Você que é biólogo...

27 novembro 2007

Acordo de cavalheiros


O livro que eu estou terminando de ler ("O quadrante Paster" de Donald Strokes), discute uma questão complicada: a Utilidade da ciência.

Como assim a utilidade? Como negar os benefícios da ciência para a humanidade? Difícil. As evidências são tantas que apenas um organismo muito doente ou muito motivado poderia refutá-las. Por que então a dificuldade?

O cientista americano Vannevar Bush, que não é parente de nenhum dos dois presidentes Bush, foi conselheiro científico de Roosevelt e Truman durante a segunda guerra. Ao final do conflito, ele escreveu um documento chamado "Ciência, a fronteira sem fim" (Science, the endless frontier), aonde ele estabelecia a existência de duas ciências: uma básica, onde os cientista deveriam ser livres para escolher e conduzir seu tema de pesquisa; e outra aplicada, que se alimentaria desse fluxo de novas informações para transformá-las em conhecimento e tecnologia. É de Bush a idéia de que a ciência básica alimenta a tecnologia.

Para esse sistema funcionar, era necessário um acordo entre a sociedade (o governo) e a academia (a comunidade científica). Os cientistas desenvolveriam a ciência que em última instância geraria a tecnologia e aumentaria a qualidade de vida da sociedade. A sociedade paga a conta. O governo deveria se responsabilizar por financiar esse modelo científico de liberdade de escolha e ação do pesquisador. Era a única forma desse modelo funcionar. Não te parece razoável? Bush tinha um excelente argumento nas mãos: a ciência é que tinha ganho a guerra para os EUA. E depois que eles ganharam aquela, não queriam correr o risco de perder outras (ainda que tenham perdido e continuem perdendo). O modelo de Bush era razoável e o governo dos EUA topou o acordo. O modelo foi rapidamente aceito por outros governos, em outros locais do mundo e a ciência foi se sistematizando. O homem chegou a Lua, parecia que o modelo estava realmente correto.

Muitos anos depois, a sociedade não está mais satisfeita com esse acordo. Existem três razões principais: A primeira, é um acordo caro! A segunda, é que a sociedade se distância cada vez mais da ciência porque essa, por sua vez, está cada vez menos acessível à sociedade. Ninguém gosta de pagar uma conta alta sem saber direito o porquê. Em terceiro, parece que o modelo está incorreto.

Boa parte da tecnologia atual não veio, diretamente, de uma idéia da ciência básica. Essa falha no modelo começou a aparecer no final do século passado. Alguns estudos mostraram que os grandes benefícios vieram de iniciativas diferentes da ‘ciência aplicada’, baseadas em um modelo de pesquisa ainda mais antigo que o de Bush. O modelo de Pasteur. Nesse modelo, a aplicação da ciência move o objetivo científico. Uma ciência direcionada, onde a aplicação prática move o objetivo científico e ao alcançar esse objetivo, o cientista contribui de forma contundente com o avanço (e acúmulo) do conhecimento.

Fazer ciência básica virou fazer ‘qualquer coisa’. O cientista é uma pessoa diferenciada pela sua capacidade de observação. Observar, identificar, hipotetizar, testar, reportar e explicar. Mas também é humano. Isso quer dizer que pode errar nesse processo, mas pior do que isso, pode deixar o processo científico, que deveria ser amoral como a natureza, ser influenciado por crenças e emoções. A pior coisa que pode acontecer à um cientista é se tornar tendencioso. E como mostra Ioannidis no seu fabuloso artigo ‘porque a maior parte das pesquisas publicadas são falsas’ (Why most published research findings are false) os cientistas se tornaram tendenciosos. Muitos deles adeptos da crença no Deus Dinheiro e na Santa Indústria de Fármacos.

Os cientistas começaram a focar nas respostas (número de artigos publicados, número de projetos aprovados, de teses defendidas, de patentes registradas) e foram perdendo a habilidade mais peculiar à atividade científica: fazer boas perguntas! Uma leitora fã do Zen e um amiga fã do Jostein Gaarder já falaram disso esse ano pra mim e tenho cada vez mais pensado no assunto: Uma boa pergunta é mais importante que a resposta!

Temos que voltar a fazer boas perguntas. E temos de ensinar nossos alunos que o mais importante são as perguntas. Pra isso, vamos ter de trabalhar o conceito de utilidade. Um conceito que também só se define de forma completa à luz da estatística. Mas isso fica para o próximo texto.

19 novembro 2007

Neurônios que tocam saxofone


Outro dia assisti uma palestra muito, mas muito chata.

Minha professora de literatura, pela qual tenho muita admiração mas pouca solidariedade, diz que gostamos apenas do que nos interessa. Acho que não é bem assim e esse é um dos muitos exemplos de quando a realidade bate com o martelo em nossa fantasia. A palestra seria sobre a Autopoiese e sobre Humberto Maturana, dois assuntos que me interessavam muitissimo (a ponto de me fazer acordar mais cedo). Mesmo assim, o chileno que ministrou a palestra foi incrivelmente chato e meu interesse... despencou. Como algo que me interessava tanto pode despertar tão pouco interesse?

Minha professora também costuma ter algo a dizer sobre isso. Segundo ela, 'problemas existenciais da classe média' não dão boas histórias. Ela está certa. Ao invés de falar sobre o que levara Maturana a pensar sobre a teoria dos sistemas, o que ela é, ou como ela pode ajudar a resolver determinados problemas, ele resolveu contar qual foi a grande o problema existencial que ele identificou quando aprendeu autopoiese. Não tocou a platéia.

Porém, acabei não acordando mais cedo a toa aquele dia. O chileno contou como os pássaros machos jovens, quando entram na vida adulta, precisam aprender a cantar. Duas coisas são importantes. A primeira é arrumar um professor de canto. Geralmente eles escolhem um outro macho para copiar. A segunda, neurogênese. Apesar de termos aprendido a vida toda que neurônios que não se reproduzem, isso não quer dizer que não produzimos novos neurônios. Durante alguns períodos da vida o cérebro vira uma fabriqueta de neurônios. E em algumas áreas do cérebro, durante toda a vida, ele mantém uma oficina pronta a produzir novos neurônios continuamente.

No dia seguinte, fui pra aula de saxofone e o professor pediu para eu tocar uma música antiga, que eu não tocava há mais ou menos 1 ano. Apesar de tanto tempo sem mexer nela, parecia mais fácil tocar a música. Assim como tem sido mais fácil aprender uma nova música. Fiz a conexão na hora: meu cérebro tinha produzido neurônios saxofonistas!

Uma das vantagens de ser cientista é que a gente tem amigos cientistas de outras áreas. E durante o casamento de uma amiga ex-cientista, aluguei meu querido amigo neurocientista para me explicar essa neurogênese. O Stevens (que e é carioca apesar do nome de gringo), me explicou enquanto tomava a terceira caipirinha de motango, que meu cérebro estava incorporando o saxofone. Eu tinha feito neurogenese! Uau! Existe esperança de eu me tornar um verdadeiro saxofonista então.

Como eu sou um cara de muita sorte e tenho muitos amigos, e muitos são cientistas, acabei conversando sobre meu assombro da neurogênese com a Marília, outra amiga neurocientista. Ela foi bem mais detalhista e isso é bom, mas quer dizer também que eu não entendi tudo exatamente. Porém entendi o que era mais importante. Existe neurogenese sim, mas esse não é o processo mais importante no aprendizado. A plasticidade sinaptica é que é o quente. Não entendeu? Os neurônios parecem polvos. Na verdade uma rede de polvos, cada um com muuuuuuitos tentáculos e cada tentáculo encostando na cabeça de um outro polvo. Os braços do neurônio se chamam dendritos (tem também o axônio) e as junções entre dois neurônios se chamam sinapses. Os neurônios não se reproduzem, mas isso não quer dizer que eles sejam fixos. Eles se movem, podem produzir novos braços ou mudar o local onde os braços se ligam a outros neurônios. Essa é a plasticidade sinaptica. Uma memória é registrada pela reorganização de braços dos neurônios. O aprendizado de um instrumento musical, criam novas conexões que, conforme vão aumentando, diminuem a necessidade de processamento da informação pelo cérebro. A resposta ao estímulo é direta. Fica mais fácil tocar só de olhar para a partitura (no meu caso, para as cifras).


Com neurogenese ou plasticidade sinaptica, a martelada da realidade está na prática. A gente só aprende fazendo! Aprender a teoria não faz com que os sinais ambientais (nesse caso, o Fá sustenido que é a nota para começar Luiza de Tom Jobim) percorra os caminhos neuronais necessários (para que eu aperte as teclas corretas do saxofone, ao mesmo tempo que sopro o tudel, no intervalo de tempo justo e com a intensidade e volume corretos). Ninguém aprende a tocar só com a vontade. Só a prática coloca as sinapses nos locais corretos para facilitar o movimento. Sem tocar, constantemente e consecutivamente, ou seja, sem prática, não se aprende nada. É 1% neurogênese e 99% plasticidade sináptica. É 1% inspiração e 99% transpiração.

