Você que é biólogo...

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29 março 2009

Mudamos... para melhor!


O Você que é Biólogo... agora está no portal Scienceblogs (http://scienceblogs.com.br/vqeb), com a ilustre companhia de outros colegas blogueiros de ciência. O espaço aqui no blogspot continua, com versões dos textos voltadas para alunos do ensino médio, que querem conhecer também a vida como ela é do ponto de vista do cientista. Aguardamos a sua volta aqui e a sua visita .

12 novembro 2008

O laboratório do Nobel


Para um biólogo, viajar para o exterior é uma necessidade por muitos motivos. Primeiro os gringos tem mais grana que a gente e uma infra-estrutura muito melhor que a nossa. Lá (ou aqui, onde estou agora) você consegue alcançar em 6 meses resultados que não conseguiria no Brasil em 2 anos. Outra razão é ir atrás do conhecimento ONDE ele está sendo produzido ao invés de esperar que ele chegue até você.

O Instituto Oceanográfico de Woods Hole (WHOI) é uma das maiores instituições de pesquisa do mundo. Sabem aquele mini-submarino que vocês vêem explorando as profundezas do oceano no Discovery Channel, o Alvin? É daqui.


Na mesma cidade, que não é maior que um campus universitário, está o ainda maior e ainda mais antigo Marine Biological Laboratory (MBL). Juntos esses dois institutos já hospedaram mais de 50 premios Nobel. Inclusive um dos três ganhadores do prêmio Nobel de química desse ano, o japonês Osamu Shimomura que atualmente é cientista Emérito do MBL, pela descoberta da proteína verde fluorescente GFP (do inglês Green Fluorescent Protein). Vocês já devem ter lido muito na imprensa sobre ela, então eu vou passar a fofoca dos bastidores.


O MBL ganhou o Nobel, mas a patente da GFP está enchendo os cofres do WHOI, do outro lado da ponte (sobre o canal que atravessa Woods Hole). Foi aqui, no mesmo departamento onde estou trabalhando, com o mesmo chefe, que Douglas Prashero, o 'cientista injustiçado' trabalhou e isolou o gene da GFP.


Lendo o artigo do G1 reconheço ali todas angustias de um pesquisador. Não basta a habilidade técnica na bancada. Ele tem de saber escrever um bom projeto para conseguir fundos para pesquisa, tem de saber convencer seu chefe e seus pares da importância do seu trabalho para que a instituição lhe dê infra-estrutura e tem que suportar a pressão de viver com a instabilidade da bolsa pelo tempo que for necessário. Aqui nos EUA existem já vários cursos de 'gerenciamento de carreira científica', mas ai no Brasil, só conheço a iniciativa da qual participei, em 2001 e 2006, quando junto com Stevens Rehen realizamos o 'Dicas de sobrevivência na academia': um mini-curso no congresso da FeSBE que alertava os alunos para os 'não-tão-óbvios' problemas que eles podem encontrar ao longo da sua carreira.

Prashero não foi o primeiro pesquisador com potencial a se transformar em motorista de Van, e até que esses cursos se tornem uma rotina na pós-graduação, não será o último.

19 outubro 2008

Teste de relevância


Preciso falar sobre isso porque é algo que tomou grande parte do meu tempo esse ano. Essa semana começa o meu módulo no curso de especialização em Gestão em Educação a distância da Universidade Aberta do Brasil.

Uma das aulas que escrevi, trata do papel do professor em um mundo saturado de informação. É uma aula muito boa, que vem sendo bastante elogiada e da qual eu estou muito orgulhoso. Para essa edição da disciplina que se aproxima, bolei uma atividade online bastante simples, mas tão interessante e rica, que resolvi dividí-la com vocês.

O texto a seguir é um trecho da discussão entre o prof. Coleman Silk e a profa. Delphine Roux, personagens do livro “A Marca Humana” de Philip Roth (pp. 246-247).

