência menor do que o tempo que ele leva para capturá-la, então ele deveria consumir todas as presas que encontrasse. Isso quer dizer, se você caiu em uma daquelas festas ciladas onde você olha para os lados e só encontra homem tomando cerveja, e ao ir até a varanda pra tomar um pouco de ar você encontra uma baranga que algum mané deixou sozinha enquanto espera na interminável fila do banheiro, você aborda e sai com a garota da festa. Sem ressentimentos: é um mundo cão.

Mas quando as presas são frequentes ele deve buscar a presa ótima, porque em breve ele deve encontrá-la. A melhor presa é aquela que maximiza a relação custo/benefício, entre o tempo e energia gastos para encontrá-la e capturá-la, e a energia adquirida com a ingestão. É a 'Teoria do Forrageamento Ótimo'.

Essas duas atitudes diferenciam o generalista do especialista. Como eu falei, a decisão entre um ou outro pode nem sempre ser sua. Em um ambiente inóspito, você pode ser obrigado a ser um generalista. Mas tem gente que é generalista porque gosta mesmo de qualquer coisa, ou porque é meio preguiçoso, e gosta mesmo é de pegar a primeira coisa que aparece pela frente.

Eu nunca fui muito preguiçoso, então naquela noite, circulava pelo Lagoinha com todos os meus sentidos alertados pela cerveja e a tequila. Dançava um forró aqui, dançava um forró ali, até que a vi: Pele morena, uma blusa tomara-que-cai branca e o sorriso mais bonito da Terra.

Como um bom especialista, foquei no alvo e fui atrás dele. Não via mais nada além daquele sorriso e ele tinha de ser meu. Chamei ela pra dançar e nós dançamos. O Lagoinha fica no alto de Santa Tereza. O ar é mais rarefeito lá e a pressão é menor, como no alto de qualquer montanha. Ou era isso, ou ela parecia dançar nas nuvens mesmo. “O que você faz?” ela perguntou. “Eu sou cientista”, respondi. Ela riu e saiu. Deu uma desculpa qualquer do tipo "Não posso deixar minha amiga sozinha" e me deixou plantado sozinho no meio da pista. Mas não sem me deixar aquele sorriso maravilhoso de presente.

A teoria do forrageamento ótimo diz que se a recompensa de uma presa específica por unidade de tempo gasta para encontrá-la é maior do que a média das recompensas ganhas com diferentes presas (também medida por unidade de tempo gasto para encontrá-las), então o animal deve se especializar nessa presa específica! Parece complicado, não é?! Mas você não precisa fazer contas para decidir. A frase acima significa que a especialização compensa apenas quando as presas são abundantes. O que parece ser um paradoxo: Quanto mais garotas bonitas, mais vale a pena você ficar com uma só. Desde que ela SEJA a menina mais bonita. De todas!

Naquela noite não fiz cálculo de média ou outro valor. Havia o troféu: a menina mais bonita da festa. A menina mais bonita que já havia visto na vida!

Se o Guepardo não tiver sucesso na sua investida, vira tapete!
Quanto mais especializado é um animal, maior é o seu compromisso com a caçada. As vezes a escolha de uma presa é um compromisso de vida ou morte. É a ‘Síndrome do Guepardo’. O Guepardo (ou chita) é um felino africano, que alcança a incrível velocidade de 110km/h ao perseguir a sua presa, a Gazela (ou o Antílope, como na foto). Mas a Gazela também é rápida, e não se entrega fácil. A caçada é difícil, e ainda que em geral termine com a morte da gazela, isso não significa que o compromisso do Guepardo seja menor. Se a Gazela escapa, o Guepardo não terá energia para outra caçada e estará fadado a morrer de fome. É difícil dizer quem está certo e quem está errado nessa situação. Acho que por isso a natureza nem tenta fazer o juízo. Há o vencido e há o vencedor. Há o que funciona e o que não funciona. O que funciona, não precisa funcionar sempre. Por isso também, quem vence, não vence sempre.

Juntei minhas últimas forçar e chamei ela pra dançar de novo. Ela veio. Só que dessa vez ela não escapou e dançamos o resto da noite juntos.

(Continua)

07 janeiro 2009

80 milhões de anos sem transar


Poucas espécies se reproduzem assexuadamente. Mas todas elas podem, de tantas em tanta gerações, fazerem um sexozinho para dar uma embaralhada nos genes. Na verdade todas menos uma: o rotífero Bdellóide.

Rotíferos são pequenos animais, principalmente, de água doce. Pequenos mesmo. Apesar de serem metazoários (grupo ao qual eu e você também pertencemos) eles são mutias vezes menores do que os organismos unicelulares com os quais eles habitam. Eles não passam de 0,5 mm e têm em torno de umas mil células.

Os metazoários são aqueles animais que tem mais de um tecido embrionário (que se formam das dobras que o embrião faz quando ainda é apenas um apanhado de células) que depois vão se diferenciar nos vários órgãos.