O que é o veneno de cobra?


Chego para aula de sax e meu professor diz para o seu filho: - "Pergunta para ele que é biólogo."

Téo me olha meio desconfiado, certamente sem saber o que é um biólogo, e menos ainda como alguém pode saber mais do que seu pai sobre alguma coisa, mas obedece.

- "O que é o veneno de cobra?" Uma pergunta de uma criança é uma ordem. Larguei o sax em cima da mesa e disparei.

As cobras não têm mãos nem braço, mas tem que pegar a sua comida. Como elas podem fazer isso? Com a boca vocês podem responder. Mas se fosse assim, a cobras precisariam sempre comer alguma coisa menor do que a sua boca. Mas as cobras são gulosas e querem comer grande. Por que a cobra pensa grande é uma outra história e vamos manter o foco no 'como' ela se vira para comer a presa grande.

Então explico pro Téo que a cobra precisa quebrar a sua presa grande, pra ela ficar menor. Como a boca da cobra é pequena, não dá pra ser com os dentes. Pra começar não daria nem pra colocar tudo dentro da boca. Principalmente sem braços e garras para arrancar os pedaços. Então, a saída que ela encontrou foi esmagar a presa com o corpo.

Da mesma forma que seria difícil pra nós comer um filé se ele estivesse em moviemento, a primeira coisa que a cobra tem de fazer é imobilizar a sua presa, paralisar ela. Mas como uma cobra pode deixar um bicho maior, como uma galinha, um pato, ou até mesmo um boi, completamente parado?

- "De medo!" responde um de vocês apressadinhos. Hehehehe, boa, mas essa funciona mais com os humanos do que como outros bichos. Em geral quando os bichos sentem medo eles se preparam para correr (se o animal for maior ou ele estiver em desvantagem) ou lutar (se o animal for menor, ou ele estiver em vantagem).

A cobra precisa ser mais persuasiva. Então, com o tempo ela ganhou dois dentões e a capacidade de produzir um veneno paralisante (tentei não entrar no mérito das toxinas neurotóxicas ou hepatotóxicas). Assim, com uma rápida mordida, a cobra pode paralisar uma presa maior que ela e ter todo o tempo do mundo para esmagá-la e engoli-la.

O veneno, de alguma forma, acaba substituindo as garras que seguram a presa e a musculatura do corpo, que é capaz de se enroscar com muita, muita força, substitui a mastigação. É claro que depois de comer algo muito grande, a cobra não consegue mais ficar andando pra lá e pra cá por um tempo, até que tenha digerido tudo. Mas isso também acontece com a gente. Ou você não sente um tremendo sono depois de comer uma feijoada?

Fiquei todo feliz com a minha resposta super clara e adaptada para uma criança de 6 anos. Até que ele olha pra mim e diz: - "mas O QUE é o veneno de cobra?"

Eu tinha respondido uma pergunta, mas não a pergunta dele. Me enrolei todo... comecei a falar das neurotoxinas, pepetídeos não ribossomais, proteínas etc... Até o pai dele começou a olhar para mim assustado. Provavelmente o filho teria pesadelos onde seria atacado pelas tais proteínas. Levei alguns segundos para me recompor, montei o saxofone de disse: "É um tipo de saliva. Um cuspe paralisante!"

O rostinho se encheu de assombro: - "Uau... que maneiro" e foi jogar videogame.

Na hora me pareceu uma resposta perfeita. Mas agora fico esperando o dia que o pai vai me ligar para dizer a professora reclamou dele cuspindo para paralisar os amigos.

02 novembro 2007

Força é igual a massa vezes a aceleração


No início do ano visitei a usina hidroelétrica binacional de Itaipu. Um dos projetos de pesquisa que participo envolve uma espécie de mexilhão invasora. O mexilhão dourado (Limnoperna fortunei). O que é uma espécie invasora, vocês vão perguntar?

Esses mexilhões são originários da China e chegaram pelas nossas bandas (mais precisamente no Rio da Prata em 1991 e na Lagoa dos Patos em 1998) transportados na água de lastro dos navios cargueiros. Imaginem, um navio parte do porto de Xangai para vir ao Brasil e levar soja de volta para os chineses. Mas se ele não estiver carregado com mercadorias, precisa se encher de água, a água de lastro, para equilibrar seu peso e, literalmente, não quebrar no meio quando estiver navegando. Ai, quando chega no porto de Rio Grande, o navio joga na Lagoa dos Patos a água do Rio Yangtze, cheia de larvas de mexilhões dourados (e outros bichos).

Sem predadores naturais, esses animais se desenvolvem enormemente nas nossas águas e criam toda sorte de prejuízos a embarcações, estações de tratamento de água, usinas hidroelétricas, sem contar as espécies locais de bivalves e a vegetação das margens.


Bom, mas voltando ao assunto, em Itaipu tem mexilhão dourado e ainda que isso (ainda) não represente um problema econômico pra eles, essa foi a razão da minha visita. Porém, quando chegamos lá, os mexilhões são o que menos chama atenção. É uma obra monumental. Liguei pro meu pai, e ele, engenheiro, ficava até emocionado de falar de uma obra tão imponente.

Não é para menos. Em 1982 a barragem represou o Rio Paraná, inundando uma região de 1.350 km2 e com mais de 200 km de extensão. Tudo bem, eles tiveram de inundar "Sete quedas" mas eu senti menos esse baque porque era pequeno demais. Mas me lembro até hoje da noite em que o Jornal Nacional mostrou as comportas se fechando as cachoeiras pela última vez.


Enquanto estavamos lá, o Rio Paraná, em uma cheia atípica, precisava ser escoado. Por isso, as comportas do lado esquerdo da barragem estavam abertas. A água saindo pelo chamado 'vertedouro' tem uma força impressionante. Tão grande que acabaria, simplesmente, escavando o leito do rio, que fica 180 m abaixo da linha d'água do reservatório, se despencasse direto lá de cima. Então a água desce por um tipo de escorrega, sendo lançada no ar pra dissipar toda a sua energia, antes de continuar seu caminho rio abaixo. Não deu pra entender direito? Dá uma olhada nas fotos e no filminho que eu fiz.


Mas toda essa introdução foi para dizer apenas um parágrafo. O que me emocionou, ou melhor, me assustou, ou melhor ainda, me comoveu de forma assustadora, foi ver a força da água descendo pelo vertedouro. A Força da Natureza, lado a lado com o enorme esforço de engenharia para conte-la. O vácuo que se forma na base do escorrega, capaz de arrancar os capacetes de nossas cabeças (como no filme), o rugido da água, a velocidade... é como se a água dissesse:

- Não esqueça que eu estou aqui!

A fera foi contida, mas não foi domada. É um equilibrio delicado. E quando venta, venta forte!

10 outubro 2007

Quem quer ser cientista?


O tema desse mês na Roda de ciência é a representação social do cientista e eu não poderia deixar de participar de um tema tão importante e que me mobiliza há bastante tempo.

No mês passado descobri que poderia colocar uma enquete no Blog e o tema que escolhi justamente esse: O que você acha dos cientistas? Em mais ou menos um mês, 25 visitantes do blog votaram escolhendo entre as 4 opções de resposta:

São pessoas normais (25%);
São mais inteligentes que a média (31%)
São muito racionais e pouco emotivos (15%);
São malucos (28%).

Com uma pesquisa assim, meio de brincadeira, só podemos afirmar que felizmente já existem pessoas acham que o cientista é um cara normal, mas muitos ainda enxergam o estereótipo do cientista maluco.

Em 1998, o grupo do prof Leopoldo de Meis publicou um artigo mostrando como as crianças de 8 países vêem os cientistas. Eles analisaram desenhos respostas de 3053 crianças brasileiras e 1842 de crianças dos EUA, França, Itália, México, Chile, Índia e Nigéria. A partir dos 5 anos existe uma definição do que é um cientista e essa imagem está relacionada com um ambiente de trabalho cercado por instrumentos (especialmente vidraria) e equações matemáticas. Algumas vezes com o espaço. Palavras que apareciam relacionadas com os desenhos mostravam 'descobertas', 'invenções' e 'experimentos'. A conclusão é que as crianças sabem o que é um cientista.

Mais ou menos como na nossa enquete, 20% das crianças se referiram ao cientista como um 'humanitário que ajuda os outros' enquanto outros 20% acreditavam que os 'cientistas são malucos' e que a 'ciência é perigosa'.

Eles terminam o artigo comparando a visão das crianças com a que os professores tem dos cientistas, e que os cientistas tem deles mesmos, e concluem que a visão dos jovens é similar a que o cientista têm de si próprios hoje, e que por isso a ciência não deve mudar nas próximas gerações.