“O grau de conhecimento desses alunos é, sacou, tipo assim, zero. Depois de quarenta anos lidando com esse tipo de aluno – e a senhorita Mitnick é bem típica – posso lhe afirmar que nada poderia ser pior para eles que uma leitura de Eurípides com uma perspectiva feminista. Apresentar aos leitores mais ingênuos uma leitura feminista de Eurípides é uma das melhores maneiras que se pode imaginar de desligar o raciocínio deles antes mesmo de ter oportunidade de começar a demolis o primeiro ‘tipo assim’ deles. Chego a achar difícil de acreditar que uma mulher instruída, com uma formação acadêmica francesa como a sua, seja capaz de acreditar que existe uma leitura feminista de Eurípedes que não seja pura bobagem. Será que você realmente se converteu em tão pouco tempo, ou será apenas uma manifestação do tradicional carreirismo ditado pela medo das suas colegas feministas? Porque se for mesmo carreirismo, por mim tudo bem. É uma coisa humana, eu compreendo. Agora, se for um compromisso intelectual com essa idiotice, então eu estou pasmo, porque você não é nenhuma idiota. Porque você é uma pessoa instruída. Porque na França ninguém na École Normale levaria essa bobajada a sério. Será possível? Ler duas peças como Hipólito e Alceste, depois ouvir uma semana de discussões em sala de aula sobre cada uma delas, e no fim não ter nada a dizer sobre as duas peças além de que são ‘degradantes para as mulheres’ – isso não é perspectiva coisa nenhuma meu Deus – isso é abobrinha. Abobrinha da Moda”

Após a leitura, proponho a pergunta: Qual a informação mais relevante desse texto? E as seguintes opções de resposta, pedindo que escolham apenas uma:

  1. O professor Coleman é machista e a professora Delphine é feminista.
  2. Quando um professor fornece uma interpretação de um texto ele direciona a interpretação que o próprio aluno pode fazer do texto.
  3. O público alvo de ‘alunos burros’ não deve ser tratado com burrice.
  4. Não há informações relevantes nesse texto ou não posso identificar informações relevantes nesse texto sem haver lido o livro e os clássicos gregos.

Eu proponho essa pergunta também a vocês, para responderem na nova enquete colocada no blog (veja ao lado). Sim, por favor, respondam antes de continuarem a leitura.

Em um mundo saturado de informação e com tecnologias que aprimoram a cada dia o armazenamento e o acesso das pessoas a essa informação, não há mais sentido na figura do professor como o detentor do conhecimento. Ou pelo menos, como o único detentor do conhecimento. Como disse Cristovão Buarque em entrevista a revista Isto É no ano passado:

O aluno que navegou a noite na internet, chega de manhã na aula sabendo coisas que o professor desconhece”.

Acredito que o papel do professor será cada vez mais de orientar o aluno na busca e seleção da informação. O professor será um especialista em relevância e o que ele ensinará para os alunos, independente da disciplina, é relevância: a arte milenar de separar o Joio do trigo. O problema é que os professores ainda não chegaram lá e eles próprios têm um problema para determinar relevância. Vamos analisar as respostas desse questionário.

