Você que é biólogo...

30 dezembro 2006

Navalha na carne

Esse dias li o conto de uma amiga, que em algum momento tentou justificar que nem sempre a navalha de Ockham funciona. Fiquei pensando que muitos amigos ao lerem o mesmo conto se perguntariam: O que é a navalha de Occam?

Como estou com um pouco de tempo livre nessa antevéspera de ano novo, resolvi contar pra vocês, porque é um dos princípios que acho mais bonitos na natureza.

A teoria já começa com uma confusão no nome. Ela é atribuída a William de Ockham que viveu na vila de Ockham nos arredores de Londres nos idos de 1200. Mas ele também era conhecido como Guilherme de Occam. Por isso vocês podem encontrar o princípio com os dois nomes: Ockam e Occam. Como quer que se chamesse, o que importa é que ele foi um cara precoce e brilhante. Se juntou a ordem fransiscana ainda muito jovem e estudou (e lecionou) filosofia e matemática nos séculos XIII e XIV (até ser vitima da peste negra em Munique em 1349).

Como Frei franciscano, Ockham acreditava na no despojo de todos os bens materiais, por isso fez votos de pobreza e a única coisa que lhe pertencia era a sua túnica. Isso parece ter sido importante para sua filosofia, pois como dizem algumas fontes, parece que ele aplicou essa idéia da desnecessidade das coisas superfluas a outros fenômenos da natureza:
"É inútil fazer com mais o que pode ser feito com menos" (O que mais tarde seria conhecido como princípio da economia).

Ele tinha um problema com os escolásticos da sua universidade que procuravam sempre as explicações mais complexas para os eventos que poderiam ser explicados de forma mais simples. Se para comprovar um teorema, existissem dois caminhos que levavam ao mesmo resultado, e um deles possuísse cálculos bem mais simples que o outro, então essa solução do teorema deveria ser escolhida como a melhor, ou a verdadeira. E foi assim, através da lógica e da matemática, que ele conseguia provar que estava certo.

A frase mais famosa de Ockham é: "Pluralitas non est ponenda sine neccesitate" que quer dizer “Pluralidades não devem ser postas sem necessidade”. Mas acho que com outra frase dele podemos compreender melhor a sua idéia: “as entidades não devem ser multiplicadas além do necessário, a natureza é por si econômica e não se multiplica em vão".

Ockham defendia a necessidade da experimentação como fonte do conhecimento, em oposição uso da razão pura; e julgava impossível provar a existência de Deus através de qualquer ferramenta racional (apesar de não questionar a sua existência). Assim, Ockham separou a fé da razão e libertou a filosofia da teologia. Com isso ele conseguiu muitos inimigos (era uma época em que a igreja costumava a queimar quem quer que questionasse o seu poder e ele foi rapidamente excomungado e acusado de herege, o que o fez passar a vida fugindo dos longos braços do papa), mas também é lembrado até hoje como o primeiro pensador moderno (ou o último grande pensador medieval).

A idéia de Ockham era partir da intuição para explicar os fenômenos: "Não se deve aplicar a um fenômeno nenhuma causa que não seja logicamente dedutível da experiência sensorial.” Com isso ele conseguiu muitos adeptos na ciência, que aplicou o princípio de Ockham ao método científico e sua formulação, um pouco diferente da original, ficou conhecida como a Navalha de Occam: "se há várias explicações igualmente válidas para um fato, então devemos escolher a mais simples".

Muitos cientistas usaram o princípio da navalha de Occam em suas teorias. Alguns, como Newton, que acreditava que Deus fosse importante para manter os planetas ao longo do tempo nas órbitas que ele (Newton) tão brilhantemente descreveu, precisaram ser contestados por outros, no caso Laplace (muitos anos depois), mostrando com o uso da "navalha", que Deus era desnecessário nas equações de Newton.

Um erro que comumente é aplicado a "Navalha de Occam", é achar que ela é um sinônimo de simplismo. A navalha não diz que entre duas teorias, a mais simples é a verdadeira, mas sim que entre duas ou mais teorias, a mais simples, que explique o fenômeno, é a verdadeira. Isso quer dizer que simplificar um fenômeno para que uma teoria se aplique a ele, valendo-se da navalha de occam, não é correto. Foi o que Einstein quis dizer quando escreveu que “as teorias devem ser tão simples quanto possível, mas nem sempre devemos escolher as mais simples”.

Mas eu volto ao conto da minha amiga. Ela incorreu nesse erro: De achar que a navalha não poderia ser aplicada porque a explicação simples não funcionava. A explicação simples não funciona, então ela não é a explicação. A navalha sempre funciona!

O que temos que descobrir é quais elementos incorporar a explicação sem que eles se tornem "multiplicativamente desnecessários"?

Porém, muitas vezes, o problema está no “que” se quer explicar. Karl Pope, outro filosofo de quem eu já falei alguma coisa, mas que de quem eu quero falar mais qualquer dia, explicou que uma teoria só é uma teoria se puder ser refutada. Isso quer dizer que ao formular um problema ou uma hipótese, devemos tomar alguns cuidados, sob pena de escapar da ciência e começar a cair na filosofia ou na fé. Todos nós, em diferentes momentos (e acho que minha amiga no momento em que escreveu o texto) queremos que as coisas sejam de um jeito, que não é necessariamente o jeito que elas são. Mas para isso não precisamos de razão. Precisamos (quem precisa) de fé.

24 dezembro 2006

Quantas gotas de adoçante eu devo por no meu café?

Eu sei que estou há muito tempo sem escrever gente, mas dá um desconto ai, vocês não imaginam o número de provas, e segundas chamadas, e provas finais, e revisões de provas, pelos quais eu tenho que passar cada final de semestre.

Essa pergunta foi feita em diferentes momentos por diferentes pessoas, algumas vezes suscitando discussões apaixonadas. Quantas gotas de adoçante você deve por no seu café?

Eu uso adoçante (depois dos 30... uma necessidade!) no café e tomo Coca-Light, então vou tentar ser o menos tendencioso possível.

O gosto "doce" é sentido na ponta da língua, onde se localizam as papilas gustativas para esse paladar (também é na ponta da língua que fica a maior concentração de sensores de tato de todo corpo humano). Mas os receptores celulares para o doce são bastante promíscuos e se deixam sensibilizar por muitos açúcares diferentes.

Parênteses:
Os receptores para salgado, que ficam nas laterais da parte da frente de língua, diferentemente, são muito exclusivos e acionados apenas pelo NaCl (cloreto de sódio, o sal de cozinha). O Na+ (sódio) é um mensageiro celular importantíssimo e fundamental na transmissão dos impulsos nervosos. Sem ele, as células não conseguem transmitir para o cérebro a informação dos outros “gostos” (doce, amargo, ácido e umami – o sabor do glutamato). E é por isso que a comida sem sal fica com menos TODOS os outros gostos!
Fecha parênteses

Mas como eu ia dizendo, a promiscuidade dos receptores da língua para açúcares se estendem a outros compostos, que apesar de não serem glicídios, sensibilizam as papilas gustativas do doce. Esses compostos são chamados edulcorantes.

Os edulcorantes também servem para adicionar outras propriedades dos áçúcares nos alimentos, servindo como espessantes, tendo inclusive o mesmo ou maior valor calórico, mas isso é uma outra história. Hoje vamos falar dos edulcorantes “não nutritivos”, de diets, daquelas gotinhas mágicas que em quantidades muito pequenas adoçam sem praticamente adicionarem calorias.

Pra não me estender muito, vamos concentrar nos mais tradicionais e que a gente encontra no supermercado com mais freqüência:

A sacarina (ou sacarina sódica, já que no vidrinho de adoçante o que você encontra é o sal de sódio) é o mais antigo dos edulcorantes e foi descoberta em 1879 por um químico norte-americano. A sacarina poderia ser perfeita... é 300 vezes mais doce que a sacarose, altamente solúvel em água e com ZERO de calorias. Mas, como muitos de vocês já devem ter atestado, ela possui um forte sabor residual. Uma coisa meio... metálica, um amargor. Por isso, aproveite toda a doçura da sacarina e ponha a menor quantidade de gotas suficientes para o seu gosto de doce. Quanto mais gotas colocar, mais dessa sensação metálica você vai ter.

O ciclamato foi descoberto em 1937 por outro norte-americano, após uma contaminação acidental de um cigarro com um derivado da ciclohexilamina (não, nem eu sei o que é isso!). O Ciclamato de Sódio (como é comercializado, na forma do sal de sódio) é 30 vezes mais doce que a sacarose e também tem zero de caloria. É facilmente solúvel em água quente ou fria (o que é importante pra poder adoçar tanto suco e sorvete quanto o cafezinho) e estável a uma ampla faixa de pH (o que também é importante já que uma limonada é muito ácida). Mas a sua percepção de doçura é lenta e o sabor residual amargo. Por isso o ciclamato é quase sempre utilizado misturado com outros edulcorantes como a sacarina e o aspartame.

O Aspartame foi descoberto em 1965 e é um adoçante artificial constituído de dois aminoácidos, o ácido aspártico a fenilalanina, que são encontrados normalmente em frutas e legumes. Ao contrário dos outros edulcorantes, o aspartamente é calórico, mas possui apenas quatro calorias por grama. No entanto, é 200 vezes mais doce que o açúcar e seu sabor doce é muito semelhante ao da sacarose. Como vocês já devem ter visto, quase sempre vem um aviso de que pessoas fenilcetonúricas, ou deja, sensíveis ao aminoácido fenilalanina não devem consumi-lo.

Uma das grandes vantagens dos edulcorantes é o seu sinergismo. Quando misturados eles maximizam suas qualidades (doçura) e minimizam seus defeitos (o amargor residual). A maior parte deles não são tóxicos. A toxicidade dos edulcorantes, principalmente os artificiais, está relacionada com a presença de impurezas (da extração ou das reações químicas para obtê-los).

A sacarina por exemplo, não é metabolizada pelo organismo e é rapidamente excretada pelos rins. Não ser metabolizada pode ser uma grande vantagem, já que quase todos os elementos tóxicos, tem a sua toxicidade ativada depois de passarem pelos processos de chamados de biotransformação (que podemos discutir outro dia).

Mesmo assim, uma vez que 500 anos atrás Paracelcius definiu que a toxicidade depende da dose, e que portanto tudo pode ser tóxico; definiu-se uma a dose diária permitida para os principais edulcorante. A dose depende do peso corporal da pessoa, então para saber o quanto você pode consumir por dia, multiplique o seu peso pelos fatores: Sacarina – 3,5 mg; Ciclamato – 11mg e Aspartame 40mg.