Não é a toa que fazem parte do superfilo asquelmintos, dêem uma olhada na foto e vocês vão ver como ele é meio asqueroso. Nessa imagem a típica 'coroa' de cílios que se parecem com 'rodas' em torno da boca e que dá o nome ao filo está embutida e o bicho parece uma 'camisinha' cheia de ar.


Mas isso não chegaria a ser motivo para o rotífero Bdelloide nunca, em 80 milhões de anos, ter feito sexo. Sabe aquela piada que as meninas falam de 'nem se ele for o último homem da Terra...' Os Bdellóides nunca viram um homem e vivem em um mundo apenas de mulheres. Desde que foram descobertos todos os indivíduos observados até hoje são femeas que se reproduzem partenogeneticamente.

Em condições ambientais estressantes, eles, na verdade elas, podem formar cistos que podem ser até fervidos sem serem destruídos, e assim permanecer por centenas de milhares de anos(!) e depois eclodirem e em poucos dias povoarem um pequeno lago.

O Bdellóide ainda hoje é um desafio para as teorias que tentam explicar o porquê (e para queê existe sexo e o porquê (e para quê) existem gêneros.

Qualquer que seja a razão, esses pobres animais são um forte evidência do sobrenatural, já que só pode ser alvo de uma maldição!

Não é a tôa que o cérebro deles não possui mais que umas 15 células.

05 janeiro 2009

Cospe ou engole?


(Esta é uma postagem casada e você pode querer ler primeiro o post anteiror)

O que os especialistas não conseguiram, ou não tentaram, explicar, é o costume das fêmeas engolirem o sêmen dos machos. Em princípio, todas as informações necessárias poderiam ser obtidas com a manipulação e o contato oral. A deglutição inclusive impediria o importante exame visual. Qual o propósito então?

Não, não é porque é nutritivo, apesar de ser rico em frutose. Também não parece ser pelo gosto, já que apesar de ser um açúcar, a frutose não é doce. Uma lenda urbana que até já foi citada em um episódio de "Sex and the city" afirma que o gosto melhora se o homem tiver comido abacaxi no dia anterior, mas isso não foi comprovado cientificamente. Umas amigas afirmam que o gosto só é bom quando é do homem que elas amam. Apesar disso também não ter sido comprovado, essa teoria pode estar mais próxima da verdadeira razão: a ativação do sistema imune. Engolir porra é uma maneira da mulher desenvolver tolerância aos antígenos do seu macho.

Um artigo publicado no ano 2000 por um grupo holandês na revista de imunologia reprodutiva, mostrou que o sêmen é rico em uma série de compostos chamados de HLA, a sigla em inglês para "antígeno dos leucócitos humanos". São as famosas proteínas do complexo de histocompatibilidade maior, aquelas proteínas específicas produzidas na superfície das nossas células e que ajudam o nosso corpo a reconhecer o que pertence a ele e o que é estranho. São as mesmas proteínas que fazem com que o organismo tente rejeitar um órgão transplantado, por exemplo.

E do que serviria essa 'tolerância' as partes do corpo do homem para uma mulher apaixonada que não precise de um transplante de coração? Bom, existe sim uma parte, na verdade uma célula, do homem na qual a mulher está interessada que seja transplantada para o seu corpo, e para a qual o corpo dela pode sim, apresentar algum tipo de rejeição: o espermatozóide.

A razão pela qual muitas mulheres não conseguem engravidar é a rejeição ao embrião, ou ao feto. Não é de todo insensato. Biologicamente, ele (o feto) é um 'corpo estranho', ou pelo menos 50% estranho, que se comporta como um parasita no corpo da mulher.

O estudo mostra que o sêmen rico em HLA ajuda a desenvolver a tolerância da mulher ao macho, fazendo com que na hora que o sistema imune for reconhecer as proteínas na superfícies das células do feto, aqueles outros 50% de moléculas estranhas, não sejam tão estranhas assim.

Você pode achar que é brincadeira, mas o fato é que existe uma correlação direta entre mulheres que tem contato oral intimo (engolem sêmen) com o parceiro antes da concepção e a frequência de eclampsia (uma doença da gravidez que pode levar ao aborto natural e até a morte da mãe). Mulheres que engolem, tem menos eclampsia. Quanto maior a freqüência da deglutição, menor a chance de eclampsia.

E não é só isso. O muco que preenche o cérvix feminino (mais conhecido como aquela babinha que geralmente escorre depois da relação sexual) é cheio de glóbulos brancos que defendem a entrada da cavidade abdominal contra bactérias e agentes infecciosos. Mas que também atacam os espermatozóides que nadam pelos canais do muco para chegarem nas trompas. A tolerância as células do macho também reduz o ataque desses linfócitos.