O problema é que a maior parte dos cientistas se desenhou no ambiente de trabalho ou perdido em pensamentos. Ou os dois. O cientista se vê como um ser anti-social. Quem vai querer ser cientista?

Outro dia uma amiga escritora estava se debulhando em elogios para o livro de Oliver Sacks "Um antropólogo em Marte". Isso porque nos agradecimentos, o autor descreveu as circunstâncias em que escreveu o livro: após uma cirurgia que imobilizou seu braço direito. Com isso, segundo ela, ele humaniza o cientista, e permite empatia do leitor. Não é mais um cientista escrevendo, é uma pessoa. Como um 'Agora você já pode ler!'

Ter um amigo cientista deve ser legal. Mas ir à uma festa de cientistas deve ser meio pesado. Minha namorada que o diga! Por outro lado, os cientistas parecem achar qualquer festa que não seja de cientistas, um saco. Eu que o diga!

Cria-se um círculo vicioso: visão que a sociedade tem do cientista é influenciada pela visão que o cientista tem da sociedade. E essa, em geral, é distante.

No seu livro, "O quadrante Pasteur - a ciência básica e a inovação tecnológica" Donald Strokes levanta muitas questões relacionadas com o "acordo" selado entre sociedade (governos) e cientistas (comunidade científica) depois da II guerra mundial.

"Essa afirmação (...por um apoio público vigoroso à pesquisa básica pela simples reafirmação dos argumentos a favor da ciência pura nos termos do paradigma do pós-guerra) coloca cada vez mais a comunidade científica no papel de um grupo de interesse procurando apoio para uma atividade que reflete suas próprias necessidades essenciais, em vez de mostrá-la no papel de um porta-voz capacitado de um interesse geral importante." Mas a resposta da sociedade é clara: Não importa o quanto a comunidade científica se encante e lute pelo ideal de autonomia da investigação pura, esse não é mais um bom argumento para convencer a sociedade a financiar pesquisa!”

Só tem uma chance da gente quebrar esse vício: Nos aproximarmos da sociedade. Não só divulgar, mas popularizar a ciência. O mundo moderno vai ser construído pela informação. Precisamos que mais crianças saibam que a ciência é legal, mas que quando elas crescerem e se tornarem cientistas, não vão se tornar também seres anti-sociais.

Os dois textos mais lidos do VQEB (esse e esse) são de perguntas feitas pela Maria, essa menina linda sentada no meu colo. A curiosidade é inerente ao ser humano. E ser cientista, e explicar o mundo, é a profissão mais linda de todas. Tomara que a Maria concorde comigo.

Por favor, comentários aqui.

03 outubro 2007

Missão dada é missão cumprida!

Essa semana três experimentos falharam porque meus alunos não cumpriram o protocolo. A primeira não obedeceu a concentração de magnésio em um PCR. A segunda não colocou as cultura celulares na placa de petri, mas 'inventou' uma camara de incubação que congelou as células e o terceiro, não preencheu todos os campos do formulário.

Quando bandidos malvados são libertados por um erro no processo ficamos bravejando, que uma banalidade burocrática não deveria impedir a justiça. A gente esquece que o processo, o protocolo, existe justamente para tentar garantir que a justiça exista, e não dependa de variações no procedimento.

Da mesma forma, ciência feita com protocolo aumenta precisão e acurácia. Economiza tempo (ainda que não imediato) e dinheiro.

Nem sempre o protocolo está escrito (um problema que estamos tentando corrigir no laboratório). Por isso, muitas vezes, o protocolo é o que eu digo pra eles que é. Ás vezes o protocolo não existe. Especialmente nesse caso, é importante seguir o que eu digo. Ou porque eu tenho mais conhecimento, ou porque de vez em quando tenho boas idéias. Não é democrático, mas a ciência não é uma democracia.

Cumprir as ordens, ás vezes, é a melhor maneira de alcançar um bom resultado. E por isso o laboratório ganhou hoje um cartaz do 'Tropa de Elite': "Missão dada é missão cumprida." Pelo menos enquanto eu estiver são e não estiver pedindo nenhuma maluquice.

Mas por que os alunos, ou todos nós sempre que estamos na posição de alunos, questionamos os protocolos (foi assim com os professores do curso de capacitação da UAB, está sendo assim no curso de narrativa, onde eu sou aluno também)? Por que?

Vou dar a resposta do dr. David Greb, o chimpanzé filósofo semiótico humanista da sociedade simiesca que Will Self criou no seu livro "Grandes Símios". É ótima!

"Da mesma forma, a capacidade humana de gerar até cinqüenta fonemas diferentes e - acreditava-se - interpretá-los devia, Grebe afirmara, ser um exemplo de como o desenvolvimento neural humano tornara-se um mal-adaptativo. Uma parte tão grande da vasta capacidade cerebral humana devia se ocupar com a atividade de interpretar esses sons confusos, que não houve oportunidade de ocorrer o 'Bing Bang' que se deu na evolução símio-antropóide.

Ao contrário dos Chimpanzés, cuja competência sinalizadora evoluíra ao longo de 2 milhões de anos de seleção contínua, determinando a interação cérebro-signo, o humano atolara em um perverso e clamoroso jardim sonoro, sua capacidade de gesticulação efetiva tão atrofiada e deformada quanto seus dedos das mãos e dos pés atrifiados e deformados. Esses argumentos situram Grebe solidamente no âmbito de de Noam Chomsky e outros psicossemiólogos que afirmavam que a sinalização era atributo único do compacto cérebro chimpanzé. Dada a incrível plasticidade do cérebro primata, seria de admirar que uma supersuficiência neural levasse a seleção natural a ser incapaz de trabalhar capacidades cognitivas?

Assim, a capacidade humana de processar informação e desse modo aprender tarefas ficou ironicamente circunscrita pela falta de circunscrição. Em termos simples: o humano estava perdido dentro da própria cabeça. Incapaz de criar uma mente integralizada; condenado a obedecer para sempre os inúteis ditames da memória filogenética e os grosseiros gorgolejos de suas promíscuas vocalizações sem propósito."

02 outubro 2007

Diário de um Biólogo - Segunda 01/10/2007

Foto de divulgação disponível no site oficial do filme
14h - 5a aula do curso de narrativa:

"Prof. Mauro Rebelo, o senhor concorda que essa cadeira é uma cadeira?"

Respondo que sim. Resolvi não polemizar lembrando a palestra do Enio Candotti, onde ele dizia que a diferença entre os políticos e os cientistas é que, para os primeiros, as verdades eram 'consensuais'. Se decidissem que a cadeira, para o bem de todos, não deveria existir, então, apesar de poder ser medida e pesada, a cadeira não existia.

"Prof. Mauro Rebelo, com base nos seus conhecimentos de biologia, eu posso dizer que essa cadeira é uma baleia?"

Respondo "Não" pra deixar ela concluir.

"Então Prof. Mauro Rebelo, da mesma forma, o senhor não pode inverter a ordem das perguntas do modelo narrativo, criado e testado há 25 séculos. Simplesmente porque, ainda que o senhor não perceba a diferença, estaria tão errado quanto dizer que uma cadeira é uma baleia".

A Sonia, impressionada com a capacidade da turma de 'resistir' para manter suas convicções, pergunta se eu iria examinar cientificamente essa questão algum dia, porque deveria ser fruto de alguma 'deformação morfológica', e escrever a respeito no blog. Ainda antes da aula terminar lembro que já escrevi sobre isso aqui. A resistência ao novo é importante para dar uma sensação de ambiente estável aos organismos, mas interfere na percepção da incongruência legítima.

17h - Termina a aula. O Milton (coordenador da PG da Fiocruz) vem encontrar com a gente e começa um amplo debate, em frente ao prédio de Farmanguinhos, sobre resistência e criatividade, que debanda, inevitavelmente, para 'estabelecidos e outsiders'. Vejo que minha resistência com a professora é devido ao quanto ela pode ser tendenciosa em suas opiniões.

Vamos ao aeroporto buscar meu hóspede, um aluno de uma amiga pesquisadora do Ageu Magalhães, a Fiocruz de Recife, precisava de pousada por uns dias no Rio para apresentar seu trabalho na jornada de iniciação Científica e Pós-graduação.

No caminho para casa, a discussão já tinha passado por Paulo Lins e Ismael Beah na Flip e chegado em "Tropa de Elite". Concordamos que só 'pobreza de espírito', aliada a pura babaquice, pode explicar alguns colunistas de 'O Globo' classificarem o filme de facista.

Acho que foi a única outra concordância do dia.

29 setembro 2007

Diário de um Biólogo - Sábado 29/09/2007


"Você quer que eu vá com você?" A Rê perguntou enquanto tomavamos um café da manhã chic, comemorando que eu estava na lista dos "Jovens cientistas do nosso estado" divulgada pela FAPERJ no dia anterior.

"Não... porque você iria querer perder a sua tarde em museu de ciência decadente?"

Téééééééééééé!!!!!! Resposta errada!