Como eu tenho 80kg então poderia ingerir diariamente 280 mg de sacarina, 880mg de ciclamato e 3200mg de aspartame.

Mas veja, isso basicamente quer dizer que, se você chegar ultrapassar esse limites diários, é por que está tomando café ou refrigerante demais. E que a quantidade de outras porcarias que tem em todos os diets da vida, ou os próprios compostos ativos (como a cafeína e a teína), vão estar prejudicando muito mais a sua saúde que os edulcorantes.

Por isso, seja moderado nas gotinhas, mas não por causa da toxicidade delas. E sim porque elas são tão doces, mas tão doces, que você pode adoçar tudo o que quiser com poucas gotas, e quanto menos gotas colocar, menos amargor fica no final.


E se você pode ter só o doce, porque vai querer levar o amargor também?

15 novembro 2006

Por que o nariz do cachorro é frio?


A pergunta foi feita por uma borboleta para a tia Dani, que não sabia responder mas disse que tinha um tio biólogo que saberia. Então, inaugurando o VQEB das crianças, vamos a resposta.

Quem já não teve febre? E sentiu o corpo quase pegando fogo?

A temperatura ideal do corpo é em torno de 36 oC. Mas e quando a temperatura lá fora está em 15oC (fazendo frio) ou então em 42oC (fazendo o maior calorão)? Vocês já repararam que o nosso corpo matem mesma temperatura?

Boa parte da nossa energia é gasta sem que a gente precise correr ou brincar. Apenas, para manter a temperatura do corpo em 36 oC. E pra isso, a gente precisa então ter uma maneira de economizar calor quando está frio lá fora, ou de liberar calor quando está muito quente no corpo da gente.

Para o coração bater, o sangue circular, o pulmão respirar, e até para o cérebro pensar, você gasta energia. Essa energia, é o calor que esquenta o corpo. Quando está muito frio, essa energia não é suficiente pra esquentar a gente, então, temos duas escolhas, fazer mais exercícios, ou proteger a péle com uma conerta ou um casaco, pro calor não ir embora.

Mas porque a péle? Por que no corpo dos humanos, a pele é o principal órgão para equilibrar a temperatura. Quando sobra calor no corpo, ele vai, devagarzinho, saindo pela péle. Você nunca encostou a mão em uma pessoa e viu como ela é mais quente que uma madeira, ou uma barra de ferro? É o que a gente chama de "calor humano"?

Quando o corpo está muito muito quente, o calor sai mais rápido pela pele, e leva água junto com ele: é o suor! Por isso que a gente sua quando corre muito, para mandar calor embora e continuar com noss temperatura de 36 oC

A outra forma de perder água e calor é pela respiração. Quando a gente está com febre, o ar que sai do nariz está mais quente.

Mas vamos lá... e o cachorro? A péle do cachorro é toda recoberta de pêlos. Isso impede que ele possa trocar calor pela péle, que nem a gente faz. Ele manda calor para fora do corpo principalmente pelo ar que ele respira. E quando o ar vai embora, levando calor junto com ele, deixa o nariz do cachorro meio molhado (da água do ar que ele respira) e mais gelado (porque o calor está indo embora junto com o ar). Pela mesma razão o bico dos passaros é o único lugar onde eles "sentem frio". Vocês nunca repararam nos pássaros que pra se proteger escondem o bico debaixo da asa?

O outro lugar de troca de calor é, blarght!, pela baba. Respirando pela boca e soltando muita baba, que funciona como o nosso suor!

Segundo os especialistas, O nariz gelado é um sinal de saúde. O nariz quente e seco é sinal de febre no cão e você deve levar ele logo a um veterinário.

14 novembro 2006

As travessuras dos genes egoistas

Durante uma espera de 6h no aeroporto do Rio, que me levou direto para a livraria mais próxima (e depois pra pizzaria mais próxima e pro chopp mais caro do Rio), o título do novo livro do Mário Vargas Llosa me chamou atenção: “As travessuras da menina má”. O livro foi devorado em 3 dias.

Mas o que isso tem a ver com a biologia? O egoísmo da “menina má” e o altruísmo do bom menino, talvez pelo seu desmedimento, me levaram a pensar nessas duas características como estratégias de vida. Não, eu não sou o primeiro a pensar nisso. Existe todo um ramo da biologia chamado sociobiologia que fala muitíssimo a esse respeito. Nem sempre com muita propriedade, é verdade, mas fala (não sei se é exatamente uma falta de propriedade. Talvez apenas uma forçação de barra. Quando tentamos encontrar uma explicação para uma fato que já aconteceu, é sempre fácil encontrar uma que seja plausível). E a sociobiologia exagera.

A cooperação entre indivíduos da mesma espécie tem sido tema muito controverso. Veja as abelhas e as formigas. Parece que existe muita cooperação entre elas. Mas olhando por outro ângulo, o que existe é escravidão. E você pode pensar que a rainha é uma felizarda que come geléia real. Mas quem come geléia real mesmo são as larvas das abelhas, e a rainha é uma pobre coitada cuja única função no universo é colocar ovos. Um depois do outro! Até morrer.

Eu teria de ler novamente o “Gene egoísta” pra poder ir a fundo no tema com vocês, mas vamos tentar simplificar: O Richard Dawkins desenvolveu essa teoria de que nós somos maquinas, robôs desengonçados, controladas pelos nossos genes. E o único objetivo deles fazer maquinas cada vez melhores para desempenhas a sua função primordial: passar os genes adiante. Na verdade, essa não seria a função primordial e sim a única função! Comer, pensar, sentir... todo o resto serve apenas para gente poder passar os genes adiante. E tudo que entre no caminha desse objetivo primordial, deve ser relevado a segundo plano. Por isso, o egoísmo é a estratégia mais importante para o indivíduo. Somos egoístas por natureza, mas também por causa dos nossos genes. Então como explicar a cooperação entre os indivíduos? Como explicar o altruísmo?

A questão é que nós temos genes em comum com outros indivíduos da nossa espécie. Condividimos 50% dos nossos genes com nossos pais e irmãos, 25% com nossos primos e assim por diante. Se continuássemos na verdade chegaríamos a razões ínfimas de compartilhamento de genes (com um primo de 8º grau chegaria a 1/250), mas alguns estudos mostram que temos pelo menos 1/8 dos nossos genes semelhantes aos de qualquer outra pessoa na rua. É justamente essa semelhança que faz com que os nosso genes, “egoístas” por natureza, nos permitam esses comportamentos altruístas.

Quais comportamentos? Os pássaros que quando encontram um predador ao invés de se esconderem e salvar a própria vida, gritam, chamando atenção para si, mas salvando as vidas dos outros indivíduos do bando, por exemplo. Mas todos vocês devem ter um monte de outros exemplos de atos de altruísmo, até de heroísmo.

Não acho que precisamos dos genes para explicar os comportamentos sociais. Mas com o mundo lindo e estranho em que vivemos, é tentadora a idéia de que o altruísmo é apenas uma outra face do egoísmo. Ainda que não expliquem a “niña mala” ou o bom menino do Vargas Llosa, porque afinal não dá pra explicar maus tratos e tortura, ainda que psicológica, daria pra explicar muitas das belezas estranhas que encontramos no nosso caminho.

Somos todos egoístas. O que determina a nossa capacidade para o altruísmo é nossa história de vida. Talvez o número de “niñas malas” ou “bons meninos” que a gente encontra pelo caminho.

O importante é que você não seja apenas egoísta ou altruísta. Ser apenas egoísta ou apenas altruísta é uma estratégia ruim (por ruim devemos entender, menos eficiente a longo prazo), que uma mistura balanceada dos dois. E por isso a gente quebra a cabeça tentando determinar o equilíbrio exato entre um e outro.

O que eu acho que é mais importante é a gente não se enganar. Se você quer ser egoísta, tente não disfarçar de altruísmo. Criar confusão é uma estratégia ruim se o seu objetivo não é despistar, confundir e fugir. Pensando, pensando, vamos ver que os meninos bons devem ser mais egoísta que as “niñas malas”.

Reconhecer nossos egoísmos é reconhecer nossa humanidade. E nossa natureza animal. Mas exercitar o altruísmo, alem de bonito, e útil também.

08 novembro 2006

Mil


O Blog ultrapassou o milésimo acesso. Não posso negar que me sinto feliz e orgulhoso. As pessoas que aqui chegam em geral gostam do que lêem, muitas vezes voltam e algumas vezes, se tornaram assíduas. Os comentários e as perguntas ainda são poucos, é verdade, mas vamos melhorando um passo de cada vez.

Mas vocês já se perguntaram porque o número 1000 exerce todo esse fascínio? Seja na virada do milênio, seja no dia que seu Blog chega a mil acessos?

Na época da virada do milênio, li um livrinho (mesmo, tinha aquele formato de bolso) chamado “O milênio em questão”, de um biólogo evolucionista espetacular chamado Stephen J. Gould. Ele mostrava que a natureza humana, em sua incansável busca por explicações, razões ou compreensões, acabou determinando arbitrariamente a importância desse número sem que ele determinasse absolutamente nada na natureza.

Alias, muitas outras questões relacionadas com contagens e calendários são puramente arbitrárias. Os dias da semana em sete, as estações do ano em 4... a lista segue.


A natureza nos brindou com 3 ciclos: os dias (voltas da terra em torno de si mesma), as lunações (voltas da lua ao redor da terra, que são ligeiramente parecidas com nossos meses) e os anos (voltas da terra ao redor do sol).

Mas eles não se encaixam de nenhuma maneira. Exatamente por isso, o Carnaval cai cada ano em um dia diferente, sendo que nunca vai ser em Agosto, mas nunca vai ser dois anos na mesma data: O carnaval cai sempre entre o solstício de verão e a próxima lua cheia.

A nossa matemática decimal, com base 10, pode derivar do fato de termos 10 dedos nas mãos, ainda que muitas outras culturas tenham sistemas numéricos distintos (a informática usa a base hexadecimal – 16 – por isso seu computador tem memória de 256 e 512 Mbytes – todos múltiplos de 16). Os Maias, por exemplo, tinha a base 20 (e como o livro brinca, talvez eles contassem os dedos dos pés e das mãos). E isso se soma ao grande grupo de evidências que sugere essas foram decisões arbitrárias para ajudar a reduzir a ansiedade do ser humano com relação as coisas que ele não controla. Como se o a cada segunda-feira os problemas da semana anterior desaparecessem e tivéssemos a cada 7 dias, uma chance de recomeçar. O que serve para os anos, séculos e especialmente, milênios.