  1. O texto diz que ele é contra uma leitura feminista do texto de Eurípides enquanto sugere que ela é a favor. Sim, há um tom autoritário e irônico no discurso de Coleman, mas não há elementos suficientes no texto para classificá-los, respectivamente, como machista e feminista. Porém, mais importante que isso é que esse não é o núcleo do discurso, e por isso não pode ser a informação mais relevante do texto. Quem marcou essa opção, fez uma leitura pessoal, que não pode ser sustentada pelas informações contidas no texto.
  2. Thomas Kuhn dizia que o ‘manual’ era um dos maiores inimigos do aprendiz de ciências, porque ao dar o procedimento final pronto, ele impedia que o aluno passasse pelo processo da descoberta, que tanto favorece a sua compreensão e aprendizagem. Essa é, para mim, a informação mais relevante do texto: o grande prejuízo de um professor fornecer para os alunos um raciocínio já pronto.
  3. O mesmo conteúdo pode ser ensinado para alunos com diferentes potenciais, mas certamente não da mesma forma, nem com as mesmas estratégias. Alunos que já sabem ‘pensar’ por si próprios podem começar a discussão de uma peça ou um autor, por uma de suas releituras. Alunos que ainda não sabem, precisam primeiro aprender a ter uma leitura. Dar uma leitura pronta para esses alunos, é auxiliar o ‘sistema’ no processo de exclusão educacional e social dessas pessoas. Não dar o conteúdo dos clássicos, porque ele é ‘difícil’ e tratá-las como burras. Nivelar por baixo. Um bom professor não pode fazer nenhuma das duas coisas. Nunca! Para mim essa não é a informação nuclear do texto, mas ainda assim é um acessório muito relevante.
  4. Esse fragmento de texto contém um discurso rico, independente do contexto em que foi pronunciado. É verdade que existem textos com lacunas demais, onde é praticamente impossível identificar o núcleo conceitual ou as prioridades do autor; mas na maior parte das vezes, não precisamos saber o todo para entender uma parte. As colocações contundentes certamente permitem que preenchamos algumas lacunas com precisão. Quem marcou essa opção, ou estava muito desatento, ou tem uma séria dificuldade para estabelecer relevância.

Outro dia vi no “Sem Censura” um gerente de RH falando que atualmente o que vale é inovação. É isso que se vende, é isso que se compra (ou pelo menos se vendia e se comprava antes das bolsas quebrarem) e é isso que as empresas querem dos seus empregados. Inovação. Mas para criar algo inovador e importante, é fundamental saber determinar o que é relevante entre o que já existe. Com os computadores ai para guardarem e procurarem a informação com uma eficiência maior do que qualquer ser humano jamais (?!) será capaz, o diferencial do professor, e de qualquer outro profissional, estará na sua habilidade de determinar a relevância da informação. Que é também o primeiro passo para a inovação.

Uma atividade como essa, pode ajudar o professor a sacudir a poeira do seu ‘paradigma de ensino’ e contribuir para uma nova postura com relação a informação, ao conteúdo e a transferência desse conteúdo para os alunos.

26 abril 2007

O que os brasileiros pensam da ciência?

Ontem foi um dia movimentado para a ciência no Brasil. Foram publicados o Relatório institucional do CNPq, referente à gestão de 2003 a 2006; e uma pesquisa encomendada pelo MCT (ministério da ciência e tecnologia) quanto a percepção da população em relação ao universo da C&T.

Não vou comentar o relatório todo (óbvio). Como vocês sabem (ou deveriam saber) eu sou luto pela causa dos jovens cientistas e pós-graduandos. Então vou comentar os pontos onde CNPq se destacou nessa área: o Primeiros Projetos (PPP), a Iniciação Científica Júnior (ICJr) e o Pós-doutorado Júnior. Depois de mais de 10 anos houve aumento no valor (e número) das bolsas de Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado e Produtividade em Pesquisa.

Outra coisa legal foi o aumento significativo na participação de mulheres na pesquisa: 52% das bolsas de mestrado e 50% das de doutorado foram concedidas a mulheres, que ainda propuseram 41% dos projetos submetidos à agência no período. A agência foi de uma transparência impar e inédita na sua prestação de contas.

Mas o mais interessante foram os dados da pesquisa da percepção da C&T, feita com mais de 2000 pessoas em todo Brasil no final de 2006 (veja na integra aqui ). A última pesquisa do gênero havia sido feita há mais de 20 anos atrás (veja aqui também). Foram entrevistadas 2.004 pessoas, de 16 Estados brasileiros. Do total, 854 pessoas da região Sudeste; 557 da região Nordeste; 293 do Sul; 155 da região Centro-Oeste; e 145 do Norte. Todos os jornais do país publicaram alguma coisa sobre ela e eu vou publicar também.

A pesquisa aponta que a televisão é o meio mais usado para conhecer a ciência: 15% dos entrevistados dizem ver com freqüência programas que tratam do assunto (esse número não é baixo?). Os jornais e as revistas vêm em seguida, com 12% cada. E o quarto meio, com 11%, vejam só, é a conversa entre amigos! A internet fica em quinto, com 9%. Pelo visto o meu blog não contribúi muito :-(.