Quando disse essa infelicidade, tinha em mente o museu montado em um galpão abandonado que restou das obras do metrô que revolveram nos anos 80 a Praça Saenz Pena, na Tijuca onde eu nasci e cresci.

Quando cheguei hoje no "Espaço Ciência Viva", atrasado para a exposição dos resultados que meus alunos do curso "formação continuada para professores de 2o grau", não poderia ter uma surpresa melhor. Um museu pequeno, simples, mas revigorado e bem arrumado. E o que é mais importante: cheio! E o que é mais importante ainda: cheio de crianças!

Todo último sábado do mês, o espaço organiza uma tarde temática, com um monte de professores, pesquisadores, alunos de pós-graduação, graduação, monitores e voluntários ensinavam uma orda de pessoas, de todas as idades, mas principalmente crianças, pelas diferentes opções de contato com a ciência do museu. Desde uma simples garrafa de Coca-cola cheia de água, com furos perto do gargalo, no meio e no fundo da garrafa, para explicar o efeito da pressão em grandes profundidades (ilustrada por fotos dos estranhos seres encontrados no fundo dos oceanos) até uma exposição sobre a visita de Einstein ao Brasil na década de 20, onde foram confirmadas as mais importantes previsões da sua teoria da relatividade espacial.

Sai de lá meio emocionado. Sei do esforço que os professores responsáveis por recuperar o museu fizeram para que ele esteja agora de volta a árdua missão e divulgar ciência para um publico cada vez mais metralhado com consumismo e misticismo.

No próximo mês, sou eu que vou chamar ela para ir.

19 setembro 2007

Izquierda ou direita?

Na sexta feira fui assistir uma palestra da Sonia Rodrigues na FIOCRUZ sobre escrita criativa. Já assisti essa oficina muitas vezes e hoje sou um entusiasta da qualificação de leitura. Acho que é um caminho para que alunos de graduação e PG escrevam melhor e se tornem melhores pesquisadores.

Ela inventou um método para 'liberar' a mente do vício da interpretação na hora de escrever baseado na retórica Aristótélica e em outros modelos de narrativa descobertos na Roma antiga e testados ao longo dos últimos 25 séculos por caras como Shakespeare. E por mais gente suficiente para que um pesquisador da platéia, especialista em alguma coisa mas certamente leigo em muitas outras, não se sinta credenciado para criticar tão facilmente.

Em um momento, havia um texto de 54 palavras sendo projetado. O texto era inconclusivo, mas repito, em 54 palavras, dizia quem, quando, onde e criava uma situação onde era inevitável um conflito. Como a platéia teve dificuldade de identificar esses elementos, algumas pessoas começaram a dizer que o texto estava mal escrito. Bem, o texto era de Monteiro Lobato, o primeiro parágrafo do primeiro capítulo de Robin Hood, sobre o qual o ilustre escritor infantil, discorre depois 300 páginas.

Ainda sem saber disso, um pesquisador pede a palavra e critica tudo: forma e conteúdo, palestra e palestrante. Ele prossegue citando, pelo menos 3 autores que desqualificariam a apresentação (e com isso Aristóteles, Shakespeare e Monteiro Lobato, pelo menos).

Mas ele ainda citou os 'memes' de Richard Dawkins para falar da importância da cultura e de como o conhecimento se perpetua; e o neurocientista Ivan Izquierdo, para dizer que o contexto criado pela dissertação era fundamental para que o conteúdo da narrativa fosse fixado pela memória

A Sonia respondeu as críticas muito bem e ficou tudo esclarecido, mas grande parte do tempo da palestra se perdera nesse processo: a discussão do procedimento e do conteúdo adotado por uma pessoa que já foi avaliada em todas as instâncias acadêmicas possíveis, autora de mais de 20 livros, que estava ali convidada pelo coordenador da pós-graduação e com um auditório cheio para ouvi-la. Ele foi deselegante e me fez perder meu tempo, simplesmente porque não estava ali para escuta-lo.

E de quebra, ele fez pelo menos duas intervenções incorretas: os 'memes' são uma grande besteira que Richard Dawkins, apesar de grande nome da biolgia evolutiva (muitas vezes citado nesse blog), escreveu. O que se comprova por nenhum outro autor ter discutido seriamente essa 'teoria da comunicação baseada na seleção natural'. A outra, é que o contexto seria assim, tão importante, na formação da memória. O que o cientista argentino radicado no Brasil Ivan Izquierdo diz, e eu o assisti ainda no mês passado na conferência de encerramento da FeSBE, é que o MEDO e não qualquer outro contexto, auxiliam na fixação da memória.

Houve debate sobre a impostura do pesquisador após a palestra. E como em todo caso, opiniões prós e contra. Mas como um amigo levantou, o ambiente acadêmico é muito corporativista, e dificilmente teríamos um pesquisador criticando avidamente outro (mesmo que fossem inimigos)
durante uma palestra. O cara exagerou!

Esse mesmo amigo ainda perguntou: "porque nós cientistas, especialmente quando se trata de área social/humanas, nos achamos credenciados para discutir mesmo com uma base teórica pobre?"

Eu acho que a resposta é uma só: vaidade.

O cientista, em geral, só usa a inteligência para se vangloriar, já que dinheiro, é muito mais difícil de conseguir nessa profissão. É da inteligênicia que ele tira seu prestígio. Mas isso não é credencial. Repito o horóscopo: "você pode ter muitas opiniões, mas isso não significa que saiba muita coisa". Como a própria Sonia diz, "o brasileiro intelectualóide é pseudo erudito e de meia cultura."

Meu amigo, com dois artigos na Nature e coordenador do maior curso de pós-graduação da FIOCRUZ, chegou a tentar vestir a carapuça e se incluir nesse grupo de 'intelectualóides'. É verdade que ele é metido a entender de vinhos, mais do quer realmente entende. Mas confesso que eu também sou. E que mesmo assim, ele entende mais de vinhos do que eu. Mas será que nos encaixamos nesse grupo? Acho que não. Pelo menos não consigo me ver, ou vê-lo, levantando no meio de uma palestra do sobre os Pinot Noir da Borgonha, e discutindo com o autor com base em 1 (um) artigo que ele leu na Wine Expectator.

Acho que existe diferença em ter um ponto de vista diferente e ficar 'procurando' um ponto de vista diferente pra poder pedir a palavra e falar, mais de uma vez, por mais de 20 min. E sem manifestar sequer uma idéia original sua. Pecou pela vaidade.

Para dar só as impressões superficiais dele sobre o tema, ele devia ter um blog.

15 setembro 2007

Posologia


Uma vez uma mulher me disse: "O que atrai em você, é o mesmo que depois repele."


Lembro de uma exposição que fui, contrariado, porque era de monocromáticos. Chamava-se Bleu, do francês Ives Klein. Impressionante! A primeira parede tinha vários pequenos quadros, todos monocromáticos, mas de cores diferentes, que, em composição, eram impactantes.

Essa é uma boa palavra para a exposição: Impactante.

Os quadros, todos azuis, como esse na figura, eram de uma profundidade incrível. E dava vontade de 'entrar' dentro da pintura. Muitas coisas me marcaram nessa exposição. Tenho hoje, na minha sala, uma 'Venus de Milo' toda azul, copiando a idéia do pintor.

No final da exposição, ficávamos sentados em um sofá vendo dois quadros: um todo azul e o outro todo de ouro. O ouro, que deveria atrair, repelia. Porque? Não sei dizer. Tenho também um quadro todo azul e outro todo dourado na minha sala. Pra lembrar que o que parece monótono atrai, e o que deveria atrair, repele.

Lembrei disso esses dias. Duas amigas leitoras do blog andaram pedindo pra eu falar de amor. Elas acham que eu já falei de amor aqui, apesar de eu achar que era tudo biologia. Mas aqui um pedido do leitor é uma ordem.

Dizem que o amor é cego. Na verdade essa é uma fase do amor. A paixão já foi medida. É um processo bioquímico que pode durar, no máximo, 6 meses. O amor não é cego, mas a paixão pode cegar. Literalmente.

Evolutivamente, essa chuva de hormônios e neurotransmissores deve ter tido a função de manter duas pessoas juntas até conseguirem reproduzir. Como as fêmeas humanas não evidenciam o período da ovulação, nem todo coito era garantia de uma prole. Era preciso tentar mais de uma vez. Mas como convencer o macho a ficar por perto até a fecundação? Como prevenir que a fêmea não... pulasse a cerca? Desenvolvendo uma atração inexplicável e irresistível entre os dois. Quem poderia fazer isso? Amor? Não, a bioquímica!

Mas depois disso, os conflitos entre os interesses de homens e mulheres, cada um preocupado em gastar a menor quantidade de energia possível na criaçào dos filhotes, apareciam. E ai... era cada um por si, e a evolução por todos.


"O que atrai em você, é o mesmo que depois repele." Eu já tinha ouvido isso antes, mas onde?