O 1000 parece menos importante quando pensamos no 10 da camisa do Pelé, ou no 100 de uma nota de US$100. Mas a bíblia está recheada de questões dessa natureza e muitas ligadas ao apocalipse. Apesar disso, tivemos a chance de viver um dia que mudou de semana, ano, século e milênio, sem que nossas vidas tenham mudado em função disso.

Vocês podem pensar que resolvi comemorar o acesso mil escrevendo um texto chato, mas acho que essas são questões que revelam muito sobre a natureza humana. O que nós somos. Angustiados e massacrados pela indiferença da natureza ao nosso redor! Mas pra comemorar minha natureza humana, vou fazer umas mudanças no visual do Blog pra deixar ele mais agradável pra vocês. Obrigado!

28 outubro 2006

O velho truque da mariposa na árvore


Todo mundo aprendeu no colégio a seleção natural de Darwin. O exemplo clássico, presente em todos os livros didáticos, era das mariposas brancas da Inglaterra, que após a revolução industrial tornar o céu esfumaçado, ficaram escuras para se adaptar ao novo ambiente. Quer dizer, elas não “ficaram” escuras. O que a teoria diz é que mariposas escuras apareceram por acaso e, por se camuflarem melhor, foram “selecionadas” em comparação a suas irmãs brancas, que, por se destacarem, acabaram sendo mais visadas (comidas) pelos predadores. Certo?! Seria o exemplo perfeito... se fosse verdade!

O “melanismo” é o nome do fenômeno relacionado ao escurecimento da pele, pelagem ou plumage, não está relacionado apenas a predação. Na mesma época, não só as mariposas, mas também outros animais, menos sujeitos a predação intensiva, como gatos, besouros e pássaros; também escureceram. Nos pássaros por exemplo, o melanismo pode favorecer a absorção de luz solar e o aquecimento do corpo, ou a coloração da plumagem pode favorecer nos rituais de acasalamento.

No exemplo dos livros, a mariposa Biston betularia, não apresentava formas escura até revolução industrial. A forma pigmentada foi observada nos arredores de Manchester em 1848 e teve a sua freqüência aumentada até alcançar 90% da população no início do século XX. Mas com a redução da poluição, as formas melânicas tiveram novamente uma redução na freqüência para menos de 10% da população. A verdade é que as formas pigmentadas já existiam nas florestas da Inglaterra e também da América do norte, mas a forma clara, salpicada de melanina era a mais freqüente na cidade, e se misturava com os liquens das árvores.

Foi em meados dos anos 50 que um autor chamado Kettlewell explicou a variação da freqüência das diferentes formas em função da pigmentação e da predação por pássaros.
De acordo com a “lenda”, a forma clara estava adaptada a camuflagem nas árvores cobertas de liquens. Quando a poluição aumentou, os liquens (que são super sensíveis a poluição atmosférica) desapareceram e as mariposas claras ficaram mais destacadas nos troncos escuros das árvores e podiam ser mais facilmente identificadas pelos pássaros. O aparecimento de uma mutação para mariposas com maior pigmentação, levou a uma maior eficiência na camuflagem. E com a menor predação pelos pássaros, essa variedade pigmentada conseguia se reproduzir mais e aumentou a sua freqüência na população.

Mas adivinhem.... muitos autores demonstraram que essas mariposas praticamente não ficam nos troncos das árvores! Principalmente durante o dia, preferindo as copas das árvores, que são áreas mais protegidas.

A B. betularia pode apresentar 3 padrões de pigmentação, que dependem da expressão de 4 genes (4 alelos porque são genes que juntos determinam uma mesma característica): a típica forma “Pálida”, a intermediária “Insulária” e a forma melanômica total “Carbonária”.

Apesar da forma Carbonária ser efetivamente melhor camuflada que a forma típica Pálida, nunca houve uma substituição total de uma população pela outra. Além da freqüência da forma típica ter voltado a aumentar em Manchester quando os níveis de poluição diminuíram, existe uma alta freqüência da forma Carbonária em regiões não poluídas da Inglaterra. Isso sugere que o rápido aparecimento das formas pigmentadas foi, provavelmente, uma “exportação” dessas formas. Sem a necessidade do aparecimento da “mutação”.

O assunto é polemico e tem despertado livros e artigos de autores defendendo e questionando o melanismo das mariposas como o melhor exemplo vivo de evolução natural atuando.

Um experimento de criação dos 3 tipos de mariposas em laboratório mostrou que a raça típica Pálida tem uma sobrevivência 30% inferior a da Carbonária e 7% inferior a Insulária. Um modelo de computador que leve em consideração essa sobrevivência geral mostra que a distribuição prevista após 150 gerações de mariposas (um número razoável de se imaginar de 1848 até agora), se aproxima muito mais a distribuição atual do que quando se leva em consideração apenas a capacidade de camuflagem e a poluição.

É mais difícil provar o que é menos intuitivo, ainda que seja o verdadeiro!

22 outubro 2006

Que bichinho é esse?

Quando uma pergunta começa com "Você que é Biólogo..." geralmente ela termina com "...que bichinho é esse?"



O Morcego-Aranha é um mamífero (fala sério?! Você não sabia que os morcegos são mamíferos?) muito social. E essa espécie tem hábitos especialmente sociáveis. Os machos possuem um harém de fêmeas. Durante o dia, quando eles vão dormir, os machos são sempre os primeiros a voltarem para o abrigo e se posicionam sempre a esquerda. As fêmeas vão chegando e antes de se posicionarem a direita, elas lambem o macho. Cada uma delas, por ordem de chegada.

O Morcego-Aranha se achava muito esperto. Mas como vocês podem ver na foto, ele dorme sempre sozinho!

16 outubro 2006

Por que acreditar no óbvio?


Existe um livro legal chamado “Penso, logo me engano” que retrata as grandes trapalhadas científicas dos grandes nomes da ciência, como Newton (a natureza corpuscular da luz) e Einstein (a constante universal). Mas alguém duvida do Cálculo de Newton ou da Relatividade de Einstein?


Errar é humano, e mesmo os grandes cientistas erraram.

A problema do erro é quando ele passa a afetar a credibilidade. E para definir isso, o momento do erro é crucial. Erre no início e você está ferrado. Erre no meio e tem uma chance. Erre no final e ninguém vai ligar. É injusto? Não sei, mas é assim.

A primeira lição que tive de credibilidade na ciência, foi de um professor do mestrado, pelo qual hoje não tenho nenhum respeito científico (o que não quer dizer que não tenha aprendido nada com ele). Ele falou: “Minha metodologia tem que ser correta, para que ninguém questione meus resultados”. Foi uma lição que aprendi. Hoje no laboratório, você pode questionar minha interpretação, mas nunca o meu resultado (ou dos meus meninos).

Outras lições se seguiram com o tempo. Quando eu era representante dos alunos de PG, eu aprendi, nas longas reuniões com os cabeças-coroadas, a ouvir muito e falar pouco, e saber quando falar: basicamente quando eu tiver alguma coisa pra dizer. Isso porque argumentos emocionais não quebram paradigmas e que não basta você estar certo, se não tiver os argumentos certos. Então, falar demais, de menos, ou na hora errada pode afetar em muito a sua credibilidade.

Uma vez, discutindo um caso de ética na ciência. A dúvida era o que fazer com um experimento onde um tubo havia perdido a etiqueta. Se o tubo fosse colocado no grupo experimental o resultado seria significativo, mas se fosse colocado no grupo controle ou descartado, ou resultado significava que todo o experimento teria de ser repetido. Sem hesitar, a professora que estava discutindo conosco falou: Repete tudo! A ciência tem que ser sempre confiável! Ela estava certa.

Fui me tornando autodidata e a outra lição eu aprendi dentro do laboratório, sozinho. As vezes você quer economizar tempo e avançar uma etapa sem se certificar do resultado do estágio anterior. Pular uns dois estágios talvez. Muito, muito poucas vezes isso funciona. E na maioria das vezes, para economizar duas horas de trabalho, você perde 2 dias para repetir tudo. E depois de perder vários dias pra rê-extrair RNA só por preguiça de esterilizar a cuba antes de correr o gel, aprendi que “Só se deve avançar para o próximo passo depois de estar certo do resultado do passo anterior.”

Voltando para o Brasil, pensei em abrir uma ONG para conseguir financiamento fora dos meios acadêmicos tradicionais. Fui conversar com um advogado daqueles de gente rica, que sabe das coisas. Expliquei a minha idéia e ele me perguntou: “Quem é você?”
Primeiro eu estranhei... afinal, eu já tinha consertado o computador dele tantas vezes que era óbvio que ele sabia quem eu era. Depois (muito depois ;-) percebi que era uma perguntar retórica. E tomei um soco no estomago quando realizei a resposta: Eu não era ninguém! Quem ia dar dinheiro ou investir em um projeto da minha ONG sem saber quem eu era? Pra quem eu trabalhava? O que eu já tinha feito? Quem me conhecia? Quem me garantia? Vi que eu ainda tinha um longo caminho a trilhar.

Como tantas vezes na minha vida, me vi terminando uma era de inocência e iniciando um novo caminho no mundo real. Alguns semanas depois abriu uma vaga para professor do melhor instituto de pesquisa da UFRJ e eu não hesitei. Professor da UFRJ era, entre outras coisas, uma injeção de credibilidade no meu nome.

Mas ainda assim eu tinha que investir no “Quem me conhecia? Quem me garantia?” Nesse momento, decidi que não recusaria nenhum convite para palestra, nenhuma colaboração, nenhuma aula, nenhuma análise estatística de resultado, nenhuma solicitação de aluno. E nos últimos 2 anos eu rodei grande parte do Brasil dando palestras e contando histórias. As pessoas estão começando a me conhecer.

No ano passado, colhi o primeiro grande fruto dessa grande jornada de autoconhecimento. O coordenador de uma rede de pesquisa da qual eu faço parte, tentando me acalmar antes de uma apresentação importante, pelo fato de eu ser jovem e rebelde, falou: “Mauro, você pode ser jovem e ter cabelo comprido e usar brinco, mas quando você fala, todo mundo ouve. Você sabe do que está falando e transmite muita segurança de que é capaz de fazer o que está dizendo. Você tem credibilidade!”

E eu finalmente tinha credibilidade!