Abre parenteses: As mulheres ainda são capazes de 'filtrar' o esperma de um homem concentrando linfócitos no muco. Essa é uma resposta inconsciente que tende a favorecer a fecundação por um ou outro macho com quem ela tenha estado em contato (e que não é necessariamente o seu macho frequente), mas essa é uma outra história. Fecha parenteses

A natureza não dá ponto sem nó. Um comportamento pode aparecer por acaso, ou como um subproduto de outro (até cultural), mas para ele se tornar uma estratégia difundida por grande parte do reino animal, se ele não teve um propósito, acabou tendo alguma utilidade.

Então podemos corrigir a intuição das meninas, que tendem mesmo a confundir tudo com emoção. Não serve qualquer porra, mas ao invés de ser a porra do homem que elas amam, tem de ser a porra do homem com quem elas querem reproduzir. Considerando que nem sempre seja o mesmo.

PS: para quem quiser, o artigo está aqui.

O que que eu faço com essa porra?


Nos últimos 50 anos, a seleção natural tem sofrido algumas mutações. Alguns autores acreditam que mais do que a 'sobrevivência' do mais apto, ela trata da 'reprodução' do mais apto. Se o organismo sobrevive, mas não se reproduz.... não adianta. A seleção natural é uma seleção sexual!

Com isso, grande parte do nosso comportamento evoluiu não apenas para sobreviver, mas também para favorecer a reprodução. Alguns desses comportamentos parecem mais obviamente conectados a reprodução, mas outros são menos diretamente relacionados, ainda que sejam altamente sexuais.

O sexo oral por exemplo, apesar de ser parte do que entendemos como ato sexual, não parece trazer nenhuma vantagem reprodutiva direta. Para a natureza, esperma lançado fora do corpo da fêmea é, nada menos que, um tremendo desperdício. E a natureza tende a ser extremamente econômica, como já comentamos aqui.

Mas então porque os humanos fazem sexo oral? Porque é muito bom, você vai dizer. Bem, infelizmente essa resposta não é suficiente para a seleção natural (e também encerraria o meu artigo aqui). Além disso, não são apenas os humanos que fazem sexo oral. Você nunca viu os cães cheirando e lambendo as partes: próprias ou alheias?! Os primatas, incluindo nossos primos chimpanzés, fazem a mesma coisa. É um comportamento bastante difundido no reino animal. Será que eles fazem isso também só porque é bom? Sim, só por ser bom já é motivo suficiente para fazer, mas então porque é bom? Você nunca pensou nisso? Não é um prazer racional e sim instintivo. E se é instintivo, geralmente tem uma razão de ser.

De alguma forma, o que biologicamente parece um desperdício, na verdade aumenta as chances de reprodução. Parece um dilema, mas é um investimento.

Apesar do nosso sistema nervoso central (SNC) estar ligado conscientemente em detalhes da aparência humana, como roupas, carros e cortes de cabelo, ele também está ligado inconscientemente em outras coisas, mais básicas, como cheiros, sons, formas e movimentos.

Muito bem, um cara sai com uma menina: cinema, jantar, vinho e quando chega a hora o SNC (dele) está atento a cor da calcinha e do sutiã (dela), da cueca e da meia (dele), se ela se depilou e se ele rói as unhas; ao mas o SNC também está atento atento a várias outras coisas: a relação entre a cintura e o quadril (dela), a relação entre a largura dos ombros e a cintura (dele), a freqüência da voz (principalmente dele), que são os elementos mais óbvios de saúde física reprodutiva. Outros sinais são mais sutis e precisam de uma aproximação maior.

Para os especialistas em comportamento reprodutivo humano, como Robin Baker, é ai que o sexo oral entra: para ajudar a captar os sinais mais sutis de saúde reprodutiva. E não apenas de saúde, mas de comportamento reprodutivo em geral.

Por exemplo, um odor ou gosto desagradáveis na genitália da fêmea podem ser sinais de doenças. Mas além disso, ao cheirar e lamber a genitália da fêmea, o macho pode perceber a presença do esperma de outro macho. Uma informação muito importante, quer ela seja a sua fêmea estável, quer não.

A fêmea por outro lado também está buscando informação quando manuseia ou leva o membro do macho a boca. Não, o tamanho não é o mais importante. Mais importante é o tempo que o homem leva para alcançar a ereção. Esse é um tremendo sinal de saúde sexual. Nossos ancestrais tinham que estar atento aos predadores durante a cópula e não havia tempo a perder. Uma fêmea não queria um cara que demorasse para crescer. Nem que demorasse para ejacular já que a quantidade, a cor e o odor do sêmen também são elementos fundamentais para a avaliação da fêmea. Uma porra branca, viscosa e sem odor é preferível a uma amarelada, liquefeita e com cheiro forte. O volume é uma questão a parte, já que depende sempre de outros fatores.

Então a natureza masculina concorda em esbanjar um pouco de sêmen porque isso pode aumentar as chances dele copular no futuro (um futuro próximo).

(Continua no post acima)