Você que é biólogo...

Mostrando postagens com marcador pseudociência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pseudociência. Mostrar todas as postagens

28 dezembro 2008

O que o seu astrólogo não vai dizer


A validação pessoal é um dos dois problemas que eu tenho com a astrologia. É o problema que foi apresentado no último post. As pessoas acreditam em, e confirmam, qualquer coisa que você disser a elas sobre elas.

Não é por maldade ou fraude, mas simplesmente porque as características que determinam a unicidade de um indivíduo podem ser encontradas em qualquer indivíduo. O que diferencia cada um é o grau com que apresenta (ou manifesta) cada uma dessas características. Forer já havia dito isso há mais de 50 anos. Eu já havia dito algo parecido sobre a importância das 'doses' de qualquer coisa.

O problema da 'validação pessoal' nos testes de personalidade é que geralmente esses são os chamados 'testes positivos', onde a evidência é recolhida através de uma resposta afirmativa. Tipo: "Você gosta de festas?" "Sim!" Logo, você é uma pessoa sociável (parece a piada do português sobre lógica, mas essa fica pra depois).

Muitos autores já mostraram que, em casos de julgamento sobre a nossa própria personalidade, o nosso 'ego', nós possuímos informações detalhadas e complexas sobre nossa história passada que em geral são diversas e muitas vezes contraditórias. Por isso, para praticamente qualquer afirmação ou condição proposta, nós deveríamos encontrar evidência que comprova a proposta. Que comprova a hipótese.

Um autor Inglês Martin Davies mostrou que o nosso 'ego' é ainda mais tendencioso. Ele mostrou que uma hipótese é mais difícil de ser confirmada quando o teste proposto é um 'teste negativo', onde a pergunta espera uma resposta negativa do tipo: "Você é um cara que gosta de ficar em casa?" "Não" para confirmar a hipótese de que gosta de ir a festas.

O problema é que quando alguém propõe um teste positivo para confirmar uma hipótese, e depois um teste negativo para fazer uma verificação do primeiro, o seu cérebro simplesmente impede o acesso as memórias que contradiriam a primeira afirmação. Você pode ter um monte de lembranças de quando prefiriu ficar em casa do que ir a uma festa, mas depois de dizer que gosta de ir a festas, vai lembrar de várias festas memoráveis, mas não lembrará de nenhum sábado feliz junto a TV vendo Supercine.

Como diria o filósofo Bonovox: "She (a mente) moves in misterious ways" (que excelente lembrança, adoro essa música e vou colocar pra tocar agora).

A mente, simplesmente, opera de maneira a dar um parecer 'confortável' para o indivíduo em uma determinada situação, mas essa sensação de conforto e segurança significa que a confirmação pelo indivíduo será, sempre, tendenciosa. Isso sem que haja nenhuma racionalização.

Se já somos tendenciosos naturalmente, imagina quando há algum interesse em jogo?! O mesmo estudo mostrou que se um indivíduo é motivado a confirmar uma característica do seu ego, não importa se ela é apresentada em um teste positivo ou negativo: ele ira confirmar a característica. O autor não sabe identificar quais características, e em quais situações, influenciam na decisão da confirmação, mas eu posso pensar em uma ou duas:

Quando tinha 19 anos fui a uma boate que existia no Clube Naval em Xaritas (Niterói) com um amigo. Conhecemos duas meninas e fomos bater papo na varanda do clube. Aquela que conversava comigo começou a falar da lua e ai eu comecei a falar estrelas. Eu sei, é meio cafona, mas eu tinha 19 anos e estava motivado. Mas ai ela perguntou meu signo e eu comecei a dizer que não acreditava em astrologia, que a física do mapa astral era ainda a mesma da época de Ptolomeu, quando se conheciam apenas 5 planetas e a Terra era o centro do universo. Oh Gosh, A astrologia não reconhecia Copérnico! Não preciso dizer que só meu amigo beijou na boca aquela noite. Eu fiquei ...vendo estrelas. Desde então sou motivado a responder a responder que sou de Virgem, independente de não acreditar no que isso representa.