Sem credibilidade, não adianta nada saber das coisas. Não basta você saber o que está falando e acreditar no que está falando (ainda que ajude muuuuito). Os outros tem que acreditar. O curioso é que a credibilidade é mais importante quando se trata do inusitado. Quanto mais improvável for o seu resultado, ou a interpretação que você faz dele, maior deverá ser o seu esforço para que ele seja aceito. Você vai precisar de muita credibilidade antes de propor algo improvável. Mas se os seus resultados apenas confirmam algo que já foi dito e redito, ai não precisa muita não. Mesmo que o dito e redito no futuro se descubram errados. A credibilidade não é necessária para dizer o óbvio. Mas que cientista quer o óbvio?


Para o cientista, a falta de credibilidade é péssima, mas para o público o ruim é a credulidade. Acreditar pode ser um risco, justamente porque é mais fácil acreditar no óbvio. É preciso coragem para acreditar no improvável, para acreditar no que não é óbvio. Se o erro é menos importante no final do que no início, então o importante é o tempo e não o erro. E assim, também o acerto é menos importante.

Só quem tem credibilidade pode te trair.

12 outubro 2006

Bate Coração!


No último domingo, a revista do Globo publicou uma reportagem sobre as descobertas da ciência que previnem o infarto. Como eu dou aula de fisiologia cardíaca, fui lá conferir. Que decepção. Não tinha nada de fisiologia! Era quase uma propaganda de um novo exame que obviamente não previne nada, diagnostica! O que previne o infarto é uma mudança de estilo de vida, que na sociedade moderna, é difícil.

Pensei que eu poderia fazer um artigo com coisas bem mais legais para serem contadas sobre o coração.

Vocês sabiam que o som do tambor é o único som presente em todas as culturas? Alguém se arrisca no porquê? Exatamente, o som do coração! Desde a antiguidade clássica (egípcios, gregos e romanos), ainda que não se soubesse muito de anatomia e fisiologia, já era conhecida a relação entre os batimentos do coração e a vida.

Só que era uma relação intuitiva: nos corpos vivos dá pra ver, sentir, ouvir os batimentos no peito, enquanto nos mortos... não.

Essa relação entre os batimentos e a vida, levou esses povos a acreditarem que o coração era a “residência da alma”. Por isso, era o órgão aonde se depositavam todas as emoções humanas. Entre elas, o amor!

Nasceu entre os egípcios a tradição de usar um anel pra representar o casamento. Mas foi depois de 2000 anos que os gregos inventaram de usar o anel no dedo anular da mão esquerda. Segundo eles, um anel imantado ajudaria a atrair o coração. Isso por que no dedo anular esquerdo existiria a vena amoris a “veia do amor” que conectaria direto com o coração! Mas antes que as meninas delirarem dizendo “ah.... que romântico”, devo dizer que não existe nenhuma evidência científica ou anatômica da venas amoris! Era tudo um truque de algum Don Juan barato da época.

Mas essa não foi a única confusão que os antigos fizeram por não saberem anatomia. Eles confundiram um monte de coisas. Pra eles era o fígado que produzia e bombeava o sangue, que só caminhava pelas veias. Isso por que eles viam apenas pessoas mortas. E nos mortos, o sangue sai das artérias e se acumulam no fígado. As artérias ficavam vazias. Alias, esse era outro equivoco. Eles acreditavam que era ar que circulava pelas artérias. Tanto que receberam esse nome AR-TÉRIA “caminho do ar”. Se vocês prestarem bem atenção, vão ver que o coração nem está do lado esquerdo do peito. Ele tem uma posição central, estando ligeiramente apontado para o lado esquerdo. Feche o seu punho esquerdo. Coloque na região central do toráx, acima da barriga e entre os peitos. Ai fica o seu coração. E ele, inclusive, tem aproximadamente esse tamanho: o de um punho fechado!

Foi apenas durante a época dos gladiadores que o papel do coração começou a ser esclarecido. Galeno, o médico chefe dos gladiadores, tinha chance de observar corpos vivos abertos. Alguém tomava uma espadada e o peito aberto podia ser observado: o coração batia e o sangue jorrava pelas artérias. Conforme o gladiador ia morrendo, os batimentos iam diminuindo e se Galeno tivesse sido um pouco mais observador, já poderia ter observado a contração seqüencial dos átrios antes dos ventrículos.

Mas ele foi muito importante e durante mais de 10 séculos suas descobertas guiaram a medicina. Claro, com uma pequena participação do fato dos experimentos necessários para aprimorar os seus conceitos acabarem levando as pessoas para morte na fogueira durante a idade média.

Atualmente, as coisas estão muito mais avançadas e o Brasil é líder mundial nas pesquisas de células tronco para o tratamento de infarto do miocárdio (inclusive, o instituto onde eu trabalho é o líder!).

Mas quando eu dou aula, uma coisa que chamam mais atenção é da força do coração. Um coração sadio em bate cerca de 70 vezes por minuto. E em cada batimento, bombeia cerca de 70 mL de sangue para a Aorta. Faça as contas e você vai ver que o coração é capaz de bombear em torno de 5 litros de sangue por minuto. Você sabe quanto é isso? É muito! Pra vocês terem uma idéia, eu fiz um vídeo caseiro. Peguei uma garrafa de 1,5L de água e abri a torneira do tanque a ponto de enchê-la em 18s (faça de novo as contas, 5L em 60s; 1,5L em 18s). A vazão dessa torneira é a vazão do seu coração quando você está tranqüilo, lendo um livro ou vendo TV. Em repouso. (O video termina antes de encher a garrafa porque minha câmera é antiguinha e só grava 15s.)



Mas já se a mulher da sua vida rêaparecer, se um caminhão quase te atropelar ou se você resolver correr a meia-maratona do Rio, a vazão do coração pode aumentar muito. Em situações de ansiedade, estresse ou, principalmente, de esforço físico; os tecidos do corpo vão precisar trabalhar com mais intensidade, vão gastar mais energia e precisar de mais oxigênio. E como quem leva o oxigênio é o sangue, então o coração tem que bombear o sangue com mais intensidade. No vídeo abaixo, abri totalmente a torneira do tanque, e a garrafa levou sete segundos para encher. Isso corresponde ao coração batendo em torno de 180 vezes por minuto.



Só que não pára por ai. O coração ainda é "elástico" e com a necessidade, pode passar a bombear mais de 70mL/batimento. Com o aumento do volume bombeado para 130mL/min e o aumento da freqüência cardíaca para 220 bat/min, faça as contas novamente, e você vai ver que o coração pode chegar a incrível marca de 28.600 mL/min. Quase 30 litros de sangue por minuto!

Pense nisso da próxima vez que for maltratar seu coração!

PS: Algumas dessas curiosidades estão no livro: "As dez maiores descobertas da medicina. (Friedman M, Friedland GW. 2000. Capítulo 2: 37-63. Companhia das Letras. Rio de Janeiro. 363pp)"

09 outubro 2006

O Ignóbel


Desde 1901 a Fundação Nobel e a Real Academia Sueca de Ciências premiam as grandes realizações nos campos da física, química, fisiologia ou medicina, literatura e paz. O Nobel. O prêmio foi instituído por Alfred Nobel (o bonitão da foto), um sueco nascido em Stockholm em 1833. A família do cara morava em São Petersburgo e quando o negócio de seu pai faliu após a guerra da Crimea (entre os Impérios Russo e Otomano, no Mar Negro) ele ficou rico inventando a nitroglicerina. Mesmo tendo perdido um irmão e mais de um laboratório em explosões no manuseio da, ainda descontrolava, nitroglicerina, ele continuou suas pesquisas e ficou ainda mais rico inventando a dinamite. Mas além de inventor e cientista, Nobel também era autor, interprete e um pacifista. O prmio foi possível quando ele fez seu último testamento em 1895, deixando a maior parte a sua riqueza para a instituição do Nobel, antes de morrer na Itália em 1896. As áreas de premiação refletem os interesses de Nobel em diferentes áreas do saber.

Pra vocês terem uma idéia do calibre dos laureados com o prêmio, o primeiro Nobel em física foi para Wilhelm Conrad Röntgen. O cara descobriu os esranhos raios que tinham a capacidade de atravessarem a matéria e marcar um filme fotográfico do outro lado. Aqueles raios invisíveis que posteriormente foram apelidados de Raios X.

Na semana passada o prêmio foi anunciado e entre os ganhadores estavam Andrew Fire e Craig Mello por terem descoberto o silenciamento de genes através da interferência por RNA de dupla fita. Parece complicado? E é, mas é muito mais simples que fazer um transgênico e muito mais promissor como técnica de tratamento gênico. Mandando uma fita complementar de um RNA mensageiro pra dentro da célula, você pode formar um RNA fita dupla e impedir que ele seja traduzido em proteína. Sem proteína... sem função!

Muito bem, essa introdução toda foi pra falar de um outro prêmio, que ao invés de premiar as descobertas mais interessantes ou impressionantes, premia os trabalhos mais esdrúxulos. Sejam pela inutilidade quanto pela excentricidade dos temas.


O IgNobel foi instituído há 16 anos pela universidade de Harvard e a cada ano tem coisas mais impagáveis. Muitas vezes os laureados não aparecem, mas aqueles que aparecem, levam a coisa na esportiva. Então, apesar da minha tendência a não reproduzir reportagens de jornal, não posso deixar de colocar a lista dos premiados desse ano pra vocês tirarem suas próprias conclusões. Os destaques especiais podem ser acompanhados na foto da matéria.

  • Ornitologia: Ivan R. Schwab (EUA). Explicou por que pica-paus não sentem dor de cabeça
  • Nutrição: Wasmia Al-Houty e Faten Al-Mussalam (Kuwait). Mostraram que besouros "rola-bosta" têm um gosto refinado. Eles escolhem as fezes que vão comer
  • Literatura: Daniel Oppenheimer (EUA), pelo artigo "Conseqüências do amplo uso da erudição vernacular: problemas com o uso de longas palavras sem necessidade"
  • Paz: Howard Staleton (País de Gales). Inventou um dispositivo sonoro repelente de adolescentes.
  • Acústica : Lynn Halpern, Ranolph Blake e James Hillenbrand (EUA). Explicaram por que som de unhas arranhando lousa irrita.
  • Matemática: Nic Svenson e Piers Barne (Austrália). Calcularam quantas fotos são necessárias para que ninguém no grupo saia com olhos fechados.
  • Medicina: Francis M. Fesmire (EUA). Tratou soluços com "massagem digital no reto".
  • Física: Basile Audoly e Sebastien Neukirch (França). Descobriram por que espaguete seco ao ser dobrado se quebra normalmente em mais de dois pedaços.
  • Química: Antonio Mulet, José Javier Benedito, José Bon e Carmen Rosselló (Espanha). Estudaram a velocidade ultra-sônica em queijo cheddar.
  • Biologia: Bart Knols e Ruurd de Jong (Holanda). Mostraram que a fêmea do mosquito da malária é igualmente atraída por cheiro de queijo limburger e por chulé.