Lembrei. Paracelcius foi um médico alemão que viveu no final do Sec XIII e início do século XIV. No fervor da renascença, ele estudava venenos (um envenenador era um profissional requisitadíssimo naqueles tempos) e antes de inventar a homeopatia, ele fez considerações importantíssimas sobre a toxicidade das substâncias. Ele disse:

"Tudo pode ser tóxico. O que diferencia o remédio do veneno, é a dose"

Se o que atrai é o que depois repele, então não dá pra mudar. Mudança não é a resposta.

Dose. A dose é a questão.

Saber dosar é o segredo do amor. E de todo resto também.

10 setembro 2007

Sei ou não sei? Eis a questão!

O tema do Roda de Ciência desse mês é 'A importância da comunicação da incerteza para o público leigo'.


Eu não tenho certeza, mas foi com o prof. Paul Kinas, e não com Heisenberg, que eu passei a perceber a incerteza do mundo. Ele era um mago da estatística Bayesiana que ensinava estatística como filosofia de vida. Filosofia que eu adotei.

Marcelo Gleiser começa o livro 'Dança do Universo' falando da importância da dualidade para o ser humano: Dia e Noite, Claro e Escuro, Quente e Frio, Certo e Errado! O meu professor de estatística dizia que o problema é que nós não fomos educados a conviver com a incerteza. Durante toda nossa educação formal, fomos obrigados à escolher entre o 'certo' e o 'errado'. Não nos ensinaram que as coisas, muitas delas, eram (e sempre serão) 'incertas'. Aprendemos a fazer aproximações, aprendemos a escolher entre o 'certo' e o 'errado'. Mas não aprendemos que entre os dois existe o 'incerto'. Aliás, é muito pior, aprendemos a ignorar o incerto, ou tortura-lo até que se torne 'certo' ou 'errado'. O resultado é desastroso: a grande incapacidade da maioria das pessoas de entender a ciência.

O Kinas dizia que deveríamos poder, na escola, escolher o certo apontando nosso grau de certeza relacionado com a escolha: "Acho que está certo, mas tenho com 70% de certeza!" Não seria lindo poder dar uma resposta dessas no vestibular?

Bom, ele nos deu uma prova assim. Lembro até hoje de algumas das perguntas:
"Qual cidade tem maior área urbana, Rio de Janeiro ou Buenos Aires?" Bairrista, respondi 'Rio' sem titubear. 95% de certeza! Mas como a geografia não se dobra a emoção, errei e perdi muitos pontos. Porém, mais pontos perdia quem dissesse que 'sim' ou que 'não' com 50% de certeza (que reflete não só a ignorância, mas o descaso e o descompromisso com a questão). Isso trás outra questão: a importância de escolher. O fato de existir incerteza não nos exime de ter de tomar decisões frente à ela.

Os psicólogos vão dizer que sempre fazemos escolhas, pois mesmo quem não escolhe, está fazendo uma escolha. E está mesmo. Só que as pessoas acham que têm de estar seguras do 'certo' pra escolher, quando o que nos diferencia do todo são justamente nossas escolhas frente ao incerto. Já escrevi aqui que acreditar no óbvio é fácil. Tomar decisões quando se tem todas as informações também é. Já quando a gente não sabe...

Bem, quando a gente não sabe, pode sempre recorrer ao 'Cálculo de utilidades' e as muitas outras ferramentas de 'Tomada de decisão' e 'Análise de risco', que a estatística tem a nos oferecer. E que, diga-se de passagem, deveriam ser matéria obrigatória na escola, porque podem ajudar muito a escolher a melhor opção frente a incerteza. Da mesma forma que companhias de seguro e cassinos fazem (e ganham rios de dinheiro com isso).

Mas enquanto isso não entra no currículo, poderíamos pelo menos parar de perguntar aos nossos alunos 'se' eles sabem, e começar a perguntar 'o que' ou 'o quanto' eles sabem.

Por favor, comentários aqui!

04 setembro 2007

Modelos


Se o tempo muda e começa a fazer frio, você coloca um casaco. Se o tempo muda de vez, quando entramos em uma era glacial, os animais que não tem casaco... vão se extinguindo até que aparece um com uma pelugem mais encorpada e que consegue sobreviver e deixar descendentes.

Com nosso cérebro podemos decidir em instantes qual a melhor estratégia de adaptação ao ambiente. Em última instância, a seleção natural faz exatamente a mesma coisa. Porém ao longo de tempo geológico.

Parece muito doido? Então você pode ficar meio confuso com esse texto.

Eu não sou o primeiro a sugerir (quanta modéstia) que a seleção natural poderia atuar como uma forma de ‘mente’, tomando decisões da mesma forma que nosso cérebro. Mas foi só pouco tempo atrás que descobri isso, quando li que Maynard-Smith já admitia essa idéia nos anos 60.

Mas por que a seleção natural como uma ‘mente’ seria uma coisa importante? Atualmente, cultura e comportamento social são tidos como muito mais importantes para o sucesso adaptativo do homem ao meio ambiente do que os aspectos biológicos selecionados durante os milhões de anos de existência dos hominídeos. A ‘mente’ do homem é (seria então) mais eficiente que a ‘mente’ da seleção natural. Mas quem foi que disse?

A sociedade moderna é jovem. Na verdade, a humanindade é jovem. Como cultura podemos dizer que temos o que?!? Uns 5.000 anos (considerando já a pré-história – escrita)?!? Tá, mas vamos ampliar ainda mais esse número, porque senão não podemos nem começar uma comparação com tempo evolutivo. Vamos colocar, justamente, que a cultura como a conhecemos nasceu quando o homem começou a falar. Ainda assim ficamos com algo em torno de 100.000 anos, um número irrelevante quando comparado com a origem da vida (3,8 bilhões de anos), a última grande extinção de espécies em massa (65 milhões de anos) ou mesmo o aparecimento dos hominídeos (6 milhões de anos). O tempo que temos vivido sob o comando da mente e da cultura humana não é suficiente para que a seleção natural determine se as estratégias antropogenicas e antropológicas de comportamento ético e cultural são evolutivamente estáveis (ou seja, se elas podem trazer sucesso em longo, longo prazo).

Apesar de sermos algo em torno de 6 bilhões de indivíduos, ainda não houve tempo para determinar se o aparecimento da mente, da capacidade de raciocínio lógico, cultura e tudo mais que eu vou passar a chamar de ‘modelo antropológico’ é realmente mais interessante do que as estratégias do que chamarei a partir de agora de ‘modelo biológico’, caracterizadas pelos comportamentos mais instintivos cravados pelos milhões de anos de evolução em nosso DNA. O modelo biológico foi desenvolvido e vem sendo aperfeiçoado há milhões de anos. Temos os mesmos lipídeos na membrana que as bactérias tinham há 3,5 bilhões de anos. Utilizamos os mesmos açúcares e o mesmo ATP para o metabolismo energético que um ancestral delas inventou antes disso. E o nosso código genético... esse é ainda mais antigo.

Todas as estratégias biológicas e comportamentos que foram selecionados durante esse período estão representadas nos nossos fenótipos: manifestações físicas ou comportamentais dos que está nos nossos genes. Então, quando utilizamos o ‘modelo antropológico’ para explicar o comportamento e a sociedade humana, estamos utilizando um modelo pouco testado. Quando utilizamos o raciocínio, a lógica, a filosofia, a ética, para driblarmos expressão gênica, características morfológicas e instintos, estamos utilizando um modelo sem certificado de garantia. Evolutivamente, a humanidade descobriu a consciência, mas ainda não provou nada.

Não acho que usamos o ‘modelo antropológico’ só porque ele é mais bonitinho. Acho que a maior parte das pessoas é despreparada para compreender o ‘modelo biológico’, ou pior, é despreparada para aceitar a sua inevitabilidade. E como antropocentristas, além de antropológicos, temos muita dificuldade para optar por aquilo que nos tira do centro e da majestade de espécie superior. Nosso cérebro é realmente uma invenção. E temos uma capacidade de adaptação ao ambiente realmente incrível. Mais que isso, temos versatilidade e nos adaptamos à diferentes ambientes da mesma forma. Podemos até mesmo passear por alguns ambientes extremos como o fundo do mar e o espaço (que podemos - e poderemos cada vez mais - explorar por recursos).

Mas nossa espécie superior provavelmente superou a capacidade de suporte do planeta (termo que utilizamos em ecologia para designar o limite de disponibilidade dos recursos naturais do ecossistema). Somos em maior número do que o nosso limitado planeta é capaz de suportar. O cérebro foi confundido!