Apenas 4% já foram alguma vez a um museu de ciência. A principal desculpa, dada por 35% dos participantes, é que não existe nenhum na região onde moram (31%, “não tem tempo para ir” e 22% “não está interessado”). A verdade é que nossos museus de ciência não são capazes de atrair nem quem nem quem nunca foi a um. Se você já tiver ido ao museu da ciência de Londres ou o de história natural de NY... aí fica ainda mais complicado. Ainda assim, apenas 28% visitaram o jardim zoológico, jardim botânico ou parque ambiental; 25%, uma biblioteca pública; 13%, feira de ciências ou olimpíadas de ciências ou de matemática; 12%, museu de arte.

Quando estimulados a responder sobre o nível de interesse que têm sobre ciência, 41% disseram ter "muito interesse". Quando o assunto é política, esse número cai para 20%.
Parece que esse mesmo número, 41% dos consultados, acha que o país está numa posição intermediária nas pesquisas científicas em relação a outros paises. E que a ciência trás mais benefícios que malefícios à sociedade.

Quando perguntadas sobre os assuntos científicos de maior interesse, 36% responderam informática 35% adoram notícias de novas descobertas da ciência e 30% notícias sobre novas tecnologias. Isso me sugere que as pessoas continuam sem entender o que é ciência, mas adoram o principal fruto dela: tecnologia!

Entre uma lista de nove temas que ia de moda a religião, “medicina e saúde” alcançou a média mais alta sendo considerada muito interessante por 60% dos participantes. Em seguida meio ambiente. Ciência ficou em sexto lugar, na frente de arte, cultura e moda; mas atrás de religião (mas pau a pau com esporte). Política, hehehehe, veio em último lugar. O ministro, que vê a falta de espaço na mídia como um dos fatores para a pouca divulgação científica, deu uma alfinetada nos jornais, dizendo que eles “deveriam manter espaços diários sobre o assunto. Seriam muito mais lidos que as fofocas do Congresso.”

Mas as notícias não são tão boas quanto parecem. Mais da metade dos 2004 entrevistados disseram ter pouco ou com nenhum interesse em ciência e tecnologia. Deles, 37% responderam que a falta de interesse se dá pelo fato de não entenderem o assunto. Mas 24% dizem não ter tempo para isso. O ministro Sergio Rezende disse que “a sociedade brasileira não tem percepção de quanto a ciência é importante". Continuou: "Espero que a criação da TV pública crie outras oportunidades além da programação das novelas. A TV pública terá importante papel educacional e na divulgação da ciência." Mas como eu já havia dito aqui, o ministro completou que “o imprescindível é investir em educação científica nas escolas. O ensino de ciências é enfadonho!”


Outra razão deve ser essa: 27% dos entrevistados apontaram os jornalistas como fonte de informação científica mais confiável. Logo em seguida vêm os médicos com 24% e os cientistas que trabalham em universidades vêm só em terceiro lugar, com 17%. Acreditem, os religiosos alcançaram 13%. Os políticos... 1%. Aparentemente, nem na Europa, os jornalistas não detêm uma confiança tão grande da população. Como eu leio as seções científicas dos jornais e sei que eles se “enganam” muito, isso me preocupa.

Ildeu de Castro Moreira, responsável pela pesquisa, concluiu que “o ensino de ciências precisa melhorar bastante e temos de aumentar a qualidade da divulgação científica na mídia e em outros meios, como museus. Claro que ninguém tem obrigação de gostar de ciência, mas tenho certeza de que esses números vão melhorar quando o ensino ficar mais atraente”.

PS: Para quem quiser saber mais sobre o assunto, dia 2 de maio, às 14h, no Auditório do Museu da Vida na Fundação Oswaldo Cruz haverá uma mesa redonda com a presença do organizador da pesquisa apresentando seus resultado.