01 outubro 2006

O gene do Tocha humana


Queria começar esse texto com a etimologia da expressão “queimar o filme”, mas rapidamente vi que seria impossível e então desisti antes de começar. Era importante pra explicar que a expressão é utilizada pra dizer que “alguém” pode queimar o “seu filme”, o que geralmente acontece se você é vacilão, mas e quando VOCÊ é o grande especialista em “queimar” o seu próprio “filme”? Uma daquelas pessoas que “se queima sozinha”, sem nem precisar da trapalhada dos outros? Um tocha humana, que basta dizer “inflame-se” e pronto... se queimou!

A questão levantada na última mesa de bar, com maioria arrasadora de biólogos, do tipo que não perdoam uma, foi: existe um gene para a "autocombustão"?

Sabe quando está passando aquela mulher gostosézima, você está com a sua namorada do lado e... você sabe que ela vai estar te vigiando, mas.... você deveria olhar pra calçada, mas... não consegue se controlar e.... olha pra bunda da gostosa?! Tipo quando está em uma mesa predominantemente de mulheres e... começa com o maior papo machista de falar mal da mulher que você tem (ou bem das mulheres que você não tem)? Isso serve pra contar piadas de mal gosto, dar aquele drible a mais no futebol, tirar a cebola da pizza e pra mais um monte de coisas. É queimação na certa, mas é inevitável.

Fiquei pensando se esse comportamento não se encaixaria em um dos padrões conhecidos de expressão gênica, e esse gene, quando ativado por algum fator externo, levaria a uma disfunção na cascata de ativação das fosforilases que deveriam ativar o seu superego, a região do seu inconsciente que trava, por razões boas ou ruins, essas enxurradas de inoportunismos.

Os genes em organismos superiores, os eucariotos, são controlados de muitas formas, apesar de poderem apresentar um mecanismo básico: possuem uma região promotora, que é capaz de receber sinais do exterior da célula e ativar a transcrição do gene; possuem seqüências espaçadoras chamadas Íntrons, que ajudam a determinar a forma final do RNA; precisam de um conjunto de enzimas para transcreverem a seqüência do DNA em uma seqüência de RNA; e de um outro conjunto de enzimas e moléculas (os ribossomos) para transformarem esse molde de mRNA em uma proteína.

Muitos genes possuem mecanismos de indução e repressão. Moléculas sinalizadoras (em geral proteínas) chamadas fatores de transcrição, podem se ligar ao DNA fazendo com que o gene seja mais. Outras moléculas, chamadas repressores, enquanto estão ligadas ao DNA, impedem que o gene seja ativado. Nesses casos, o sinal para ativação do gene é o desligamento dessa molécula.
Em geral (de novo) o mecanismo de comunicação entre o meio extracelular e o núcleo da célula (onde está o DNA) é através de uma cascata de reações. Uma proteína receptora específica na membrana celular é ativada pela ligação do seu sinal específico (por exemplo, o álcool no sangue). Essa proteína usa então passa um fosfato para uma outra proteína abaixo dela, que vai passando o fosfato adianta, através de várias outras proteínas no citoplasma, até a proteína, final, ligada ao fosfato, entrar no núcleo e se ligar ao promotor do gene no DNA, ativando a transcrição.

Então, voltando ao gene de “autocombustão”. Me parece um mecanismo de repressão clássico, com uma molécula ligada ao DNA constantemente, que impede que a gente seja inconveniente na maior parte do tempo (pelo menos a maior parte de nós, por que tem gente... que insiste em ser inconveniente o tempo todo). Algum fator... que não me parece ser o álcool, a nicotina, ou a cafeína; poderia ser o desbloqueador desse gene. Mas ainda assim, me parece estranho... não deveríamos ser inconvenientes em momento nenhum! E qualquer gene que levasse a inconveniência seria rapidamente excluído da população pela seleção natural. Como já vimos, os chatos acabam se reproduzindo assexuadamente.



Então o gene não seria da autocombustão e sim um gene da resposta mal-criada (esse sim, com grande utilidade em diferentes momentos). Por um erro na cascata de fosforilação, esse gene seria ativado em situações desnecessárias fazendo com que você, ao invés de mal-criado, acabe sendo inconveniente, inoportuno e... se queimando.

Finalmente, poderíamos ter um gene do “não-tô-nem-ai”, que também é muito útil, mas que funciona com um mecanismo diferente. Esse, em geral, não tem repressor, nem ativador, está acionado o tempo todo. Tem gente que é assim mesmo.

Mas, infelizmente, tudo isso é divagação. Não existe nenhum gene para esse comportamento. Como começamos a ver no início da semana, o determinismo biológico é furado! A inconveniência, a autocombustão e o inoportunismo dependem do ambiente e do contexto. O problema da gente não é ativar um gene ou outro: é não reconhecer os diferentes contextos, ambientes e situações particulares. Pode ser por falta de hábito, pode ser por desatenção, falta de jeito ou por pura falta de educação mesmo.

27 setembro 2006

Por que as pessoas sentem medo?

Todo mundo tem medo do (de ficar no) escuro
Caramba... será que não tinha uma pergunta mais fácil?!

Na verdade tinha, me perguntaram no final de semana se a quiromancia era uma ciência. Essa é uma pergunta fácil. A resposta é não! A arte de ler as mãos não é uma ciência. Já falei aqui sobre ao que se propõe a ciência e porque essas são pseudociências (ainda que umas, como a quiromancia, seja mais pseudo que outras).

Mas voltando ao medo... como eu não sou especialista no assunto, fui dar uma pesquisada... Meu Deus!!! Quanta besteira tem escrita sobre o assunto! Não vou nem citar todas pra não confundir vocês. Vou, como sempre, tentar me ater ao científico e ao biológico.

O medo é um instinto básico e importantíssimo para a preservação da vida. Sua função é parecido com a da dor. Se não fosse a dor, você continuaria fazendo algo que está danificando o seu organismo. A dor pode começar como um “sinal” para parar e se transformar em uma poderosa força de ação para evitar que o dano continue.

Dentre todas as nossas funções biológicas (alimentar, crescer, reproduzir) uma delas supera quase todas: o mecanismo de “fuga ou luta”. É através desse mecanismo de alerta que nosso cérebro prepara o organismo para exercer uma dessas duas estratégias de sobrevivência, aumentando a pressão sanguínea (que vai levar mais sangue para os músculos), os batimentos cardíacos e aumenta a freqüência respiratória. As pupilas se dilatam, os pelos eriçam e o corpo sua para manter a temperatura. Tudo isso desencadeado pela liberação de adrenalina pela glândula supra-renal (ad renal vem do latim: acima dos rins; e ina é o sufixo de toda proteína, assim como os hormônios).

Basicamente o mecanismo diz, se o predador for menor do que você, ou você estiver de alguma forma, em vantagem (de número ou situação) lute. Se ele for maior, mais rápido, mais numeroso... corra! Antigamente os tigres dente-de-sabre é que ativavam nossos mecanismos de fuga ou luta. Hoje são os ladrões que ativam.

Então esse é o medo? Não, o mecanismo de fuga ou luta não É o medo (ainda que eles possam acontecer concomitantemente). O medo é uma ferramenta que visa evitar o conflito. A função do medo é, imediatamente anterior a ativação do mecanismo de fuga ou luta. Ou pelo menos deveria ser, pra gente economizar energia.

O medo é a sensação de reconhecimento do perigo, ainda que ele não esteja presente. O medo alerta, mas não para a luta. Alerta seus sentidos para reconhecer o efetivo risco de perigo. Ante o medo, você tem escolhas. Ante um predador... não.

Quer dizer, você também tem medo ante um predador. Então vamos colocar direito: Quando VOCÊ VÊ o predador, você sente medo, e você tem escolhas. Mas quando o predador VÊ VOCÊ... o medo não adianta muito. E é bom escolher logo se você vai fugir ou lutar. Não escolher pode custar mais caro do que a escolha errada.

Mas o que tememos? Já nascemos com medo? Sim! Os animais tem instintos básicos que alertam quanto a determinados perigos. Alguns estudos mostram que os recém nascidos tem medo de buracos e de sons altos. Além disso, nós todos sentimos medo, mas o experimentamos de maneiras ligeiramente diferentes, com maior ou menor intensidade. A função do medo é reconhecer o perigo, então nossos medos mudam ao longo da vida. Aumentam em número, porque somos uma espécie com a capacidade de aprender, e podemos reconhecer e armazenar informação quanto a novos riscos. Quanto mais situações de risco aprendemos a reconhecer, mais “medos” passamos a ter. Isso não é ruim: é protetor.

Ah, e não é verdade que tememos tudo que é novo ou desconhecido. Esses são medos incorporados ao longo da vida, e dependem de como somos educados nessas situações. Muitas culturas tem curiosidade ao invés de medo com relação ao novo e ao desconhecido.

Mas, também somos uma espécie com sentimentos e eles interagem com nossos medos básicos, criando novos medos. Isso dá ao medo novas dimensões, fora daquelas instintivas e puramente biológicas. E quando saímos da biologia e da ciência, saímos também do meu campo. Mas como todo mundo, eu também já senti esse tipo medos e por isso, sem medo, vou me arriscar a falar pouco mais.

Freud disse que existem vários tipos de medo. Aqueles associados ao risco, mas também aqueles associados à culpa. Os medos associados a culpa são aqueles que te paralisam e impedem que você reaja frente a uma situação. Ficar paralisado nessas situações não te custa a vida, porque não existe o perigo efetivo. Mas pode significar que você pare de viver. O que no fim das contas, dá quase no mesmo.

25 setembro 2006

O (in)determinismo biológico


A chegada em Rio branco impressionou pelo cheiro de terra molhada e o barulho de grilos em pleno aeroporto. Na manhã seguinte, pela janela do hotel se via floresta por todos os lados.

Mas até as 10 da manhã nenhum pesquisador da UFAC tinha feito contato conosco. Como tínhamos apenas dois dias, comecei a ficar preocupado com a produtividade e utilidade da visita. A gente da cidade grande, que nem eu, têm pressa.