Confundiu perpetuação dos genes com perpetuação da consciência. Lutamos para aumentar a vida mais do que a qualidade de vida. Longevidade indiscriminadamente. Durante bilhões de anos a seleção natural viu que era complicado construir um corpo indestrutível em um ambiente inóspito e concluiu que era melhor construir organismos frágeis como uma vida útil curta, mas que pudessem passar informação de um para o outro (os genes) e se modificando sempre que o ambiente fizesse o mesmo. Melhorando a ‘maquina’ até, sempre que possível, e garantindo a sobrevivência da informação. Ahhh, mas nós não... o que nós queremos salvar são nossas preciosas consciências. Queremos viver pra sempre! Nós e mais 6 bilhões. Não dá!

Os fatores culturais têm sim importância maior que os biológicos em eventos de curto prazo. Mas, historicamente, lógica, moral e outros fatores antropogênicos serviram (e servem) principalmente aos interesses das minorias dominantes capazes de criar e manipular esses valores. Abrir mão de explicações biológicas para fenômenos que acontecem no dia a dia é desperdiçar experiência, acumulada e prontamente disponível. Se basear em explicações antropológicas para justificar ou explicar nossas escolhas é favorecer um modelo testado por 5 mil ao invés de 5 milhões de anos do 'modelo biológico' duramente testado pelo INMETRO do universo: a seleção natural.

29 agosto 2007

Forças da natureza

Já falei aqui e aqui sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas. Apesar de adorar citações, eu procuro reduzir ao mínimo textos originais de outras pessoas. Mas não resisti à colocar esse samba, que é uma ilustração do que eu venho dizendo nos textos. Somos muito pequenos!

Usei ele há algum tempo atrás como questão de prova de ecologia e hoje, revirando alguns papéis, me deparei com ele de novo.

Pra vocês verem que não precisa ser cientista pra saber que as forças da natureza são mais fortes que nós. Mas precisa ser artista pra transformar isso em música!

As forças da Natureza (Paulo César Pinheiro e João Nogueira)

"Quando o sol
Se derramar em toda a sua essência
Desafiando o poder da ciência
Pra combater o mal

E o mar
Com suas águas bravias
Levar consigo o pó dos nossos dias
Vai ser um bom sinal

Os palácios vão desabar

Sob a força de um temporal
E os ventos vão sufocar
O barulho infernal

Os homens vão se rebelar

Dessa farsa descomunal
Vai voltar tudo ao seu lugar
Afinal

Vai resplandecer

Uma chuva de prata do céu vai descer, lá, lá, iá
O esplendor da mata vai renascer
E o ar de novo vai ser natural

Vai florir

Cada grande cidade o mato vai cobrir, ô, ô
Das ruínas um novo povo vai surgir
E vai cantar afinal

As pragas e as ervas daninhas

As armas e os homens de mal
Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval."

21 agosto 2007

Qual a diferença entre 1 e 4.500.000.000,00 (quatro bilhões e meio)?


Procurei uma metáfora para demonstrar à uns amigos porque tenho certeza da seleção natural.

O que você faria com R$ 1,00? E com R$ 4.500.000.000,00 (quatro bilhões e meio de reais)?

Eu diria que com um não dá pra fazer quase nada e com outro, quase qualquer coisa que você queira. Pois bem, a Terra tem 4,5 bilhôes de anos. O que a gente acha impossível da natureza ter feito em um ano, ou em 100, é o mesmo que a gente acha impossível conseguir fazer com apenas R$1,00. Já se a gente tivesse os bilhões...

Só que a Terra teve. E é por isso que as coisas estão todas ai.

Deus, é o tempo.

20 agosto 2007

Alarmismo não, pessimismo


Vocês sabem que sou um ferrenho combatente contra o alarmismo como argumento para divulgação científica. Defendo que a gente conheça os graus de incerteza relacionados com cada evento, para tomar a melhor decisão possível. É assim que venho tratando o tema do aquecimento global.

Alguns meses atrás assisti, relutante, confesso, o badalado documentário do Al Gore "Uma verdade inconveniente". Relutava porque achava que estaria repleto de campanha política para presidente dos EUA (e está, com aval do Oscar). Mas foi interessante e aprendi muitas coisas.

Na 4a feira passada, o Dr. Sergio Besserman, economista brasileiro que participa do IPCC (o painel global da ONU para mudanças climáticas) veio falar à Biofísica sobre Aquecimento Global. Gostei muito! E aprendi muito também, de novo. Primeiro porque ele começou apertando a tecla que eu venho batendo insistentemente: “Nós somos irrelevantes para o planeta. Ainda que consigamos destruir tudo, tudo voltará novamente. Os únicos prejudicados pelo aquecimento global somos nós mesmos”.

Nós e essa nossa mania de sermos o centro do mundo, e que por sermos inteligentes conseguiríamos resolver todos os problemas.

“Daqui alguns milhões de anos vai tudo estar muito mais interessante do que hoje, e para terra, vai ter passado apenas mais um minuto na sua história”, Besserman continuou. E ainda foi mais fundo: “Na verdade, são só os pobres do mundo vão sofrer!” De novo. Mais ainda.

Ele está certíssimo.

Quando a maré subir, não vai ser Nova Iorque que vai se afogar, como no filme. Nem Copacabana (mas não seria mal lavar a Narcisa Tamborindeguy da nossa orla, não é Dudu?). Amsterdã vive abaixo do nível do mar. Parece, inclusive, que os holandeses já estão fazendo propaganda em todo o mundo de que possuem a tecnologia necessária para as casas não afogarem. E tem mesmo. Só vai custar caro. E não sei se Bangladesh vai conseguir pagar.

Os pobres é que vão penar!

Quando eu chamei o aqui o aquecimento global de farsa, eu estava criticando o alarmismo científico. Mas tenho de reconhecer que me faltavam informações. E que as evidências de que os níveis de CO2 na atmosfera hoje são os maiores de todos os tempos, baseados nos registros históricos observados através das pequeníssimas bolhas de ar que ficam presas nas geleiras da Antártica e Ártico, são muito científicas.

Ainda assim, fico pensando... será que o aquecimento global pode ser tão poderoso para mudar a forma do planeta quanto um movimento de placas tectônicas? Quando me lembro que em 1991, durante a erupção do Pinatubo na Indonésia, uma das maiores dos últimos séculos, o vulcão liberou mais CO2 na atmosfera em 3h que a cidade de Nova Iorque liberaria em 30 anos, é difícil acreditar que o planeta nunca passou por outros eventos naturais mais importantes que a atividade humana. E imaginar que uma especiezinha como nós, recém-nascidos em termos evolutivos, só porque alcançou os 6 bilhões de indivíduos, possa causar esse estrago todo.

Mas pelo visto pode. É a tal história mostrada no filme (e também na palestra do Besserman) sobre novas tecnologias e velhas atitudes.

Mais pensei em outra coisa. Um pouco mais sombria que só alarmismo.

Nas aulas de ecologia, ensino sobre estratégias de utilização de recursos (energia). Algumas espécies usam uma estratégia chamada de r e são classificadas de oportunistas. Quando essas espécies encontram recursos disponíveis em abundância, utilizam esses recursos até a sua exaustão e depois, inevitavelmente, perecem. A população então sobrevive com um número mínimo de indivíduos até os recursos se renovarem (o que pode levar algum tempo), e elas poderem executar um novo Bloom demográfico. Essas espécies apresentam curvas de crescimento exponenciais e desaparecimentos bruscos. Sabe com o que parece a curva? Com os batimentos do coração no eletrocardiograma, com aqueles picos de subida e descida. Ao longo do tempo, essas espécies repetem esse comportamento sempre que os recursos se renovam, ou quando invadem um novo ambiente. Repetem isso não porque não são inteligentes. É só a estratégia delas. E não conseguem fazer diferente.

Não preciso reler meu texto, nem minhas aulas, para ver que nós agimos como estrategistas r.

Mas o pior não é isso. Eu também escrevi aqui, sobre os mecanismos de tolerância e resistência. Quando ultrapassamos o limite dos mecanismos que permitem nossa vida fora das condições ótimas, ativam-se outros mecanismos, mas que não tem a capacidade de trazer a gente para um novo equilíbrio. E morremos.

Quando Besserman mostrou que o problema do efeito estufa não são apenas os gases que estão sendo produzidos agora, mas o acúmulo de todos os gases já produzidos até hoje (na verdade, os gases permanecem na atmosfera por uns 100 anos), que levam um tempo até se integrarem na atmosfera e começarem a agir... aquilo ficou na minha cabeça... até que a ficha caiu.

Com 6 bilhões de pessoas que devem virar 9-12 bilhões nos próximos 5 anos, com a China crescendo 11% ao ano e com a radical mudança de comportamento que seria necessária para, não diria reverter, mas amenizar as emissões... ferrou! Superamos a capacidade de tolerância do ambiente e entramos nos mecanismos de resistência. Nossa extinção é inevitável!

Vamos levar algumas outras espéceis conosco, mas nada que vá afetar demais o planeta.
Pode parecer radical. Deve ser por isso que o outro chamou de “Uma verdade inconveniente”.

Mas a verdade mesmo é essa: Ferrou!

