Você que é biólogo...

17 outubro 2005

"Disseram que eu voltei americanizada"

Quantos tipos de cientistas existem? Quanto a vida pessoal de cada um influencia nas suas pesquisas?

Pergunto isso por que um amigo biólogo, certamente futuro premio Nobel, acaba de voltar definitivamente para o Brasil após um par de anos nos EUA. Cara... o cara anda no carro sentado no banco do carona segurando na maçaneta, fechando os olhos e eriçando a espinha; totalmente assustado com o transito no Rio. Quer sair da UFRJ antes do sol se por com medo dos tiroteios, prefere não sair de noite e não conhece mais as ruas por onde passa.

Não, ele não é um nerd. Esse cara toca percussão numa banda de Reggae formada por outros cientistas, pega onda de pranchão e é campeão de volei da biologia. Mas acho que as paranóias americanas afetaram ele.

Fiquei pensando em todos os meus amigos cientístas e na variedade de perfis. Incluindo o meu.

Tem o prático. Gosta da ciência mas gosta mesmo é de viver a vida. Foi morar na Suécia porque lá tudo funcionava e o tempo que a gente gasta a mais no laboratório porque falta luz, falta água, ou um equipamento não funciona; ele faz curso de fotografia, computador, e sueco. Se casou com um suéca e tem uma filha linda. Hoje mora na Inglaterra, onde tudo também funciona.

Tem o correto. Quebra a cara porque nunca usa o dinheiro de um projeto em outro. Passa meses esperando que as coisas funcionem pelos caminhos corretos. É preocupado com os aspectos sociais de tudo que faz. Brilhante pesquisador, descobriu a causa das mortes em uma clínica com problemas no tratamento da água mas, como quis fazer tudo correto, a chefe dele quem levou o crédito. Se casou com uma promotora e mora no interior de Pernambuco.


Tem o carismático. O cara consegue tudo com seu carisma. Bons alunos, bons colaboradores. Mas como só carisma não basta, trabalha como um condenado. Faz um monte de coisas ao mesmo tempo, mas como é muito competente (como todos os outros) consegue fazer tudo e tem dois artigos publicados na Nature. Não fica entediado: "seu nome é trabalho!" Esse canta na banda de Reggae, tem duas filhas pré-adolescentes e é casado com uma dançarina de Flamenco expetacular.

Tem o certinho. Nosso amigo americanizado gasta tanto tempo montando sua agenda que eu não consigo imaginar qeu sobre tempo pra fazer o que tem de ser feito. É talvez o mais brilhante de todos, mas atravancado pelas correntes que o aprisionam. Explico: no colégio tinha uma caneta de cada cor para sublinhar (com régua) as informações de acordo com o tema ou importância. Também é carismático, mas faz o tipo discreto (e um sucesso...). É casado com uma cientista.


Tem o meu tipo. Fica difícil eu mesmo me definir. Acho que trabalho por pulsos. Fico atolado com milhares de coisas pra fazer durante muito tempo, e depois, em pouco tempo, resolvo tudo. Sou dedicado, mas não muito. Conto com meu jogo de cintura e acho que sou muito criativo. E que esse é meu grande trunfo perto desses monstros consagrados que trabalham pra caramba. Cultivo a amizade deles como ouro e não sou casado.

O que eu não posso deixar de falar é que nosso só voltou americanizado porque voltou. E voltou porque quis voltar. Fez questão. Ama o Rio, ama a família que está no Rio. Ama o Brasil e faz de tudo pela ciência brasileira.

01 agosto 2005

Massa de modelar


Desci pra tocar café da manhã. Toda 2ª feira as 10:00h tem Bagels and coffee pra enturmar o pessoal. Antigamentee, quando as revistas eram apenas em papel, esse era também o momento de ver as novas edições. Como os caras aqui tem grana, eles continuam tendo algumas revistas impressas. E foi assim que eu me deparei com a capa de um número da Nature falando de “Intelligent design” (veja o artigo na integra
aqui). Não, não tem nada a ver com uma nova arquitetura planejando melhor novos ambientes. Apesar do criacionismo ter muitos adeptos entre pais e políticos americanos (e aparentemente no Rio de Janeiro), ele encontra dificuldade para se difundir nas universidades. Apesar disso, com a educação religiosa que muitos estudantes de ciência receberam em algum momento de suas vidas (independentemente da religião), existe um choque entre a bagagem que trazem e as informações que recebem quando iniciam seus cursos. Independentemente de serem ciências físicas, químicas ou biológicas.
A nova teoria tenta reconciliar a experiência religiosa de cada um com os novos conhecimentos científicos, mas adventa que os fenomenos que observamos no dia a dia de nossos laboratórios ou no ambiente natural, tem explicações científicas, mas são “guiados”, “conduzidos”ou “orientados” por uma “força superior”, Deus.
Esse pensamente fere profundamente a razão científica e deve ser duramente rejeitado.

Atualmente, a maior parte dos cientistas concorda que Ciência e Religião tem de continuar separados (é curioso como muitos desses mesmos cientistas conseguem fazer essa separação em suas vidas, já que conduzem suas pesquisas de maneira cética, mas acreditam em forças superiores em suas vidas particulares). Quantas conquistas a ciência proporcionou a humanidade? Quantos milagres Deus presenteou os seres humanos?

Enquanto muitas pessoas acreditam que suas vidas não tenham sentido a não ser a luz de um projeto maior coordenado por uma força superior, a vida passa. E preocupados com o que vem após a morte, esquecem de viver a vida. John Lennon já dizia “Life is what happens while you're busy making other plans”

27 julho 2005

E Deus criou o chimpanzé...


Uma boa desculpa e um pouco de tempo livre. Tudo que eu precisava pra entrar no mundo do Blog. Há uns anos atrás, eu escrevia uma coluna de ciência para uma revista na internet, mas todos que colaboravam com a revista agora tem seus próprios blogs e eu fiquei meio orfão. Mas quando vi essa imagem do History Channel, propaganda de um documentário sobre Evolução, não resisti. Anos atrás passei horas a fio procurando essa imagem pra ilustrar os 4 textos que tinha escrito então pra tentar mastigar a seleção natural. A sátira com a obra de Michellangelo na Capela Sistina no Vaticano é muito apropriada para ilustrar as dificuldades em explicar as pessoas de onde nós realmente viemos, quando tudo a nossa volta nos induz a pensar que somos fruto da vontade de um ente superior. Prometo republicar os textos quando encontrar eles no universo do meu computador.

PS: os textos estão publicados e podem ser acessados no arquivo do blog (ano 2002).