Depois de muito tempo consegui falar com o ex-coordenador da pós graduação, dr. Alejandro Gonzales, um cubano com doutorado na antiga URSS, mas que se apaixonou pelo Acre. Um pouco mais tarde conseguimos finalmente falar com o Dr. Foster Brown, um americano que lecionava no Rio, mas se que também se apaixonou pelo Acre e hoje vive aqui, estudando queimadas e, acreditem, dando palestras para os militares da ABIN. Por último, falamos com a dr. Annelise, uma gaúcha, que, adivinhem, se apaixonou pelo acre, e hoje está grávida de 6 meses dele.

Essa terra parece despertar muitas paixões. Na praça principal da cidade, um monumento com uma bandeira enorme diz "há mais de 100 anos, brasileiros esquecidos por sua pátria, lutaram a a revolução para defender o Acre dos invasores". Mas porque essa terra hoje parece ser feita apenas por pessoas de fora? Por que os acreanos da revolução não estão na universidade?

É meu segundo dia aqui e me lembrei do Puruzinho, da sensação diferente de tempo que temos na cidade grande, e que, mesmo sem entrar na floresta, sentimos aqui. O tempo aqui é diferente.

Mas a gente sabe que o tempo não é diferente, então o que é? São as pessoas?

Estou lendo esse livro muito legal que fala (questionando) da “ideologia do determinismo biológico”. Que no século XIX a ciência e a seleção natural ajudaram a sustentar uma ideologia de que a sociedade hierárquica era um “fenômeno natural”, já que cada um de nós se distingue nas suas habilidades fundamentais por causa das nossas “diferenças inatas”, diferenças essas que são biologicamente herdadas.

O livro aponta estudos que mostram que cerca de 60% das crianças filhas de trabalhadores de “colarinho azul”, permanecem sendo trabalhadoras do colarinho azul e 70% dos filhos de trabalhadores de “colarinho branco”, seguem sendo de colarinho branco. Para eles, geralmente as crianças de frentistas de postos de gasolina, pedem dinheiro emprestado enquanto filhos de magnatas do petróleo emprestam.

Mas isso justifica uma ideologia do determinismo biológico? Não, ela justamente contraria. As crianças não conseguem sair do seu meu devido a seus fatores inatos ou a hierarquia histórica? Nenhum cientista duvida mais que é devido a segunda alternativa. E o ambiente, histórico e natural, passam a ser o fator determinante.

Então temos que perguntar: o que será que acontece no ambiente amazônico para que, 100 anos depois da revolução acreana, as pessoas de lá continuem fora das universidades?

O clima quente era a resposta preferida dos europeus para justificar a “preguiça” e o “sub-desenvolvimento” dos povos indígenas das Américas e da África. Mas isso já está totalmente ultrapassado. Vocês já leram “Armas, Germes e aço”? É um livro interessantíssimo. Ele conta estudos que mostram, por exemplo, que aborígines australianos, quando tem o mesmo treinamento em lógica que os descendentes de europeus, conseguem, em média, se saírem melhor na obtenção de empregos. Sugerindo, mesmo, que os aborígines são mais inteligentes. Eles apenas foram menos treinados nas tarefas que nós julgamos desenvolvidas.

A resposta da biologia moderna para esse problema, assim como para todos os outros, são os genes. Tudo estaria nos genes. Estaria? Se estudarmos bem o genoma humano vamos descobrir qual o gene que faz os Amazonenses não se chegarem a universidade? Não é bem assim. Essa é na verdade a resposta de alguns biólogos modernos que ganham montes de dinheiro com os projetos genomas.

A capacidade de observar o ambiente, aprender com ele e modifica-lo para se adequar a nossas necessidades, é uma das nossas capacidades inatas que nos faz humanos. Ora, se observar, aprender e modificar são capacidades inatas e é justamente isso o que faz um cientista, então a ciência é uma das nossas capacidades inatas. Somos todos cientistas!

Então porque em áreas onde a natureza é tão exuberante, o treinamento em lógica é menos eficiente?

A verdade pode ser que o ambiente exuberante pode ser também ameaçador. E nesse ambiente ameaçador não há “tempo” para o treinamento em lógica. Sobreviver é a ordem do dia. Cada dia. Todo dia.

A inevitabilidade da luta pela sobrevivência em um ambiente inóspito deixa a busca de alternativas para compreender e modificar o ambiente em segundo plano. Ficar pensando a melhor forma de produzir mandioca pode significar perder a época do plantio e morrer de fome. Então... todo mundo planta, ninguém pensa e a vida continua. Aqui tudo é natural.

“Aqui eu faço diferença” foi a resposta de um dos “estrangeiros” que conheci no Acre. “É por isso que eu estou aqui”. Apesar do ambiente inóspito não inspirar o treinamento em lógica, esse treinamento pode fazer toda a diferença para essas populações, respeitadas suas tradições culturais.

Não são os genes que fazem toda a diferença, é a escola!

17 setembro 2006

Por que quem bebe tem mais vontade de fumar?

Anjinhos biriteiros de Rafaelo

Como o bando de amigos bêbados que eu tenho, não sei como não me fizeram essa pergunta antes. Mas já tinha escutado essa pergunta antes, em uma mesa de médicos, com um desafiando o outro a acertar a resposta. O outro acertou.

Tudo está na nicotina. A nicotina é um alcalóide. Os alcalóides são compostos orgânicos azotados (possuem nitrogênio) complexos, de natureza básica, resultantes do metabolismo secundário das plantas.

O cigarro é um mecanismo muito eficiente de injeção de nicotina no organismo. Mais do que agulha na veia, já que pela absorção nos alvéolos, a droga não pede tempo na circulação venosa até chegar ao cérebro. Uma tragada e o efeito de alívio é imediato!

Mas o que é (deve ser) bom dura pouco!

Alem do cérebro, a nicotina vai para os rins, para ser excretada na urina. A meia vida biológica da nicotina é curta, em torno de 2h, o que significa que depois desse tempo, metade da dose ingerida já foi eliminada pelo organismo (já com o nome de cotinina). Claro, isso pode variar de pessoa a pessoa, com aqueles que demoram menos tempo pra eliminar a droga precisando fumar cigarros em um intervalo menor.

Como todos os compostos orgânicos, a nicotina tem baixa polaridade e por isso a sua solubilidade em água, assim como já discutimos para cafeína (outro alcalóide), é baixa. Os compostos apolares têm maior solubilidade em solventes orgânicos, como por exemplo... o álcool. Bingo!

Ao consumir bebidas alcoólicas, aumenta a concentração de álcool no sangue e aumenta a solubilidade da nicotina. Com a maior solubilização no sangue, menos nicotina vai chegar ao seu cérebro, por que ela vai ser mais facilmente removida pelos rins. Ou seja, o álcool facilita a excreção da nicotina e você se vê tendo uma “crise de abstinência” enquanto toma seus chopps.

estrutura molecular da nicotinaPara piorar, um dos efeitos do álcool é a inibição do hormônio antidiurético, que te ajuda a controlar a vontade de urinar. E se a sua bebida predileta for um fermentado como a cerveja, que ainda por cima tem grande quantidade de água, é bom ter um banheiro por perto.

E mais um cigarro, porque sua “crise de abstinência” vai aumentar.

A nicotina que deveria ir para o seu cérebro, saiu toda no seu excesso de xixi!


Mas não é só o álcool que atrapalha a onda da nicotina. Um artigo recente publicado na revista Alcoholism, sugere que a nicotina atrasa a chegada do álcool no intestino, retendo ele mais tempo no estomago, e reduzindo seus efeitos.

Como o álcool também é uma droga que causa dependência física e psíquica, quando usa nicotina concomitantemente, o viciado acaba consumindo maior quantidade de álcool para obter o mesmo efeito desejado.

Quem bebe tem vontade de fumar. E quem fuma, tem que beber mais.

E adeus mãos cheirosas, cabelos perfumados e dentes branquinhos.

12 setembro 2006

A reprodução assexuada


Uma vez, em uma festa, ouvi um amigo fazer o seguinte comentário: “sexo é bom, mas dá muito trabalho”. Até esse dia achava que todas as pessoas sabiam que o sexo era bom justamente porque dava trabalho. Eu gostava dele, mas ele era meio chato. Muito tempo depois, algumas semanas atrás na verdade, estava numa mesa de bar quando o assunto novamente veio à tona. Uma amiga estava reclamando de um outro amigo que, de tão mala, não poderia ser bom de cama. Ele insistia em, sempre que um cara bonitão chegava perto dela, apoiar as mãos seus ombros, como se estivessem juntos. E o bonitão se afastava.

Chegamos à conclusão que algumas pessoas, de tão chatas, deveriam se reproduzir assexuadamente.

Mas como não éramos todos biólogos a mesa, veio a pergunta: Existe reprodução assexuada?

A assexualidade é relativamente rara entre os organismos multicelulares por razões ainda não completamente compreendidas. Do ponto de vista estratégico, a hipótese atual é a de que a reprodução assexuada pode oferecer benefícios no curto prazo quando o crescimento populacional rápido se torna importante, como por exemplo, para colonizar um novo ambiente; ou em ambientes muito estáveis, que não oferecem risco. Aha!!! A associação entre os chatos e a reprodução assexuada foi crescendo. Chatos adoram tentar colonizar festas vazias e dominar relacionamentos estáveis.

Mas um outro fator chama atenção. As espécies assexuadas podem aumentar seus números rapidamente porque todos podem produzir ovos viáveis. Todos produzem ovos viáveis? Opa?! Então são todos fêmeas?

Sim, e por isso, em condições ideais, essas espécies apresentam o dobro da taxa de crescimento populacional. A partenogênese é um tipo de reprodução assexuada encontrada nos multicelulares e toda população de uma espécie que se reproduz dessa maneira é composta por fêmeas.

Isto sugeriria que apenas as fêmeas podem ser chatos assexuados, mas, como já vimos no início do texto, isso não é verdade. Na espécie humana, existem muitas fêmeas assexuadas sim, mas quase sempre associadas a um macho assexuado. No entanto, essas fêmeas não permanecem assexuadas por muito tempo...

Todos os indivíduos das espécies assexuadas possuem o mesmo (ou quase o mesmo) gentótipo (pop-up: o conjunto dos genes que confere as características gerais de cada indivíduo). Que deveria estar muito bem adaptado ao ambiente estável. A chave do tipo de reprodução está, então, na estabilidade do ambiente e não o sexo do organismo.