13 agosto 2007

Concluir é atrofiar?


O valor que a gente dá as coisas depende da régua que a gente usa.

Assisti uma prévia de tese de um amigo médico. Há algum tempo, descobri que tenho muitas diferenças com ele e hoje descobri o por quê. Ele abandonou a razão!

A melhor disciplina que fiz no doutorado foi "História e Filosofia da Ciência". Já devo ter falado dele antes, mas foram tantas palestras bacanas que eu sempre devo ter um motivo diferente para falar de novo. Em uma delas, o prof. Leopoldo de Meis fala de uma pesquisa feita com diversos cientistas sobre a maneira como eles fazem ciência. A maioria deles respondia sem titubear: "O método científico".

"Formulo uma hipótese e determino os objetivos. Vejo a metodologia mais adequada, executo e analiso os resultados. Concluo" é a resposta básica.

Não há como negar que o método científico trouxe uma sistematização que alavancou a ciência e tornou ela a mais produtiva ferramenta do intelecto humano. Os críticos do método gostam de aplicar um tipo de "princípio da incerteza" de Heisenberg, dizendo que a observação de um evento por si só afetaria a percepção desse evento e, portanto, o método não seria válido. Mas nenhuma alternativa contribuiu tanto para o avanço da ciência, o desenvolvimento da tecnologia e a compreensão do mundo e do universo. O método científico é uma ferramenta tão poderosa que é quase impensável utilizar qualquer outra.

Mas o método tem alternativas. Lembrei disso hoje.

Na aula do prof. de Meis, alguns dos cientistas entrevistados, após começarem a responder "o método..." paravam, refletiam e diziam: "Na verdade, não é nada disso. Temos uma idéia, partimos dela e não paramos até que tenha sido realizada".

Lembro de ter ficado marcado por essa resposta. Não podia contestar o método, mas não podia negar a importância dessa abordagem. Então hoje, enquanto tentava acompanhar a apresentação, que estava muito confusa apesar de eu já conhecer o tema, o trabalho feito e o apresentador (e até mesmo a apresentação), tentei não me irritar.

O médico dizia: "Fiquei muito feliz ao ver que os grupos se separavam daquela forma"; "Isso nos deu tranquilidade para continuar perseguindo nossa idéia"; "as condições 'lamentáveis' de vida...".

Uma vez vi o Fritz Utzeri dizer em uma palestra que o jornalista nunca deve se indignar. Ele tem de dar a notícia. "Quem tem de se indignar é o leitor!" Meu amigo médico é um pesquisador determinado, emocionado e indignado. Isso possivelmente é o que faz dele o médico mais atencioso com os pacientes que conheço. Mas é uma combinação perigosa para um cientista. Como manter a racionalidade se o seu instrumento de pesquisa perturba a sua razão? É muito complicado e ele falhou.

Lutou pelas suas premissas com paixão. Conseguiu seus dados com determinação. Desafiou as conclusões com indiganção. Apresentou seus resultados com amor (também um pouco de ironia e sarcasmo). Mas ele abandonou a razão. E custou caro (em todos os sentidos). Foi vencido por um desenho amostral despreocupado, por objetivos confusos, resultados pouco relevantes e conclusões limitadas.

O que leva uma pessoa a ter tanto trabalho para responder tão pouco? Será que valeu a pena?

A resposta da razão científica e dos critérios das agências de fomento (Capes e CNPq) é óbvia: não!

Mas fico pensando se a resposta pode ser outra. Esse trabalho levou o médico a pessoas e lugares nunca antes visitados por um pesquisador. Ele apresentou a ciência (além da medicina) até pessoas passariam a vida sem saber o que era isso. Ele trouxe pessoas até a ciência e isso determinou o caminho que elas seguem agora.

Será que valeu a pena?

Ainda não consigo responder. Por teimosia, arrogância, porque podia, ou simplesmente, porque deixaram, ele escolheu permanecer a pedra bruta e não quis se lapidar. Mas será que é tão estranho assim alguém querer permanecer em estado bruto? É provável que não, mas é provável que as arestas incomodem mais. Um professor uma vez me disse: "A academia aceita a inovação, mas você tem de ser brilhante!"

Será que valeu a pena?

Tento pensar que sim, mas o desperdício ainda deixa a minha mente embaçada. Talvez seja melhor assim. Um pouco de neblina pra variar. Um poeta de rua uma vez me disse: "concluir é atrofiar"!


Technorati Profile

07 agosto 2007

Você cortou o cabelo?


Não, não cortei, mas depois de ouvir essa pergunta 3x vezes, resolvi escrever sobre porque os cabelos podem mudar de um dia para o outro, sem que a tesoura tenha nada a ver com isso.

O cabelo é feito de uma proteína chamada Queratina. Essas proteínas se ligam umas nas outras através dos seus aminoácidos cisteína. Eu não queria entrar nos detalhes pra não ficar bioquímico demais, mas é tão legal... Os aminoácidos são os 'tijolos' com os quais se constroem as proteínas, e a cisteína é o único deles que possui enxofre (simbolizado pelo S). Quando dois S estão próximos, eles interagem e formam uma ligação, do mesmo tipo das pontes de hidrogênio da água, que todos aprendemos no colégio. Aliás, é justamente através dessas ligações que a água interage com a queratina.

Então, a fibra da queratina também pode interagir com outras fibras, formando um tipo de trança, que é a matriz do cabelo. Como uma espiral e uma trança de verdade, o cabelo acaba ganhando elasticidade e flexibilidade. Quem controla isso são o número dessas ligações que ele possui. Quanto mais pontes dissulfeto, mais apertada é a trança e menos água consegue entrar. Quanto menos pontes dissulfeto, mais pontes de hidrogênio e, portanto, mais hidratado o cabelo. Com isso o cabelo ganha mais peso e volume.

O fio de cabelo tem essa matriz, mas é recoberto de escamas. A cor está no matriz, mas as escamas são importantes em vários processos. Quando alguém pinta o cabelo, a tintura fica presa sob as escamas. Quando o cabelo resseca, as escamas se abrem, como se passássemos a mão contra as escamas de um peixe. E o seu, ou o meu cabelo, ficam que nem no quadrinho. A umidade é a principal razão porque há “dias de cabelo bom e dias de cabelo ruim.”


Fico pensando porque será que me mandaram essa tirinha muitos anos atrás? De ve ser pelo mesmo motivo que mandariam hoje!

A umidade é tão importante para o cabelo quanto o cabelo para a umidade. Até hoje, os sensores dos Termohigrometros, os aparelhos que medem a umidade do ar, são feitos de cabelo humano. Com faixa de medição de 0 à 100% de umidade relativa do ar e precisão de -+ 3%. Não é incrível? O cabelo é uma verdadeira obra prima da engenharia bioquímica!

Mas o cabelo pode dizer muito mais. O cabelo cresce aproximadamente 1cm por mês. Mas isso todo mundo já sabia. O que nem todo mundo sabe é que o cabelo é também uma forma do organismo descartar as coisas indesejáveis que circulam pelo sangue, como drogas e poluentes. O cabelo produzido em um determinado momento, reflete muito da composição do sangue naquele momento. Através da análise do cabelo de mães jovens de comunidades ribeirinhas da Amazônia, podemos estudar a quantidade de mercúrio (simbolizado pelo Hg) que elas ingeriram a gestação e a lactação e o quanto os bebes acabaram sendo expostos.

Quando você faz 'permanente', para deixar os cabelos cacheados, usa calor para quebrar as 'pontes de dissulfeto', enrola o cabelo como quer, e depois usa um produto para refazer as ligações entre a queratina naquela nova 'conformação'. O mesmo para alisar o cabelo.

O cabelo é “morto”. Pelo menos tão morto quanto as unhas, garras e escamas de animais. Que alias, são feitos todos da mesma coisa, da mesma proteína: queratina Mas isso não quer dizer que você pode colocar qualquer coisa nele, qualquer dessas escovas cheias de formol. Seu couro cabeludo esse é bem vivo, não trate ele como defunto.

06 agosto 2007

Amuletos

Césio 137
Tem gente que carrega pedra por proteção. Seja de um amuleto que dá sorte, seja da arma que ameaça. “Estou armado, vai encarar?” Tem ainda outros que carregam por falta de opção (é a pena deles, trabalho forçado ou pedra amarrada no pé mesmo). De qualquer forma não me parece um bom negócio.

Vejam esse exemplo. A radioatividade não foi descoberta de uma vez só. Podemos dizer que começou com os raios-X de Röntgen em 1895. Mas essa era uma radioatividade artificial. Os raios-X eram produzidos pela passagem de eletricidade por um tubo catodo contendo um gás rarefeito. Os Tubos catódicos eram muito utilizados por pesquisadores daquela época para estudar os fenômenos de brilho que eles apresentavam. Henri Becquerel foi o primeiro a observar a radiatividade natural em sais de urânio em 1896. Mas foi o casal Marie e Pierre Curie que desenvolveram em muito o estudo da radioatividade, descobriram que o Urânio se transmuta em Rádio e Polônio por perda de energia e desenvolveram métodos para purificar o Rádio. Foi Marie inclusive que cunhou o termo radioatividade.