Isso encerra a primeira razão pela qual eu não acredito em Astrologia, mas também já introduz a segunda: Não há como funcionar simplesmente porque a ferramenta de cálculo é totalmente imprecisa e inacurada. É errada.

Um estudo duplo cego (aqueles ondes quem planeja não conduz, quem conduz não analisa e quem analisa não planejou, e que por isso são os mais livres de observações tendenciosas), da astrologia publicado na revista Nature com os melhores astrólogos dos Estados Unidos, recomendados pela associação americana de astrólogia pela sua incrível e incontestável expertise, mostrou que o acerto é mero acaso.

Cem astrólogos receberam 100 mapas astrais de 100 voluntários e também os dados necessários para a formulação do mapa astral desses indivíduos (data, horário em minutos e local exato de nascimento). Junto com o mapa correto daquele indivíduo, o astrólogo recebia dois outros mapas de duas outras pessoas, que tinham o mesmo signo astral. O trabalho deles, dos astrólogos, era indicar, dentre as 3 possibilidades (o mapa correto e os outros dois incorretos) qual era o mapa daquela pessoa. A taxa de acerto foi de 30%. Como havia 1 mapa correto em 3, 30% significa que eles acertaram por acaso. Quem quiser mais detalhes pode ver o artigo de Shawn Carlson no vol. 318 da Nature de 1985.

Trinta por cento! Imaginem se houvesse 1 mapa correto em 5? Seria 20%. E se houvesse 1 em 10? Seria 10%. Não existe ciência ou filosofia ou paranormalidade: é puro acaso!

Com essas dicas, eu ou você podemos agora mesmo montar uma barraquinha na praia de Copacabana na Noite de Reveillon e começar a fazer mapa astral da galera. Ou não.

Mas por via das dúvidas, não fale nada de Ptolomeu ou Copérnico. Você pode ficar a ver estrelas também!





Tudo que o astrólogo vai dizer pra você


É final de ano e as pessoas tendem a correr para o seu shamã de plantão para saber as previsões para o próximo ano. Resolvi me antecipar e dizer para vocês, quem quer que vocês sejam, o que o seu astrólogo, tarólogo, numerólogo, pai de santo, padre, vai dizer pra você:
  1. Você tem uma grande necessidade que outras pessoas admirem e gostem de você.
  2. Você tem uma tendência para ser crítico com você mesmo.
  3. Você tem um grande potencial não aproveitado que você ainda não utilizou em seu favor.
  4. Apesar de você ter algumas falhas de carater, você geralmente consegue compensá-las.
  5. A sua conduta sexual já trouxe problemas pra você.
  6. Apesar de disciplinado e bastante controlado para com os outros, você tende a ser preocupado e inseguro com você mesmo.
  7. De vez em quando você tem sérias dúvidas quanto a ter tomada a decisão correta ou feito a coisa certa.
  8. Você prefere uma certa dose de mudança e variação e fica insatisfeito quando é impedido por restrições ou limitações.
  9. Você é orgulhoso de ter independência de pensamento e de não aceitar afirmações de outras pessoas sem evidências satisfatórias.
  10. Você já descobriu que nem sempre é esperto ser franco e se revelar para os outros.
  11. Algumas vezes você é extrovertido, afável e sociável; outras vezes é introvertido, desconfiado e reservado.
  12. Algumas das suas aspirações tendem a ser bastante pouco realistas.
  13. Segurança é um dos seus principais objetivos de vida.
Não é a toa que você se identificou com várias das afirmações acima. Elas são os que os psicólogos chamam de Universalscharakteristik: traços universais de personalidade que configuram declarações universalmente válidas. São completamente genéricas e não tem qualquer validade para diferenciar qualquer duas pessoas

Essas em especial foram retiradas de livros comuns de astrologia e publicadas em um estudo de Bertram Forer chamado "A falácia da validação pessoal" de 1948 que será assunto do próximo post.

Mas é impressionante saber em qualquer grupo de pessoas testadas desde então, classificaram, em uma escala de 0 (incorreto) a 5 (corretíssimo), em média, essa lista com valor acima de 4! Ou seja, refletindo muito bem a sua personalidade.