O microcrustáceo de água doce, Daphnia, se reproduz por partenogênese em condições ambientais estáveisNas populações sexuadas, a metade dos indivíduos é de machos que não podem, eles próprios, sozinhos, produzir descendentes. E por isso essas populações têm uma fecundidade menor. Mas as alterações genéticas decorrentes da troca de material genético durante a reprodução sexuada, criam para esses organismos um enorme potencial de adaptação a alterações no ambiente.

Por exemplo, se um novo predador, ou patógeno, aparecer no ambiente e o genótipo da população for particularmente indefeso contra ele, a linhagem assexuada inteira poderá ser completamente eliminada. Já nas linhagens que se reproduziram sexuadamente, devido à recombinação gênica que produz um genótipo novo em cada indivíduo, existe uma maior probabilidade de que pelo menos alguns deles sobrevivam àquelas mudanças (que podem ser tanto físicas quanto biológicas) no ambiente.

A reprodução sexuada veio para causar mudança. Mas ela também veio porque havia mudanças. Em longo prazo, todos os ambientes tendem a ser perturbados. Ainda que essas mudanças não sejam necessariamente súbitas, os ambientes estão permanentemente em transformação.

Citando Bernard Shaw: “Não há progresso sem mudança”.

Algumas espécies alternam entre as estratégias sexuada e assexuada dependendo das condições, uma habilidade conhecida por heterogamia. Por exemplo, o crustáceo de água doce Daphnia se reproduz por partenogênese durante a primavera para povoar rapidamente os lagos, mas muda para o modo sexuado quando a competição e a predação aumentam. Assim têm maiores chances de sobreviver.

Os chatos assexuados também tentam aumentar de número rapidamente, mas acabam perecendo frente a competição... ou a predação. Em geral, não dá pra distinguir o chato assexuado nos ambientes estáveis. Mas basta as condições mudarem um pouco pra que eles se revelem. As fêmeas assexuadas, especialmente aquelas que ficam bravas quando recebem lingerie sexy de presente dos seus parceiros no dia dos namorados, mesmo quando dispensadas, não continuam sozinhas por muito tempo. Tem sempre um chato assexuado mais chato de plantão e elas se adaptam de novo. Já os machos assexuados... têm uma sorte pior: primeiro as fêmeas ativam o modo partenogenético, mostrando pro cabra que não precisam dele pra nada mesmo, e depois... é meu amigo, depois elas ativam o modo sexuado mesmo!

PS: Contribuiu a minha grande amiga bióloga Cristine Barreto.

04 setembro 2006

O dia do Biólogo

3 de Setembro (ontem) foi o dia do Biólogo.

Uma vez dei uma palestra para os filhos dos funcionários da Vale do Rio Doce. Era algo parecido com um programa de orientação vocacional e me pediram pra falar sobre o que (e como) era ser biólogo. Dar ensinar, pesquisar, aprender, falei tanta coisa legal. Mostrei o laboratório como a "matriz" e a praia e a floresta como as "filiais". Mas passei o dia de ontem todo escrevendo projeto. Que é o que eu mais tenho feito nos últimos meses. Tentando imaginar a forma de contar a história para seduzir o comitê que vai decidir se vou ter financiamento no próximo ano e se vou poder "dar de comer" a meus alunos de mestrado. Acho que fiquei meio nostálgico e quis ir hoje com um deles coletar ostras e vieiras em Sepetiba.


Uma boa chance de saber melhor o que faz o biólogo é visitar a Casa da Ciência da UFRJ. Fica logo ali, ao lado do Canecão e do Rio Sul. Tem sempre um monte de palestras e eventos legais.

31 agosto 2006

Ainda sobre a vida

Depois de ter publicado um texto sobre a definição de vida, Não posso deixar de contar pra vocês que hoje assisti uma palestra expetacular (sempre com x do sotaque carioca) sobre a busca de estruturas biológicas no universo.

A palestra começou com a frase: "Não existe uma definição de vida!" Lindo! "Podemos denominar os atributos da vida, mas não defini-la".

E a palestra continuou tão bem quanto começou. Mostrou que apesar de existirem muitas moléculas biológicas espalhadas pelo cosmos, mesmo no interior de estrelas, como o aminoácido Glicínia, não encontramos nenhuma indicio de planetas com vida. Um desses indícios seria a presença de Ozônio (O3) na atmosfera, ou um pico de absorção de energia na mesma faixa da clorofila. Ambas características presentes quando observamos a Terra do espaço.

Os estudos se baseiam em algumas premissas lógicas difíceis de serem testadas, como das zonas mais tranqüilas das galáxias para que fosse possível a formação de vida. Mas no fim das contas, mostram que outro composto abundante no cosmos, o cianeto de hidrogênio (HCN), pode reagir com ele mesmo formando dímeros, trímeros, tetrâmeros e assim por diante, até formar a base purínica Adenina, um dos tijolos fundamentais da bioquímica. Ela está presente nas moléculas que armazenam e trocam energia (ATP) e também informação (DNA).


O fato de não encontrarmos essas moléculas inteiras no cosmos pode sugerir que a vida ainda não se formou em outros planetas ou... já foi extinta! E o que vemos são os blocos da degradação dessas moléculas.

A palestrante, Dra. Claudia Lage do IBCCF/UFRJ, terminou falando que "(...) isso tudo se... a vida fosse como nós esperamos que seja. Mas como ela pode ser totalmente diferente..." Sem concluir! Lindo novamente!

Lembrei da poesia que li uma vez e que dizia "concluir é atrofiar"!

A forma e o conteúdo


Definições são importantes mas... são sempre apenas definições. Não posso deixar de pensar que a comunidade astronômica internacional, discutindo vários dias sobre a definição de planetas, que acabou culminando com a retirada de Plutão da categoria ao invés da inserção de 3 novos astros como foi proposto no início da conferência IUA, poderia ter aproveitado melhor esse tempo. Nem que tivesse sido pra passear pela linda cidade de Praga. Me parece dar mais importância a "forma" que ao "conteúdo". Mas pensando bem... isso não não deve ser necessáriamente ruim.

Os cientistas e seus egos

Um livro de tiragem pequena, circulação restrita e edição esgotada, é um dos meus livros de cabeceira. Chama “O perfil da ciência brasileira” de Leopoldo de Meis e Jacqueline Leta. O livro trata a do que se convenciona chamar cienciometria, ou os indicadores da ciência. No caso, a brasileira. Entre outras coisas, o livro mostra que, a partir da década de 80, a produção científica brasileira aumentou vertiginosamente. Paradoxalmente, no mesmo período, os investimentos em ciência e tecnologia no país sofreram sucessivos cortes. Como explicar o fenômeno, que culminou nos anos 90, com a entrada do Brasil no seleto grupo dos 20 países que contribuem com mais de 1% da ciência mundial (e que hoje ocupa a 17 posição)?

Não é tão difícil. No mesmo período aumentaram, proporcionalmente, as bolsas de pós graduação, especialmente de doutorado. E com isso, aumentou a produtividade da ciência brasileira. Mesmo sem verba para pesquisa, aumentando o número de trabalhadores jovens, foi possível, graças a criatividade e esforço, superar as dificuldades financeiras. As estatísticas mais atuais do CNPq ou da CAPES, mostram que a correlação entre número de pós-graduandos e produção científica se mantém nos diferentes institutos de pesquisa do país: mais pós-graduandos, mais produção científica!

Desde que tomei conhecimento dessa informação, quando ainda era um estudante de pós-graduação, comecei a lutar por essa causa. Hoje fazemos parte de um grupo que defende os interesses dos jovens cientistas, definidos atualmente como os doutores com algo entre 5 e 10 anos da defesa da tese de doutoramento. Esse grupo tem sido especialmente preterido no Brasil nos últimos 10 anos. Aqui, os jovens tem de ficar mercê dos cientistas seniores, que são os capazes de determinar linhas de pesquisa e conseguir financiamento dentro do sistema de financiamento de ciência brasileiro.

O Rapto das Sabinas de Gianbologna representa a quebra de paradigmas e a vitória do novo sob o velhoIsso vai continuar acontecendo enquanto as agências de fomento a pesquisa, fundações de apoio a pesquisa em nível estadual (como a FAPERJ) e o CNPq e a CAPES em nível nacional, não possuírem jovens pesquisadores em suas instâncias decisórias (os conselhos diretores e comitês assessores). Pra entender que essa o quanto essa presença é fundamental, basta ver o quanto são insipientes e ineficientes os programas de fomento para jovens pesquisadores.

O que forma um novo paradoxo, já que é nessa fase da vida que os cientistas são mais produtivos. Basta ver que Einstien, Newton, Watson e Crick... tinham todos menos de 40 anos quando fizeram suas grandes descobertas.

“O Gabeira disse que o mundo inteiro quer paz”, essa tirada de uma amiga que assistiu o Gabeira na FLIP virou pra mim retrato daquelas coisas que são fáceis de todo mundo querer, e de todo mundo saber. Então vou dar a minha: O ego e a sede de poder são inerentes ao ser humano! Apenas me parece que naquelas profissões onde a remuneração não é compatível com o nível intelectual, a inteligência acaba sendo super valorizada, já que só sobra ele como moeda de valorização do ego. “Eu ganho pouco, mas olha aqui o que eu sei e que ninguem mais entende”! Mas ainda é impressionante ver mesmo nesses círculos super restritos, a sede por um poder minúsculo, reconhecido apenas por uma meia dúzia de pares, é grande. E as batalhas intensas. Só que os jovens são tirados fora dessas brigas pelo poder. A eles cabe trabalhar enquanto aos “Grandes” cabe decidir. Resta saber quem decidiu isso?

Na semana passada estive no Congresso da FeSBE em Águas de Lindóia e quando perguntei a um professor catedrático, chefe de um comitê assessor da CAPES, como ele explicava que os jovens cientistas serem os principais atores nos planos da CAPES para nuclear novos grupos de pós-graduação em áreas do Brasil sem tradição em pesquisa, mas não terem assento nos comitês assessores (como aquele que ele presidia no momento), a resposta dele foi: vocês ainda tem que comer muito arroz com feijão!

Como li em um artigo da Nature que não consigo mais encontrar de jeito nenhum: “É mais fácil fazer um dia frio no Inferno que os pesquisadores estabelecidos permitirem mudanças nas regras da distribuição de verbas para pesquisa”.