Rapidamente os pesquisadores descobriram que aquelas elementos tinham a capacidade de causar alterações biológicas. Curie e Becquerel bolaram então um experimento para investigar as lesões causadas pelas emissões do rádio na pele. Bequerel carregou no bolso de seu colete durante 6 h um vidrinho contendo uma pedrinha (do tamanho de uma cabeça de alfinete) de Cloreto de Bário radioativo (800.000 vezes mais radioativo que o Urânio). 10 dias depois ele observou a formação de uma mancha vermelha no peito, que nos dias seguintes ficou preta. 20 dias depois da exposição havia sido formada uma ulceração que só foi curada com um mês de tratamento com bandagens, deixando uma cicatriz na forma do tubo. Durante esse tempo, uma nova mancha apareceu na posição oposta, referente ao outro lado do bolso, onde o tubo havia ficado menos de 1 h.


A foto mostra a lesão feita propositalmente por Pierre Curie em seu braço com um sal de Rádio e publicada em um jornal francês.

Carregar a pedra no bolso não servia nem para dar boa sorte. Marie e Pierre Currie ganharam o prêmio Nobel de Física em 1903, mas ele morreu atropelado por uma carruagem em Paris em 1906 e ela em 1934 de Leucemia (causada pelos anos de manuseio dos elementos radioativos).

Uma pedra no bolso também foi a razão do acidente radioativo de Goiânia em 1987 se transformar em uma catástrofe. Um velho aparelho de radioterapia foi roubado do prédio de um hospital abandonado pra ser vendido como sucata em um ferro velho. A blindagem da fonte de radiação, com algo em torno de 20g de Césio 137 (primeira foto), tinha mais de 120 kg de chumbo e devia valer alguma coisa. Quem comprou foi Devair Alves Ferreira, que depois de abrir a proteção da fonte a marretadas, ficou encantado com o pó azul brilhante e resolveu levar pedaços da pastilha de Césio para casa. Devair carregou a pedrinha no bolso por vários dias, mostrava para os amigos e vizinhos, em casa e no bar:

"Todos os dias eu pegava aquela pedra. Minha mulher tinha pavor e vivia tapando a pedra. Ela detestava e eu amava a pedra. Eu convivi oito dias com aquela pedra. Tomava cerveja e colocava o copo em cima dela".

Nossa... parece coisa do Senhor dos Anéis. "My precious..." Deu no que deu: 16 mortes e a maior contaminação acidental depois de Chernobyl.

A verdade é que pedras no bolso pesam, tiram a leveza e a velocidade. Prendem. Machucam quem carrega e podem dar câncer.

04 agosto 2007

Homens que choram


Eu sempre chorei a tôa, então sempre tive de conviver com aquela história de que homem não chora. E também que homem não isso e que homem não aquilo.

Por outro lado, nas últimas semanas, tenho ouvido repetidamente as mulheres reclamando dos homens. Que os homens não fazem isso, que os homens não fazem aquilo. Quase tudo que elas reclamam que os homens não fazem, são coisas de mulher. Ou coisa de homem que chora?

Lembrei do texto 'Testosterona' do João Ximenes Braga, onde ele fala dos homens heterosexuais que gostam mais de homens (companhia, papo, interesses) do que de mulheres. São os Men's man. O texto dá ótimas definições, como a dos caras que preferem ficar em rodinhas de outros caras no baixo Gávea e enquanto outros preferem ficar sorrindo para mulheres (ainda que feias) na mesa do bar. Acho que os que choram, devem se encaixar nesse segundo grupo.

Existe um ramo da biologia chamado sociobiologia, que acredita que todos os comportamentos sociais tem fundo genético. Qual a importância de ter fundo genético? É que se está nos genes, de alguma forma isso pode ser passado dos pais para os filhos. E também as escolhas que podemos fazer são muito, muito mais restritas, porque muito já foi decidido no nosso DNA.

A sociobiologia tem seus adeptos, mas é amplamente questionada. Mesmo assim, Edward O Wilson, seu criador e principal teórico e, escreveu em seu livro de 1975 a primeira tentativa de explicar geneticamente o homosexualismo.

Vejam que a parada era duríssima. Explicar as bases genéticas de um comportamento social, que basicamente impede a reprodução e a transmissão genética desse mesmo comportamento. Só que na verdade, já existia uma explicação, que pode ser verdadeira para outros genes que também conferem baixa reprodutibilidade. Nesses casos, a única forma do gene se manter na população, é através de uma maior adaptabilidade dos heterozigotos. Ah... você não lembra o que são os heterozigotos? Vamos supor que a característica 'opção sexual' seja determinada pelos genes H e h. Vamos supor ainda que H seja o gene para o gene para heterosexualidade enquanto h o gene para homosexualidade. E continuar supondo ainda que H seja dominante sobre h. Um homem pode ser homozigoto para a característica 'opção sexual' se tiver ambos alelos (o par de genes que determina uma característica) iguais. O par HH então caracteriza o homozigoto dominante para heterosexual e o par hh caracteriza o homozigoto recessivo para homosexual.

Como os homosexuais, em princípio, não deixam descendentes, então rapidamente o alelo h desapareceria da população. A não ser que... o heterozigoto, aquele individuo que possue um alelo de cada (ou seja um H e outro h), fosse mais adaptado (o que nesse caso quer dizer sucesso reprodutivo), do que o homozigoto dominante para heterosexualidade.

Voltando ao texto do Ximenes, os heterozigotos Hh seriam um tipo de Woman's men. Homens totalmente heterosexuais, mas com maior sensibilidade, mais tato (coisas importantes para as mulheres) e por isso fariam mais sucesso, conseguiriam mais oportunidades de reproduzir, e deixariam mais descendentes.

Os heterozigotos então inflacionam um mercado escasso e criam a ilusão de que podem haver homens que efetivamente sejam capazes de fazer o que as mulheres esperam. Só porque um cara prefere ir ao shopping ou assistir a um drama no cinema na companhia de uma mulher, ao invés de jogar futebol com os amigos; elas inferem que eles vão entender também o que se passa no complexo e caótico universo feminino.

É preciso manter em mente duas coisas: A primeira é que a sociobiologia é uma tautologia, um sistema lógico que encontra explicação em si mesmo e por isso nunca pode ser realmente comprovado. É como explicar que a galinha veio primeiro que o ovo, que veio da galinha. Por isso, essas teorias serão sempre hipotéticas. Bom papo pra buteco. A segunda é que, por mais que tenham um alelo h, os heterozigotos são homens. E como homens, querem exatamente a mesma coisa que todos os outros.

O heterozigoto Hh é só aquele cara mais sensível que come todas as amigas, enquanto os caras machões HH acham que ele é viado.

Diário de um Biólogo – 6a feira 03/08/07


Aula de Sax de manhã. Enquanto ia pro Fundão no meu carro novo toca o telefone: Sandrinha, a secretária da PG pergunta sobre as notas da prova de mestrado. Fico sem graça de dizer que a maior parte dos alunos que se candidataram não sabem nem formular uma hipótese científica, muito menos desenhar o experimento com controles positivo e negativo da questão 1.

Depois de almoçar 600g no quilo, fiquei terminando de corrigir as provas até a hora do evento do dia. A palestra do ministro da saúde José Gomes Temporão. A UFRJ ainda é um lugar onde coisas (um ministro vir falar) acontecem. Fico feliz de ser de lá. Sala cheia, presença do reitor (que não ficou pra palestra) e manifestação do sindicato.

O tema era Saúde, Cultura e Desenvolvimento. Ele mostrou um panorama da saúde, ou de como ele chama "complexo produtivo da saúde" muito claro, identificou os gargalos desse sistema, incluindo a dificuldade de produção de ciência e a transformação dessa ciência em tecnologia no país (o que todo mundo na universidade queria ouvir) e atacou os pontos que todos concordam com propostas também claras. Vindo do cara que, em menos de 5 meses de ministério (em um governo onde a média de permanência é de 9 meses), licenciou o Efavirenz, a gente tem definitivamente que dar um crédito pra ele. Terminou dizendo: "Não me importo de desagradar os outros porque não sou candidato a nada. Por mim estava dando aulas na Fiocruz, que é o que eu gosto de fazer. Mas se é pra ser ministro, é pra mudar alguma coisa". Outro dia o Blog recebeu a indicação do Blog com tomates, sendo tomates, no português de portugal, sinônimo de culhões, que é sinônimo de coragem. Esse é um ministro com tomates!

De noite teve festa na Cris pelo aniversário da Ana. As conversas giraram em torno do habitual: diferenças entre homens e mulheres. Mas isso é pra ser discutido em outro texto.