21 agosto 2006

Fluorescer da Guerra

Entre outras coisas, eu dou aula de Biofísica. As vezes um aluno te faz uma pergunta cabreira e então você descobre alguma coisa que não sabe. Outras vezes, no meio de uma explicação a gente descobre que não sabemos o que estamos tentando explicar. Não sei se eles percebem, mas eu mesmo percebo. Uma vez tive que explicar fluorescência de raios X e acabei aprendendo o que era fluorescência. E qual não foi a minha surpresa quando descobri que não sabia o que era (ou melhor, não sabia que não era a mesma coisa que) fosforescência.

Ambos fenômenos estão relacionados com a capacidade dos átomos de absorver energia. Na verdade, quem absorve energia são os elétrons. Você lembra alguma coisa de física? De química? Os elétrons são aquelas partículas muuuuuuuuuuito pequenas, que ficam girando (orbitando) ao redor do núcleo dos átomos (que tem seus prótons e neutros). Eles são capazes de absorver energia e pularem para um estado dito "excitado" (pronto, foi só falar de alguma coisa mais mundana que todo mundo se anima). Quando o elétron volta para seu estado natural, chamado "fundamental", tem que mandar se livrar daquela energia extra e faz isso emitindo radiação eletromagnética. Na forma de raios X, ultravioleta e luz visível, entre outras.

Em alguns átomos especiais, esses elétrons têm maior facilidade de se excitar e com isso emitem muita energia quando voltam ao seu estado fundamental. Parte dessa energia é liberada na forma de luz visível imediatamente e com um determinado comprimento de onda. Mas outra parte dessa energia, de alguns elétrons retardatários, e liberada um pouco depois, e tem um comprimento de onda um pouco maior. Bem, essa "luz imediata", é a fluorescência e cessa assim que termina a excitação. Já a "luz retardatária" é a fosforescência e essa demora um pouco mais para cessar, e continua por algum tempo mesmo depois que termina a excitação.

Ah, você acha que isso não interessa? Bom, confesso que eu posso me interessar mais do que os outros. Confesso também que esse texto foi para responder uma curiosidade minha (é, biólogos também fazem perguntas desse tipo). Mas vocês também deveriam se interessar, já que são fenômenos especialmente presentes no nosso dia-a-dia. Lâmpadas frias, interruptores de luz, ponteiros de relógio e quase tudo que ilumina ou brilha no escuro, envolve um dos dois. Pra quem quiser ir mais a fundo, tem preservativos fosforescentes também!

Com essa resposta eu já daria a minha curiosidade por satisfeita, mas conforme fui escrevendo o texto, me lembrei de uma coisa que li há algum tempo atrás, quando dava aulas de "Desenvolvimento sustentável", e vi que esses fenômenos poderiam ter implicações bem mais profundas nas nossas vidas.

As lâmpadas fluorescentes, como o próprio nome diz, funcionam com o princípio da fluorescência. O tubo de vidro é preenchido com um gás inerte como o argônio e o vapor de Mercúrio (que é tóxico, mas a gente entra nessa questão outro dia). Quando vocês ligam a luz na sua casa, a eletricidade esquenta os filamentos (de Tungstênio, como nas lâmpadas incandescentes) que estão na extremidade de cada ponto do tubo da lâmpada e assim liberam elétrons para o gás. Esses elétrons ionizam o gás (fazem com que o argônio e o Hg também percam elétrons) e com isso eles ganham carga (positiva). Como de um lado da lâmpada é negativo e do outro é positivo, esses íons se aceleram com a diferença de potencial e vão ionizando outros átomos. Toda essa excitação produz ultravioleta. Se não fosse aquele pó branco que recobre a lâmpada o que teríamos seria um sol particular e vocês poderiam ficar se bronzeando debaixo da lâmpada da cozinha, não fosse o fato do UV ser um dos maiores agentes carcinogênicos existentes. O pó branco é um composto fosfórico (que contem ainda um monte de outros elementos, incluindo metais pesados diversos) que absorve a radiação UV e emite luz visível.

Quando desligamos a lâmpada, a fluorescência cessa, mas a lâmpada ainda pode emitir brilho, devido à fosforescência. Os interruptores de luz são feitos com um material fosfórico que emite mais fosforescência e, brilhando no escuro, depois que cessa a energia de excitação, para que você o encontre com mais facilidade e acenda a luz.

As lâmpadas fluorescentes também são chamadas de lâmpadas frias, e vem sendo cada vez mais utilizadas atualmente pelo fato de aproveitarem melhor a energia elétrica, diminuindo o desperdício. As lâmpadas incandescentes, para produzirem 5% de luz gastam os outros 95% da energia elétrica produzindo calor. As lâmpadas fluorescentes produzem 75% da energia em luz e apenas 25% é perdido como calor.

A princípio, não parece um número irrelevante, mas se vocês pensarem no resultado disso na conta de luz no final do mês ele pode parecer irrelevante sim. Uma daquelas economias bobas que varia entre R$ 0,76 e R$ 2,47. No entanto, se pensarmos globalmente, a economia não têm nada de irrelevante. Ela é enorme! Pensei nisso alguns anos atrás quando tivemos que reduzir nossas contas de luz por conta do Apagão.

Já naquela época, apesar da série de confusões governamentais que levaram ao Apagão, quem pagou a conta, fomos nós. Um livro que eu li, muito antes do racionamento, dizia que a melhor coisa que um governo poderia fazer era trocar todas as lâmpadas incandescentes das casas de todas as pessoas no país por lâmpadas fluorescentes. E deveria fazer isso sem custo direto para a população. De graça!

Por que a economia seria tanta, mas tanta, que não haveria necessidade de se racionamento. E mais, nem mesmo construindo uma nova usina hidroelétrica, que custaria infinitamente mais do que a troca das lâmpadas, se conseguiria produzir mais energia do que teria sido economizada com esse simples gesto.

O livro trazia um cálculo parecido para os Estados Unidos. Segundo os autores, se o governo americano trocasse todas as lâmpadas incandescentes por fluorescentes, a energia economizada seria equivalente ao correspondente em petróleo, que o país importa do oriente médio todos os anos.

Ou seja, trocando todas as lâmpadas, a 1/100 do custo de construção de uma usina nuclear, não haveria mais necessidade de se importar petróleo do Oriente. E assim, não haveria mais necessidade de intervir em governos soberanos com guerras para manipular o preço do petróleo. E sem necessidade de resistir a invasão dos governos estrangeiros, talvez não houvesse insurgência de grupos fanáticos religiosos na região. E talvez fosse evitado o nascimento do terrorismo.

Tudo isso só trocando algumas lâmpadas.

Vida alem da vida

Outro dia falei sobre a definição de vida. Bem, estou a três dias escrevendo esse último texto que vocês acabaram de ler. Saiu totalmente diferente de quando comecei a escrevê-lo. Mais, saiu totalmente diferente do que eu tinha em mente quando comecei a escrever. Era algo muito mais técnico e chato. Mas criou vida. E pode até ter saído mais chato ou pior. Mas é o que se tornou. E é assim que deve ser.

17 agosto 2006

A cafeína do Café: brasileiro, italiano e americano

Estávamos tomando um café e um capuccino no Gioconda, depois de dar uma bisbilhotada na Da Vinci, quando uma aluna americana que está no Rio por 3 meses para trabalhar no nosso laboratório, disse que o café brasileiro era muito forte. E que tinha muita cafeína. Mas será que isso é verdade?

A cafeína presente nos grãos é extraída, assim como outros componentes do sabor e aroma do café, pela água quente. No entanto, a solubilidade da cafeína é baixa. Isso quer dizer que você precisa de muita água, muito quente e passando muito devagar, para extraír muita cafeína. Quanto menos água você usar, com temperatura mais baixa e que fique em contato menos tempo com o pó, menos cafeína você terá.

Então o café expresso italiano, aquele clássico, corto (curto), bem forte, é o que MENOS tem cafeína! A água sob pressão passa rapidamente por uma quatidade grande de pó retirando mais elementos de aroma e sabor, e menos cafeína. O cafezinho tradicional brasileiro seria um intermediário, enquanto o c(h)afé americano, com rios de água e sem muito gosto, alem de tudo isso, é o mais rico em cafeína. Talvez perca para o café turco, onde o pó é "cozido" na água, e vai com ela até a xícara, permitindo, durante esse longo tempo, a solubilização de mais e mais cafeína.

Pena que todo esse conhecimento científico não me ajuda a fazer um cafézinho, seja qual for a nacionalidade, gostoso.

16 agosto 2006

O que é a vida?

A pergunta, simpática e difícil, foi feita por uma advogada que estava estudando direito biológico (o que quer que isso seja!).

A mais manjada das definições de ser vivo, que todo mundo lembra do 2o grau, é que ele nasce, cresce, se reproduz, e morre.

E na verdade, desde o segundo grau desse que voz fala, e provavelmente de muitos de vocês, a definição não mudou. Obviamente, estou ignorando qualquer discussão sobre vida metafísica e vida extraterrestre.

À definição de vida, na Terra, devemos adicionar o ponto de vista bioquímico (entidades que possuem metabolismo), genético (entidades com capazes de auto-replicação e evolução) e até termodinâmico (sistemas abertos onde a entropia tende a diminuir). Todos essas definições encontram problemas para explicar algumas exceções: algumas vezes máquinas apresentam essas mesmas características, outras vezes alguns seres vivos falham em apresentar alguma delas.

Mas para minha linda advogada, preocupada com os homens e não com os bichos, a questão era ainda mais complicada. Quando a vida começa? E meu primeiro pensamento foi de responder com outra questão: de que ponto de vista? Bioquímico, genético ou termodinâmico? Mas acho que advogados não gostam muito de pontos de vista diferentes e isso não resolvia o problema dela. Comecei a sugerir que era no momento da fecundação, mas essa vida não era independente. Depois falei do parto, mas no final já estava arriscando "aos 5 anos de idade" que é a idade a partir da qual acreditam que um ser humano seja capaz de se alimentar sozinho. Foi ai que ela me veio com uma outra pergunta: quando a vida acaba? Já estava me dando por derrotado quando então lembrei do "princípio Ana Karenina".

O princípio não tem nada a ver com biologia, mas sim com romance. De acordo com ele, o um relacionamento entre duas pessoas só pode funcionar se uma série de fatores funcionarem concomitantemente. A falha em qualquer um desses fatores, leva ao fim do relacionamento. Por isso, que tantos relacionamentos terminam: é muito difícil encontrar todos os fatores necessários para que duas pessoas funcionem juntas.

Para que haja vida independente, é necessária a conjunção de uma série de fatores. E a falha em qualquer um deles, ainda que não diretamente, vai levar a morte.


Acabei gostando da definição. E (d)ela também!